Crítica

Uma residência em Telavive

Um livro em que a representação do corpo feminino e dos espaços urbanos se abre ao nosso olhar e às nossas mãos

Ainda é cedo para anunciar o florescimento da edição do livro de fotografia em Portugal, mas vão-se avistando, aqui e ali, objectos que requerem outras experiências que não as do livro tradicional ou da exposição. “Things Here and Things Still to Come”, de José Pedro Cortes, é um desses objectos. Oferece-se às nossas mãos, à nossa posse, sendo que não abriga palavras e textos, apenas imagens fotográficas.

Exageramos. Em jeito de prólogo, o artista escreve numa página, abrindo o véu: “For nine months I lived in Tel Aviv. During this time I met four young Jewish women who were born in the USA. They had all decided, at the age of 18, to go to Israel to do the military service. After completing the required two yers of service, they decided to stay and live in this idylic Middle Eastern city”

E é a única concessão à escrita. A parti daí, folheamos e abrimos as imagens. Retratos das mulheres, semi-despidas ou nuas, das paisagens urbanas em volta, de lugares devolutos e objectos abandonados. A evocação dos géneros (fotográficos) não surge de forma programática. Deambulando pela cidade e pelos espaços íntimos das ex-soldados, José Pedro Cortes torna-se confidente daquilo que fotografa, apanhando intuitivamente fragmentos de uma “residência”.

O seu gesto não evita as tensões que aclaram nos rostos e nos corpos. Fixa-as, rouba-as. E compõe um ambiente maculado de cores chãs, manchas e sombras, como são todos os quotidianos. Só vemos um nu fugidio num baço preto e branco; de resto, nenhuma mulher surge totalmente vestida ou despida, nem reproduz os actuais estereótipos da beleza feminina: há rugas, desarmonia, cansaço, calor.

José Pedro Cortes não nos mergulha nestas fotografias. Vai, página a página. deixando-nos entrar. Por isso, a curiosidade reduz-se em favor de um olhar melancólico sobre a dignidade mundana dos sujeitos que não são apenas as mulheres. São também os lugares: paredes, ruas, traseiras de prédios, veículos, por vezes numa relação campo/contracampo com as figuras femininas.

Há uma evidente “mise-en-page” no modo como o livro se abre à leitura; um cuidado com o formato e com os limites das fotografias e do papel. Algumas imagens deitam-se sobre duas páginas, outras são interrompidas por um branco vazio que, qual elipse, introduz diferentes temporalidades e sequências ou estimula o leitor a pensar o que vê sem referentes ou coordenadas espácio-temporais: como uma experiência, uma abstracção. Mas basta um folhear e nunca saímos do mesmo ambiente, da mesma “cena”. José Pedro Cortes faz-nos, sempre, regressar às suas personagens.

E com efeito “Things Here and Things Still to Come” assemelha-se a uma narrativa. Tem um princípio e um fim verosímeis, (procurem a primeira e última página) e certos motivos e figuras regressam de páginas que tinham ficado para trás. O leitor tenta então juntar os pontos, ligar as acções. É uma tarefa difícil, quase impossível. Cada página é uma aparição, um brilho efémero.

Resta a possibilidade de uma ficção, que o artista não enjeita, aliás, promove no início do livro. O que viram estas mulheres? Serão amigas? Ainda mantém a nacionalidade americana? Conhecem ou passearam-se por aquelas paisagens urbanas? Cabe ao leitor dar as respostas a essas ou outras perguntas. Inventar os romances, a poesia ou os contos que elas sugerem.