Entrevista

Figo conta as histórias das saídas polémicas do Sporting e do Barcelona

"Penso que nenhum desportista terá tido a experiência de jogar num estádio com cem mil pessoas contra ele"
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"Penso que nenhum desportista terá tido a experiência de jogar num estádio com cem mil pessoas contra ele" Rui Soares

Luís Figo respondeu a cerca de cinco dezenas de perguntas, que pretendiam ser uma radiografia à sua carreira. Nunca se referiu a si próprio na terceira pessoa. E não mostra a mínima preocupação em cultivar a sua popularidade. Opta sempre pela frontalidade, aqui e ali com uma rispidez desarmante e que não deve ser confundida com arrogância.

Há precisamente 10 anos (17 de Dezembro de 2001) recebeu, em Zurique, o World Player of the Year. Não sentiu que o prémio da FIFA chegou com um ano de atraso? A época anterior, ainda ao serviço do Barcelona, foi provavelmente a melhor da sua carreira...

No ano anterior fiquei em segundo e, de facto, lembro-me que na altura tinha a esperança de conquistar o troféu. Desiludido? Não sei se é a palavra adequada, mas fiquei com alguma mágoa por não ter conseguido. Mas no bom sentido: aquele estado de espírito deu-me mais força e motivação para continuar a trabalhar e a lutar por algo que desejava.


Em 2000 perdeu o prémio para Zidane, que se sagrara campeão da Europa. Mas, nesse ano, derrotou-o, por 16 votos, na eleição do Ballon d’Or da France Football. Uma coisa compensou a outra?

Este tipo de prémios são sempre muito subjectivos. Resumem-se à opinião, no máximo, de cem pessoas. Ao fim e ao cabo, estar nos elegíveis já é motivo de orgulho. O mais importante é conseguir os êxitos colectivos. São estes que te permitem, depois, com a tua qualidade individual, ser incluído no lote dos candidatos aos prémios individuais. De outra forma, nunca terás hipótese.


Foi o primeiro português a receber o prémio da FIFA, que não existia nos tempos de Eusébio. Mais recentemente, o prémio foi também ganho por Cristiano Ronaldo, que protagonizou a transferência mais cara de sempre e é o jogador mais caro do mundo. Figo também conseguiu ambas as coisas no auge da sua carreira. Faz sentido discutir qual dos três foi o melhor português de sempre?

Acho que não. São gerações completamente diferentes. O Eusébio teve a dele e, nessa época, havia não sei quantos grandíssimos jogadores e várias lendas. Depois, apareceu a minha geração, em que surgiram para aí 20 jogadores com potencial suficiente para conquistarem esses troféus. E, agora, há a geração do Cristiano, que tem um leque de opções mais reduzido. Há menos jogadores com o tal potencial e está tudo focado em torno de meia dúzia deles.


Mas isso acontece por haver um número mais reduzido de craques ou porque essa meia dúzia se destaca?

Porque há muitos jogadores de grande qualidade, mas há menos com qualidade suficiente para justificar ganhar aqueles troféus.


O seu ídolo na adolescência era o Fernando Chalana. Na altura ainda era benfiquista?

Quando era pequenino, ainda antes de me iniciar no futebol jovem, tinha como referências os jogadores do Benfica. Porque o meu pai ia ver o Benfica assiduamente e, por vezes, levava-me. Mas, a partir do momento que decidi procurar a minha sorte no Sporting, as coisas mudaram em termos de afecto.


Depois de se sagrar campeão do mundo de sub-20 chegou a assinar um contrato com o Benfica, numa altura em que o Sporting atravessava grandes problemas financeiras. Como é que Sousa Cintra, entretanto eleito presidente, o convenceu a continuar?

Isso surgiu em resultado da revolta que, a certa altura, senti em Alvalade. Surgiu o interesse do Benfica e, por estar zangado com a minha situação e também fruto de alguma imaturidade, pensei corresponder ao interesse do Benfica. Mas depois houve um volte-face e a minha situação foi regularizada no Sporting. Decidi continuar, até porque me sentia feliz em Alvalade.


Foi lançado no Sporting, com 17 anos, por Raul Águas, mas no ano seguinte, com Marinho Peres, não fez um único jogo. Porquê?

Não sei, tem de perguntar ao Marinho Peres. Comecei a treinar com a primeira equipa com o Manuel José. Fiz um jogo. Na época seguinte, com o Raul Águas, fiz esse tal jogo. Com o Marinho Peres não joguei muito. Tudo mudou depois de nos sagrarmos campeões do mundo. Aí comecei a jogar com regularidade.


Com Bobby Robson ganhou destaque, mas foi com Carlos Queiroz que se estabilizou na primeira equipa do Sporting. Queiroz (com quem trabalhou durante anos na formação da selecção) foi determinante na sua carreira?

