Inspirador da Revolução de Veludo desaparece aos 75 anos

Morreu o ex-Presidente checo Vaclav Havel

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Foto: David W Cerny/ Reuters (arquivo)

Vaclav Havel, o ex-presidente checo e herói da luta que pôs fim à Guerra Fria, morreu hoje de madrugada, aos 75 anos, durante o sono, na sua casa de fim-de-semana no norte do seu país.

A notícia foi avançada em Praga pela sua porta-voz, Sabina Tancevova. Fumador inveterado, Vaclav Havel venceu um cancro no pulmão nos anos 90. No início de 2009, foi obrigado a permanecer hospitalizado depois de uma pequena cirurgia à garganta o ter deixado com sérios problemas respiratórios.

Há muito afastado da vida pública por causa da sua doença, Havel foi um escritor de intervenção contra o regime, o artesão da “Revolução de Veludo” anticomunista de 1989 e o primeiro chefe do Estado democraticamente eleito após quatro décadas de repressão, entre 1989 e 2003.

Foi, aliás, durante a sua presidência, em 1993, que a Checoslováquia se dividiu pacificamente entre a República Checa e a Eslováquia. Vaclav Havel foi o responsável pela transição do anterior sistema soviético para um regime democrático e uma economia de mercado – um processo acidentado, mas pelo qual recolheu elogios, galardões e homenagens no seu país e no mundo.

Nascido em Praga a 5 de Outubro de 1936, Vaclav Havel viu as posses da sua família abastada serem confiscadas durante as nacionalizações comunistas de 1948. Apesar de ficar inesperadamente pobre, a família ainda era considerada "burguesa" pelo regime, pelo que não foi permitido a Vaclav prosseguir os estudos secundários. Havel matriculou-se na escola nocturna e terminou a trabalhar no teatro.

Tímido e estudioso – e também um jovem do seu tempo, que tinha entre os seus preferidos o músico norte-americano Frank Zappa – Havel tornou-se um escritor e dramaturgo. A sua intervenção política começou logo após a invasão soviética de 1968 que pôs fim à chamada Primavera de Praga – um processo de reformas encetado por Alexander Dubcek e outros líderes comunistas da então Checoslováquia. O seu método foi sempre o da literatura: Vaclav Havel escreveu uma série de peças, ensaios e análises sobre o comunismo, que imediatamente foram proibidas por Moscovo.

O mês de Janeiro de 1977 marca o arranque do seu activismo político, com a assinatura do manifesto pelos direitos humanos “Capítulo 77”. Um ano mais tarde, o seu ensaio “O Poder e os Sem Poder”, que consagrou o seu estatuto de dissidente político, abria com uma citação do Manifesto Comunista: “Há um espectro a assombrar a Europa de Leste; o espectro daquilo que no Ocidente é denominado por dissidência”, escreveu. Nessa obra, insurgia-se contra a “ditadura do ritual”, e fantasiava sobre um futuro em que os cidadãos redescobriam a sua “identidade e dignidade suprimida”.

A sua aberta oposição ao regime custou-lhe vários anos passados nas cadeias comunistas. “Cartas para Olga”, um livro reunindo as cartas que escreveu à sua mulher da prisão, tornou-se uma das suas obras mais conhecidas (Olga Havlova morreu de cancro em 1996).

Foi durante as manifestações de Praga em Agosto de 1988 – durante o 20º aniversário do Pacto de Varsóvia – que o seu estatuto político ficou claro. Milhares de jovens saíram para a rua, gritando o seu nome e do seu herói, Tomas Garrigue Masaryk, o primeiro Presidente da Checoslováquia depois da fundação do país em 1918.

A onda de protestos populares em seu nome levou-o mais uma vez à prisão. Em Janeiro de 1989, com o regime comunista já em colapso, o seu julgamento atraiu as atenções internacionais, e a pressão política foi de tal maneira intensa que as autoridades aceitaram a sua libertação.

Uma semana após a queda do muro de Berlim, em Novembro de 1989, Vaclav Havel e outros famosos opositores checoslovacos criavam um movimento político. As manifestações na rua prosseguiram, reclamando a mudança de regime.

A 29 de Dezembro, o Parlamento da Checoslováquia (ainda comunista) elegia Vaclav Havel para a Presidência do país. Na sua mensagem de Ano Novo à população, transmitida pela televisão, o escritor resumia numa metáfora os efeitos de 40 anos de repressão comunista: “Éramos um povo soberano e talentoso, e o regime transformou-nos em pequenos parafusos de uma máquina monstruosa, podre e barulhenta”.

Havel liderou, então, o movimento de transição para um novo regime aberto e democrático, nunca se abstendo de denunciar as deficiências da sociedade checoslovaca, fiel à sua máxima “O que o coração pensa, a língua diz”.

Mas os desafios pós-revolucionários foram tremendos, e pouco tempo depois Vaclav Havel apresentou a demissão, classificando como um “falhanço pessoal” o irreversível processo de desagregação da federação checoslovaca.

O eleitorado não lhe deu razão, e apoiou-o para um novo mandato como Presidente da recém-criada República Checa, um cargo que ocupou até 2003.

Ao longo dessa década, Vaclav Havel assinou os acordos de adesão da República Checa à NATO e à União Europeia. Também viveu momentos de dificuldade e tumulto pessoal: depois da morte da mulher, em 1996, Havel perdeu um terço do pulmão direito numa operação para remover um tumor maligno. Deixou de fumar, e causou surpresa ao casar de novo, com a actriz Dagmar Veskrnova, 20 anos mais nova.

A sua vida pública pós-presidencial manteve-se rica, e Vaclav Havel tornou-se o porta-voz de de causas humanitárias, como “embaixador global da consciência”. Em 2003, destacou-se pelo seu apoio ao plano de invasão do Iraque do Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush – o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, considerou-o então como parte da “Nova Europa”, por oposição aos países da “Velha Europa” que se opuseram à guerra.

Em 2008, Vaclav Havel viu subir à cena uma nova peça sua “De saída”, que dava conta dos dilemas de um líder político no momento de abandonar o cargo. A obra foi aclamada pela crítica.

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