O estranho mundo de Kjersti Annesdatter Skomsvold

Foto

A protagonista de “Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou” é uma centenária viciada em lengalengas, “tapa-orelhas” e baralhos de cartas. Saiu da cabeça desta norueguesa de 30 e poucos anos que fomos encontrar num aeroporto

A norueguesa Kjersti Annesdatter Skomsvold (n. 1979) estudou engenharia antes de se dedicar à literatura. E a sua estreia não poderia ter sido mais auspiciosa, ao ganhar, com "Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou" (edição portuguesa da Eucleia) - um romance sobre a nossa inesgotável necessidade de amor, de reconhecimento e de aceitação - o prestigiado prémio Tarjei Vesaas 2009. As traduções e os convites para importantes encontros internacionais literários não se fizeram esperar. E foi num improvável lugar para entrevistas, no aeroporto de Oslo, que ela falou com o Ípsilon.

"O meu plano de vida era ser engenheira, mas, depois de alguns anos de estudo, adoeci e tive de ficar fechada num quarto, acamada, durante um tempo muito longo. Foi por isso que comecei a escrever. Não tinha escrito nada antes, e talvez por isso tenha tido de reescrever o romance várias vezes até encontrar a minha ‘voz' literária - a voz de Mathea [a narradora]", diz Skomsvold.

A personagem principal do romance é uma mulher quase centenária, com uma estranha fobia social, mas que agora, que a vida parece aproximar-se do fim, decidiu que deveria deixar uma marca no mundo que pudesse recordá-la. Mas como é que surgiu, numa mulher de 30 anos, esta protagonista tão improvável, fascinada por lengalengas que rimam, por tricotar "tapa-orelhas", e por baralhar cartas sempre sete vezes seguidas? Kjersti Annesdatter Skomsvold responde entre sorrisos: "Tornou-se mais fácil escrever sobre ela quando parei de insistir em querer fazê-la diferente de mim. O estranho mundo insular de Mathea foi durante muito tempo o meu mundo. Vivi-o. Quando se está muito tempo isolado do exterior, sem os habituais afazeres que não nos deixam pensar, a solidão tem um lado positivo, que é dar-nos a possibilidade de nos conhecermos melhor a nós próprios. Quando nada acontece, qualquer coisa pode acontecer."

Mathea Martinsen (é este o nome da idosa) fora sempre uma observadora passiva de um mundo que parece não entender, apesar de querer fazer parte dele, "só não sabe como". Quase nunca sai de casa, e quando o faz certifica-se primeiro de que não encontrará os vizinhos (a última vez que falou com um deles, agora um homem adulto, era ele então ainda uma criança); se sai à noite, veste-se de preto para se confundir com a escuridão. A única pessoa com quem ela se relacionou nas últimas décadas foi o marido, a quem ela chama Épsilon - nome de uma letra grega que remete o leitor para a Matemática. Skomsvold explica a razão do nome: "Lembrei-me, dos meus estudos de Física: quando a probabilidade de qualquer coisa acontecer é ínfima, deve dizer-se que a probabilidade ‘é mais pequena do que Épsilon'. O marido de Mathea refere-se a isso muitas vezes, e é por isso que ela lhe chama Épsilon. Por exemplo, as hipóteses de uma pessoa ser atingida duas vezes por um raio num mesmo lugar, são ‘mais pequenas do que Épsilon', mas de qualquer maneira isso aconteceu com a minha personagem."

Uma cápsula do tempo

Mas o uso que a autora dá na escrita aos estudos feitos enquanto cursava Engenharia de Computação não se ficam pelo nome do marido da protagonista - que, apesar de já ter morrido quando a história tem início, está sempre presente, num contínuo jogo de alternância entre passado e presente que deixa perceber alguns rasgos "demenciais". Também o próprio título do romance, "Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou", tem ressonâncias das teorias da Física. "Sim, o título foi inspirado na Teoria da Relatividade, de Einstein", diz Skomsvold. "Sendo o romance sobre a passagem do tempo, achei que este título se adequava. E é também apropriado considerando que a personagem está sempre a pensar afastar-se das pessoas, por causa da sua ansiedade social, e isso parece fazê-la mais pequena do que ela, na realidade, é."

A referência ao tempo é ainda mais específica no decorrer da narração, pois a protagonista construiu uma "cápsula do tempo" para ser encontrada pelos vindouros - que ela encherá com coisas suas (juntamente com um papel escrito à mão), marcas da sua passagem pela vida, como os dentes que lhe vão caindo com a idade. O tempo, com a compulsão que Mathea sofre para se envolver com o mundo, torna-se numa "coisa" quase vital porque começa a escassear. Skomsvold estabelece um paralelismo entre o que estudou e o que escreve: "Os meus estudos de Física e de Matemática parecem-se muito com a escrita - são maneiras de tentar entender o mundo. Agora estou mais virada para a Literatura, mas gostaria de tornar a estudar Matemática e de usá-la mais na minha escrita."

"Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou" é um romance divertido sobre o significado da vida, sério e profundo. "Eu queria escrever um romance sobre a morte, e a única maneira que tinha para o conseguir fazer era se ao mesmo tempo fosse capaz de me rir", diz a autora. E conseguiu-o.