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Desde 2006 que o número de portugueses que se mudam para Angola não pára de crescer mp3ief/Flickr
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Desde 2006 que o número de portugueses que se mudam para Angola não pára de crescer mp3ief/Flickr

Angola: reconstruir a vida num país em construção

"Quadros superiores" são quem mais emigra para Angola, mas também há jovens a partir à aventura. Neste país em reconstrução, há cada vez mais portugueses a compor a vida financeiramente

Chamaram-lhe o Eldorado da emigração portuguesa e os dados justificam-no. Desde 2006 que o número de portugueses em Angola não pára de crescer: no final de Outubro de 2011, havia 97 616 registados nos dois consulados do país; em 2005, o número era de 45 mil. Ou seja, em seis anos, mais do que duplicou o número de portugueses a viver em Angola, pecando este número por defeito, uma vez que nem toda a gente se regista à chegada.

Angola já não é a terra prometida do dinheiro abundante e o tempo dos salários muito elevados terminou, mas é ainda o crescimento económico do país – com as possibilidades que isso faculta – que o transforma num país tão apetecível. “É uma terra de oportunidades porque está a reconstruir todas as suas infra-estruturas e a descobrir a economia do mundo”, define Hermínio Santos, autor do livro “Trabalhar em Angola” (Planeta, 2011).

Para Angola “emigram jovens quadros qualificados e executivos de grandes empresas portuguesas, multinacionais e angolanas, em áreas como a contabilidade, informática, passando por profissionais liberais, como juristas, médicos, economistas e arquitectos”, refere Miguel Guedes, assessor do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em texto enviado ao P3.

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O sector do petróleo, dominado pela estatal Sonangol, “continua a ser a principal fonte de receitas” Reuters

O país dos "quadros superiores"

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O sector do petróleo, dominado pela estatal Sonangol, “continua a ser a principal fonte de receitas” Reuters

A maioria dos emigrantes vai “com contratos, por períodos que variam entre os três e os cinco anos”, informa Miguel Guedes. É um país especialmente dirigido “aos quadros superiores”, escreve Hermínio Santos no seu livro, apesar de não ser território proibido para os mais novos – esses “vão à procura de aventura e novas oportunidades”.

Cláudia Estanislau e Gonçalo Ferreira confirmam-no. Foi a situação económica de Portugal que deu o “pontapé final” a Cláudia e é a mesma situação que mantém Gonçalo em Luanda há dois anos. África tornou-se uma espécie de incubadora de futuro - há cada vez mais gente a ir para lá estruturar a vida financeiramente para depois poder regressar.

As remessas dos emigrantes também têm aumentado. Em 2010, foram enviados 134 874 euros de Angola para Portugal. Em 2005, o número era de 23 354 euros. Angola deve crescer 12% em 2012, enquanto Portugal prevê uma contracção de 2,8% do Produto Interno Bruto. Os papéis inverteram-se: em Novembro, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho disse que o seu Governo olharia “muito favoravelmente” para um investimento angolano em Portugal.

Desenvolvimento em todos os sectores

Para Hermínio Santos, o cenário angolano actual é fácil de definir: “Desenvolvimento acelerado em todos os sectores da economia”. O petróleo “continua a ser a principal fonte de receitas”, num país ainda muito marcado pela pobreza: segundo o Índice de Desenvolvimento Humano, apresentado no início de Novembro pelas Nações Unidas, Angola ocupa o 148º lugar e é apontado como um país onde cerca de 28% da população vive abaixo do limiar da pobreza.

Para isso, muito contribuiu a guerra civil de quase trinta anos em que o país mergulhou em 1975. Só em 2002 Angola começou a reconstruir-se. E é ainda esse período que se vive. As dificuldades de quem quer fazer vida em Angola passam também pelos preços: uma refeição de fast food em Luanda pode chegar aos 12,70 euros, arrendar um apartamento T2 pode chegar aos 6500 euros e a factura do supermercado é cerca de três vezes superior à obtida em Lisboa.

As grandes virtudes do país, para os portugueses que para lá emigram, passam por “oportunidades de trabalho em vários sectores, língua e outras referências comuns (futebol e alimentação), cultura vibrante e algum turismo”, refere Hermínio Santos. E claro: "Participar na construção de um país que está a nascer quase do zero", conclui o autor do livro "Trabalhar em Angola".