Foi importantíssimo na minha formação. Teve influência também quando dirigiu a primeira equipa do Sporting, até porque já me conhecia bem.


O Sporting foi o único clube onde não se sagrou campeão (venceu a Taça de Portugal de 1994/95). Porquê?

Porque não fiquei tempo suficiente na primeira equipa. Depois, porque esses anos foram sempre muitos agitados para o Sporting em termos de estabilidade de treinadores, direcções, presidentes. E, na altura, era o FC Porto quem dominava e ganhava mais campeonatos.


A sua saída do Sporting criou polémica. Primeiro, queixou-se de não lhe terem aumentado o ordenado (que era de cerca de mil contos/mês) e, quando Sousa Cintra finalmente o quis fazer, recusou-se a assinar a renovação... É verdade que, desesperado, Sousa Cintra lhe chegou a oferecer 12 mil contos [cerca de 60 mil euros] por mês?

Os valores não sei (até por me estar a falar em contos...), mas a história é real. Durante cerca de dois anos andaram a prometer-me mundos e fundos. Durante esse período contrataram jogadores, designadamente ao Benfica, com condições se calhar dez vezes melhores do que as minhas. E eu cansei-me de esperar. Quando faltavam seis meses para o contrato acabar decidi seguir a minha vida, já que não podia confiar nas pessoas que durante aquele tempo todo me tinham andado a enganar.


No Barça, rapidamente se tornou num dos líderes da equipa. Trabalhou com três grandes treinadores: Johan Cruyff , que recomendou a sua contratação, Bobby Robson e Van Gaal. De quem gostou mais?

Não posso dizer que gostei mais deste ou daquele. Em termos gerais, até pela idade que tinha e por ser a minha primeira experiência fora do país, foi importante ter encontrado Cruyff . Aliás, ele foi uma das razões porque escolhi ir para o Barcelona, que era admirado então pelo que se chamava de Dream Team. Continua a ser um dos melhores treinadores que tive, um dos melhores de todos os tempos. Depois desse meu primeiro ano em Barcelona, ele deixou de treinar mas, passados todos estes anos, continua a estar à frente de muita gente no futebol em termos de metodologia e filosofia de jogo.


É verdade que, a meio do primeiro contrato, esteve perto de se mudar para o Milan, que queria pagar a cláusula de indemnização (então de seis milhões de euros) e que só não o fez porque Josep Lluis Núnez se apressou a renovar-lhe o contrato até 2002?

É verdade...


(...)

É verdade... não vou dizer mais nada.


Depois de dois campeonatos e vários outros títulos em Barcelona, onde tinha passado a ser o capitão, mudou-se para o Real Madrid, logo após ter realizado grandes exibições no Euro 2000. Foi um escândalo quando posou com a camisola 10 ao lado de Di Stefano. Mas você não parecia feliz...

Se calhar estava assustado [risos]...


Após Florentino Pérez bater Lorenzo Pérez nas eleições do Real Madrid chegou a dizer: “Esta vitória é-me indiferente”. É verdade que só acabou por assumir o acordo assumido pelo seu empresário com Florentino Pérez porque José Veiga, desesperado, ameaçou atirar-se de uma janela do prédio?

Falou-se muita coisa. Escreveu-se muita porcaria. Até alguns directores de jornais portugueses, que pensam que sabem tudo, surgiram a criticar-me por isto e mais aquilo. Aceito tudo, mas alguns grandes jornalistas do nosso país, que me criticaram por eu passar do Barcelona para o Real Madrid, também mudaram da SIC para a TVI e do Jornal de Negócios não sei para onde. Ou seja, acham que só com eles é que o mercado pode funcionar. Vou contar toda a verdade. Toda a história da transferência aconteceu durante o Europeu. Antes de Florentino Pérez [então candidato a presidente do Real Madrid] se interessar pela minha contratação, eu tive a possibilidade de me mudar para uma equipa italiana (não vou dizer o nome porque isso não interessa). Pagavam a cláusula de rescisão. O que é que eu fiz? Através do meu empresário de então [José Veiga] dei conta da possibilidade ao presidente do Barcelona ainda em exercício [ Josep Lluís Núñez]. Ele não ligou muito: “Ah, tu queres é melhorar o teu contrato”. Disse-lhe que não estava a fazer bluff . Passados uns meses, através do Veiga, recebi a informação de que havia o interesse, por parte de um dos candidatos às eleições do Real Madrid, de pagar a minha cláusula de rescisão. Voltei a dar conta disso ao presidente do Barcelona. Ele voltou a responder que eu queria era isto e mais aquilo. Fiquei furioso e respondi-lhe: “Você está a duvidar da minha palavra?” Respondeu: “Não, eles que paguem o dinheiro e tu vais embora”. Ainda de cabeça quente, irritado por mais uma vez não estarem a valorizar o meu trabalho e a minha dedicação, disse ao Veiga: “Ouve a proposta”. Ele fez isso, informou-me e perguntou-me se eu estava interessado. Respondi que era possível que sim. Foi então assinado um acordo entre o candidato e o meu empresário. As coisas foram andando e tornando-se mais complicadas, até porque se aproximavam também as eleições no Barcelona. O contrato que o Veiga assinou tinha prevista uma indemnização, para o caso de uma das partes não o respeitar, de cinco mil milhões [de pesetas]. Mas eu nunca tive nada assinado. Quem tinha assumido a responsabilidade era o José Veiga. No caso de eu resolver não ir para Madrid, quem tinha de indemnizar era ele. Houve todo aquele processo, até que chegou o momento da decisão. Eu estava de férias e continuava indeciso. Recebia pressões de todo lado (incluindo de Joan Gaspart, candidato e futuro presidente do Barça). Florentino acabou por ganhar as eleições e, nessa mesma noite, meteram-se todos num avião, incluindo o José Veiga, e foram ter comigo à Sardenha, onde eu estava de férias. Tentaram pressionar-me até através da minha família. Acabei por viajar com eles para Lisboa e fomos para o escritório do José Veiga. A certa altura acedi a assinar um documento em que passava eu a assumir toda a responsabilidade do contrato em vez do meu representante. Esta é a história verídica da minha transferência. Tudo o resto que se disse não tem qualquer fundamento.


