Crítica

É a cabeça

“Martha Marcy May Marlene” entra num edifício do medo: a nossa cabeça

“Tu pareces uma Marcy May”, diz-lhe o guru, espatifando-lhe a identidade. Martha também responde pelo nome “Marlene”. Esta é a história de uma rapariga que tenta reclamar uma vida normal depois da experiência numa seita (espantosa actriz, presença agreste: Elizabeth Olsen).

O espectador deste filme de Sean Durkin também tem de ir fazendo ajustamentos na sua percepção: para reconhecer em que filme está, ajustando a memória e a experiência dos “géneros” ao que está a ver. Tentando reconhecer por entre os ecos... uma casa no lago, no Connecticut, por exemplo, podia ser um “flash” de outro género de filmes, de um melodrama, como o “Leave Her to Heaven”, de John M. Stahl. Já a inquietante passividade das raparigas submetidas ao guru (John Hawkes) trazem-nos ecos das imagens que vimos na televisão reportanto as proezas de um tal Charles Mason.

“Filme de terror”, ou “thriller psicológico”, começa então a mostrar-se “Martha Marcy May Marlene”. Podemos, com alguma segurança, assentar amarras aí. Nós, porque Martha não vai encontrar descanso.

Isto serve para dizer que Sean Durkin submete o espectador a uma dança de fantasmas de memórias e expectativas - como as possibilidades deste título, “Martha Marcy May Marlene”, que indicam os nomes que uma rapariga assume no seu processo de perda de identidade (a seita) e que mostram que se ela pode ser todos eles, se calhar não é nenhum.

A “realidade” sempre à beira de não ser reconhecível ou “lida”, como em “Afterschool”, de Antonio Campos, outro filme em que estamos a sonhar um sonho que não é nosso. Não é por acaso que falamos de “Afterschool”. Durkin e Campos, colegas na New York University, são parceiros na Borderline Films, cantinho inescapável no actual “indie” americano. Durkin (com Josh Mond) produziu Campos, Campos (com Josh Mond) devolveu, produzindo Durkin. Foi como tudo se passasse de um “filho” de Kubrick para outro - em “Afterschool” existem ecos assumidos de “Laranja Mecânica” e “2001-Odisseia no Espaço”; já “Martha Marcy May Marlene” é o filme de alguém que viu a vida ser transformada por “Shining”; em ambos, a sensação de que um filme é um cérebro gigante a pensar. Falta, então, a longa-metragem de Mond para fazer o pleno nas estreias destes precoces barbudos (nenhum deles chegou aos 30 anos) que estão a devolver ao “indie” rigor, densidade e memória, o preciosismo dos cerebrais e a fruição dos sensuais. Para resumir: em “Martha Marcy May Marlene” (como em “Afterschool”) estamos sempre dentro e fora, a ver e a ver-nos ver, encadeados pelo jogo de espelhos, pelas imagens que o ecrã nos devolve do que se está a passar, naquele momento, nas nossas cabeças de espectadores.

É isso, “Martha Marcy May Marlene” entra num edifício do medo. Isto faz eco, isto é a cabeça.

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