Jerónimo Martins

Soares dos Santos diz que não saber se Portugal fica no euro pesou na mudança

"A banca está simplesmente incapaz de nos ajudar", lamentou Soares dos Santos
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"A banca está simplesmente incapaz de nos ajudar", lamentou Soares dos Santos Foto: Nuno Ferreira Santos

O presidente da Jerónimo Martins (JM), Alexandre Soares dos Santos, afirmou não saber se Portugal fica no euro e garantiu que a transferência do accionista maioritário da empresa para a Holanda teve em conta essa hipótese, insistindo que tem direito a “defender” o seu “património.

“Verificámos que a Holanda é o país que melhores garantias oferece à iniciativa privada muito por causa dos acordos que tem com outros países (...), mas também na protecção do investimento”, explicou Soares dos Santos numa entrevista dada ao semanário Expresso, em que lamentou ter verificado que estava “no meio de uma guerra política” e disse não saber se “Portugal fica no euro”. “E se sair é para o escudo. Tenho direito a de defender o meu património”, avançou.

Na entrevista em que aborda diversos assuntos polémicos, em particular o da transferência para a Holanda da empresa da família de Soares dos Santos, que tem 56% da JM, o presidente de um dos maiores grupos de distribuição português justificou que a decisão não teve a ver com os impostos elevados que se pagam em Portugal, embora tenha reconhecido que há vantagens fiscais no futuro. “A transferência (...) não teve nada a ver com impostos. Não sei se vou pagar mais ou menos impostos. Houve uma revolução em 1974 mas no parlamento continua a insultar-se a iniciativa privada”, salientou.

Segundo Soares dos Santos, “os diferentes Governos de Portugal nunca apoiaram a iniciativa privada e nunca tentaram cativar as holdings” e, por outro lado, realçou que “a banca está simplesmente incapaz de nos ajudar”. “Desde 2008 que sabemos que não podemos contar com a banca portuguesa para financiamento [de investimentos]”, sublinhou.

O empresário explicou ainda ao Expresso que haverá vantagens fiscais “no futuro” nesta transferência para a Holanda e admitiu que o planeamento fiscal “é um direito legítimo de uma sociedade”. “A maior parte dos nossos impostos é fruto da má gestão de quem tem a responsabilidade de gerir o dinheiro dos contribuintes. O planeamento fiscal é um dos factores, os outros são o ambiente que nos recebe, as garantias que esse investimento tem e que Portugal não oferece”, lamentou.

Soares dos Santos referiu ainda que “Portugal deveria ter pedido ajuda [externa] entre 2007 e 2008”, falou da ausência de uma legislação “constante, coerente e consistente” que diga ao investidores: “Vem és bem recebido, és bem tratado”, e questionou o facto de ter de pagar “tanto à [eléctrica] EDP, que ainda por cima é um monopólio”. Sobre a entrada do capital chinês na EDP disse: “Não conheço como gerem as empresas, não é uma economia de mercado, não sei a qualidade da gestão”.

O empresário alertou ainda para que em Portugal “há um poder instalado que é contra tudo e que liquida tudo” e disse “não perceber porque é que os partidos políticos, empresários e os sindicatos, sob a égide do Presidente da República, não se sentam para procurar uma solução em conjunto”.