Cesária Évora Morreu a senhora música do mundo

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Concerto no Royal Festival Hall de Londres em Julho de 2002 DANIEL ROCHA

Era a cantora de maior reconhecimento da história da música cabo-verdiana, mas desde os anos 90 era também uma senhora do mundo. Cesária Évora morreu ontem aos 70 anos"Ninguém entende crioulo", dizia Cesária das audiências que a ouviam, "mas não importa, a música diz tudo, entendem a música"

Todos a queriam para si. Os portugueses diziam que estava para Cabo Verde como Amália para Portugal. Os franceses que estava para Cabo Verde como Edith Piaf para França. Para os naturais de Cabo Verde era a própria ilha. Era a sua voz. Ela era do Mindelo, onde nasceu e onde regressava sempre, mas desde a alvorada dos anos 90 transformou-se numa voz universal, cantando Cabo Verde para o mundo. Essa voz de todos, maior do que a vida, que apenas não conseguiu espantar a morte, calou-se ontem, aos 70 anos, no Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente, por "insuficiência cardio-respiratória e tensão cardíaca elevada."

Não foi uma surpresa, se é que se pode dizer isso da morte. A 24 de Setembro do ano passado a cantora tinha dito que iria terminar a carreira a conselho médico e nesse mesmo dia foi internada depois de mais um acidente vascular cerebral. Ontem, aos 70 anos, completados em 27 de Agosto último, aconteceu mesmo, deixando uma carreira feita de inúmeras digressões e actuações na TV, 24 álbuns (Miss Perfumado, Mar Azul, Café Atlântico ou Nha Sentimento), um DVD e muitas colaborações registadas em disco. Era sem dúvida a cantora de maior reconhecimento internacional da história da música popular cabo-verdiana.

Isso mesmo foi aludido, ontem, pelo Presidente da República Cavaco Silva, que considerou a cantora um "símbolo eloquente da música e da alma de Cabo Verde." Na mesma linha, o empresário da cantora, José da Silva, em comunicado, lembrou o "legado artístico e humano" da artista que tinha "um encanto subtil na voz." Já o secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Domingos Simões Pereira, da Guiné-Bissau, lembrou que "muita gente passou a conhecer os países africanos de língua portuguesa pela Cesária. Quantas vezes todos reclamaram ser do país da Cesária?"

Billie Holiday da morna

Desde que se tornou numa figura de êxito internacional, a partir de 1992, que as preocupações com a sua saúde eram sempre referenciadas (problemas cardíacos e respiratórios, ou colesterol). Em 1996, neste jornal, Luís Maio, enviado especial a São Vicente, dizia que havia optado por deixar de lado a garrafa de whisky e o cigarro que a haviam ajudado, no início da carreira, a moldar uma imagem de "Billie Holiday da morna". Nas entrevistas, sempre que lhe falavam da sua saúde, brincava, dizendo que há muitos anos que não bebia ou fumava. Pode ser verdade, mas não chegou para a afastar dos caminhos da morte.

A sua voz, sim, espantava. Deixava boquiabertos os que foram tomando contacto com ela ao longo dos anos, ao mesmo tempo que parecia atenuar ou, no limite, afastar, os males da alma. Quem a viu ao vivo sabe-o: face sofrida mas digna, corpo balançando-se vagarosamente apoiado nos pés sempre descalços e aquela voz límpida e calorosa. Os franceses, que a adoptaram em primeiro lugar, chamaram-lhe "a diva dos pés descalços" e o epíteto ficou.

E depois existia ainda a música, mornas essencialmente, mas também coladeras, parecendo declives de tristeza, um tipo de ondulação doce, envolvendo canções sobre a vida, o desespero, a esperança e a transcendência, o indizível, aquilo que apenas a música parece conseguir traduzir tantas vezes, em canções como sôdade, Sangue de beirona, Fada, Carnaval de São Vicente, Luiza, Flor di nhã esperança, Miss perfumado, Mar azul, Vida tem um so vida ou Dor di amor.

A música sempre esteve nela. O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino, o irmão Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza, que viu morrer cedo, mas cujas composições cantou até ao fim da vida. Desde cedo que Cize, como era tratada pelos amigos, se lembrava de cantar, ao ar livre, nas praças da cidade do Mindelo "para afastar coisas tristes." Aos 16 fazia-o nos bares e hotéis da cidade, começando a angariar alguns admiradores que a tratavam como a "rainha da morna." Com a independência de Cabo Verde, em 1975, deixa de cantar durante dez anos, um período muito negro, que a levaram ao alcoolismo.

Em 1985, a convite do cantor Bana, proprietário de um restaurante e de uma discoteca, acaba por ser deslocar a Lisboa, gravando um disco que passou despercebido. Seguiu-se Paris, impulsionada pelo empresário francês José da Silva, que a acompanhou sempre, e foi aí que acabou por ver reconhecido o seu trabalho numa fase inicial. Em 1988 grava La diva aux pied nus, sendo aclamada em 1992 com o álbum Miss Perfumado.

Cantar não tem idade

Aos 47 anos, finalmente, transformava-se numa primeira figura do circuito das "músicas do mundo", actuando nos mais relevantes palcos do globo, concretizando desde então parcerias com outros cantores (de Caetano Veloso a Marisa Monte, ou de Compay Segundo a Salif Keita) e fixando-se, na maior parte do tempo, em Paris. Em Portugal, o grande público, só começou a dar-lhe a devida atenção na segunda metade dos anos 90 e em 1999 recebe a Grã-Cruz da ordem do Infante D. Henrique. Depois do seu sucesso, vagas de músicos de Cabo Verde (Lura, Nancy Vieira, Baú, Tcheka) repetiram os seus passos, alternando entre Paris, Lisboa e a ilha, dessa forma exportando a sua música.

Em 2004 acabou por receber um Grammy para melhor álbum de world music contemporânea pelo disco Voz d" Amor, continuando insistentemente com as digressões por todo o mundo, apesar dos vários problemas de saúde. Não gostava muito de dar entrevistas. Dizia que eram repetitivas. Era lacónica. Falava como cantava, em crioulo. "Ninguém entende crioulo", dizia das audiências que a ouviam, "mas não importa, a música diz tudo, entendem a música." Quando a interrogavam sobre a idade respondia que Sinatra havia cantado até aos 80 e o cubano Compay Segundo até aos 90. "Cantar não tem idade". A sua imagem de marca passava pelo cigarro na mão, enquanto bebia grogue. Os que com ela privaram reconheciam-lhe a capacidade de brincar e uma grande autenticidade na forma como vivia.

Nos últimos anos não lhe faltaram críticos também, que argumentavam que se estava a repetir sem necessidade. Em França, é que o aplauso não abrandou. Em 2009 o Presidente francês Nicolas Sarkozy entrega-lhe a medalha da Legião de Honra, depois de uma intervenção cirúrgica que a levou a temer pela vida. Apesar do seu estado debilitado, afirmou numa entrevista que preparava um novo disco para ser lançado no próximo ano. Já não acontecerá, mas da senhora música do mundo ficarão muitas outras canções para superar a sôdade.