Nunca se arrependeu de aceitar que o Real pagasse os 65 milhões de euros para o libertar do contrato com o Barça?

Não. Sempre assumi a responsabilidade das minhas decisões. Fui para o Real Madrid por uma série de razões, como já expliquei, mas também por uma questão de prestígio. E as vantagens disso vieram a confirmar-se.


Na primeira vez que voltou ao Camp Nou, a 21 de Outubro de 2000, viveu momentos complicados. Chamaram-lhe Judas, pesetero, fizeram notas com a sua cara e até lhe atiraram com uma cabeça de porco... Na altura, a TV3 da Catalunha fez uma contagem dos decibéis: cada vez que tocava na bola, os 100 mil espectadores superavam a poluição sonora normal na descolagem de um avião... Como lidou com isso no relvado?

O meu primeiro pensamento foi fazer o meu trabalho da melhor forma possível. Tinha também a preocupação natural de que nada me acontecesse em termos físicos. Agora chamarem-me bonito, feio, gordo ou magro dá-me igual. É lógico que foi um dia difícil. Penso que nenhum desportista no mundo terá tido a experiência de jogar num estádio com cem mil pessoas contra ele. Mas isso ajudou a preparar-me para o futuro. O pior de tudo foi termos perdido esse jogo.


Fica para sempre como o primeiro galáctico na história do Real...

Para mim significa que fui o primeiro jogador contratado para um projecto que, nos primeiros anos, foi fantástico.


Mais tarde, acabou por cortar relações profissionais com o José Veiga. Porquê?

Sou fiel aos meus amigos até ao momento em que me falham. Não preciso de assinar nenhum acordo (nunca tive nenhum assinado com ele durante dez anos) e a única coisa que eu pretendo é reciprocidade em termos de honestidade e lealdade. Quando eu vejo que as coisas não são assim, é melhor cada um seguir o seu caminho. Foi o que aconteceu.


Em que clube lhe deu mais gozo ser campeão?

Em todos por igual. Porque todos os títulos foram importantes na minha carreira. No Barcelona foi o princípio, no Real Madrid também foi importante ganhar logo no primeiro ano porque havia uma pressão impressionante de todos os lados. No Inter também foi incrível, por estar na parte final da minha carreira. Foi espectacular conseguir quatro campeonatos num clube que não ganhava há oito anos. Até porque muita gente já me dava como “morto”.


Foi melhor do que ser campeão europeu pelo Real Madrid?

O troféu de campeão europeu é o que dá mais prestígio em termos de clubes. É aquele com que todos os jogadores sonham.


É o jogador português com mais internacionalizações (127), mas só marcou 32 golos na selecção. Em Espanha foi três vezes o jogador com mais assistências, mas, num campeonato, o máximo de golos que conseguiu marcar foram dez. Os números de golos do Ronaldo são muito superiores nos clubes e já o apanhou ao serviço da selecção. O Figo era mais de dar a marcar...

Ele tem muito mais golos do que eu, que nunca fui um jogador de marcar muitos. Sempre fui mais de assistir, de dar a marcar. Porque é que isso acontece? Porque eu sou mais um extremo, enquanto ele é mais atacante do que extremo. E, depois, tem também a ver com as qualidades inatas. Ou tens golo ou não tens. Ele tem muito, eu tinha pouco.