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Austeridade foi a palavra mais votada em 2011 Nelson Garrido
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Austeridade foi a palavra mais votada em 2011 Nelson Garrido

A "austeridade" aniquilou a "esperança" em 2011

Linguistas da Porto Editora escolheram dez palavras que marcaram 2011 e quase 13 mil cibernautas deram o voto final. Austeridade marcou (mesmo) o ano em Portugal

Ainda há quem tenha esperança, quem seja positivo no meio do caos, quem queira esquecer a crise – e a austeridade, a "troika", o desemprego, a emigração e o subsídio. Mas não é essa a força que predomina: a julgar pela Palavra do Ano, eleita por quase 13 mil cibernautas, a "austeridade" marcou mesmo Portugal em 2011.

Quando as votações abriram - às cinco palavras acima juntaram-se "esperança", "charter", "fado", "voluntariado" e "sushi" -, a tendência foi imediata: "austeridade" foi desde cedo a palavra com mais cliques. Mas os dias que antecederam o Natal pareceram mudar a inclinação - a "esperança" chegou a ameaçar a "austeridade", mas foi aniquilada nos últimos dias do ano. 

"As pessoas encontraram aqui uma oportunidade para fazer um manifesto. Para dizer 'foi mesmo a austeridade o que marcou o nosso ano', para dizer que não há contos de fada", acredita Paulo Gonçalves, do gabinete de comunicação da Porto Editora. E acrescenta: "Quando revelamos que a esperança estava a chegar ao primeiro lugar houve um movimento para repor a verdade". 

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Paulo Gonçalves, Ana Salgado e Pedro Lopes, da Porto Editora Nelson Garrido

Pressões externas

Na equipa responsável pelos dicionários, que seleccionou as dez palavras que foram a votos, todos apostavam que a palavra mais votada seria "troika". Mas Paulo Gonçalves não esconde que a eleição de uma palavra positiva seria mais bem recebida por algumas facções: "Fomos de alguma forma pressionados - simpaticamente pressionados, a nível externo - para que ganhasse uma palavra positiva".

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Paulo Gonçalves, Ana Salgado e Pedro Lopes, da Porto Editora Nelson Garrido

Cinco das dez palavras escolhidas pelas lexicógrafas (assim, no feminino, já que o departamento de dicionários da Porto Editora conta com nove linguístas, todas mulheres) eram relacionadas com crise. Ana Salgado fala da tarefa do ano 2011 como "particularmente difícil": "Para além da elevação do fado [a Património Imaterial da Humanidade], não havia um único acontecimento que tivesse marcado positivamente o ano", como aconteceu em 2010 com o Mundial (que acabou por eleger a palavra "vuvuzela"). Em 2009, quando a eleição não pertencia ainda ao público, a palavra "esmiuçar" foi a preferida.  

Para a escolha das dez palavras foram usados critérios como a frequência do uso, a relevância assumida ou mesmo a relação com um tema muito marcante. "No fundo, é o mesmo que fazemos com a actualização dos dicionários. A diferença é que para além do trabalho léxicográfico temos de estar atentos a todos os fenómenos e acontecimentos da sociedade", explica a linguista Ana Salgado.

Novos sentidos

A ideia de que a Palavra do Ano tem tendência para cair sobre um neologismo é errada: este ano, não havia na lista nenhuma palavra nova. O que existia eram novos sentidos para "velhas" palavras. A palavra "troika" já existia no dicionário, mas foi actualizada: "A etimologia da palavra já era o conjunto das três pessoas, mas tivemos o cuidado de acrescentar por extensão de sentido a delegação ou grupo de trabalho constituído por três pessoas". 

À palavra "fado" foi acrescentada a informação de elevação a Património Imaterial da Humanidade e mesmo à "austeridade" foi acrescentado o sentido de "contenção de gastos" e "política governamental que procura reduzir a despesa pública". Já "charter" - uma palavra popularizada pelo antigo jogador de futebol Paulo Futre - continua a ser apenas e só um avião fretado, ainda que não tenha sido por isso que foi incluída na lista. 

É ao departamento digital da Porto Editora que cabe a tarefa de perceber tendências quantitativas. São analisadas as "correntes de pesquisa" de palavras na internet. A palavra "sushi", por exemplo, foi a mais pesquisada nos telemóveis e "tablets" no ano passado. "É interessante tentar perceber que correntes são estas que levaram o sushi ao topo da lista e que neste momento tenha sido substituído por 'tempura'", explica Pedro Lopes.  

O que não precisou de confirmação foi a avalanche de palavras relacionadas com crise que andaram na boca do povo o ano todo. "Havia reuniões em que no fim nos apetecia tomar antidepressivos", brinca Paulo Gonçalves. "A palavra 'crise' não faz parte das dez, mas está presente em quase tudo."

Falta política para a língua

De fora ficaram ainda palavras como "indignados" ou "tsunami". "Não diziam tanto respeito a situações nacionais", justifica Ana Salgado. Além de uma espécie de manifesto por parte de quem vota, a iniciativa Palavra do Ano pretende dar a conhecer o trabalho deste departamento da Porto Editora. "As pessoas não fazem ideia do que fazemos", acredita Ana Salgado.

Na base de dados lexical da editora há um repositório de mais de 300 mil palavras (o maior dicionário da Porto Editora tem menos de 100 mil palavras). Não basta que uma palavra comece a ser usada para que entre no dicionário: "A Porto Editora é descritivista, as preocupações normalizadoras compete à Academia de Ciências de Lisboa, a entidade que supostamente deve dar resposta". 

"Acontece que há uma ausência de política nacional ao nível da língua. Não é que o dicionário seja lei, mas o que lá está é muito importante", remata Ana Salgado. 

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