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Raquel Camarinha Barbosa é professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto DR
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Os recursos tecnológicos disponíveis podem ajudar a compensar a distância física _dubravka/Flickr
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Raquel Camarinha Barbosa é professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto DR
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Os recursos tecnológicos disponíveis podem ajudar a compensar a distância física _dubravka/Flickr

"Será no mínimo difícil e desafiante para uma relação amorosa sobreviver à distância"

A psicóloga Raquel Camarinha Barbosa diz que a distância pode pôr o amor à prova, mas a sua sobrevivência "dependerá da qualidade da relação, da intimidade que alimenta os afectos"

A crise económica, a falta de oportunidades e os baixos salários praticados em Portugal levam cada vez mais casais jovens a morar em países diferentes. Quais são os possíveis efeitos psicológicos que esses novos contextos têm geralmente numa relação?

De facto, as transformações sociais e económicas têm tido repercussões na forma como nos relacionamos uns com os outros, as pessoas vêem-se impossibilitadas de manter contactos primários, seja pela crescente necessidade do aumento de horas de trabalho, seja pelo aumento de mecanismos tecnológicos que tornam a vida das pessoas mais cómodas dentro de suas casas e que possibilitam o contacto à distância...

Obviamente que será no mínimo difícil e desafiante para uma relação amorosa sobreviver à distância, mas dependerá essencialmente da qualidade da relação, da intimidade que alimenta os afectos. Com a distância, a confiança é posta à prova de forma mais evidente, assim como o respeito pelo espaço e pelo crescimento do outro, a tolerância pelas ausências. Se esses ingredientes não existirem, penso que será muito difícil a relação sobreviver.

Portanto, assim como em todas as relações amorosas, que só sobrevivem quando duas pessoas se amam verdadeiramente e investem na relação, o amor à distância também será desta maneira: só terá sucesso se duas pessoas investirem e lutarem para que o relacionamento se fortaleça cada vez mais. A confiança é construída a dois. É preciso que um se mostre confiável e que o outro esteja disponível para confiar.

Do ponto de vista da psicologia dos afectos, de que modo as novas tecnologias (nomeadamente os telemóveis e a Internet) poderão "compensar" os milhares de quilómetros que os separam? Até que ponto o contacto virtual pode ser um substituto do convívio presencial?

Neste contexto, claro que o uso de todos os recursos tecnológicos actualmente disponíveis "compensam" a distância física, dando a sensação de as distâncias serem mais curtas. Se não podem estar fisicamente juntos com frequência, é importante que se comuniquem tanto quanto possível. Podem até estar longe geograficamente, mas não quer dizer que estejam longe afectivamente. As ferramentas agora disponíveis permitem uma comunicação imediata, para além da comunicação escrita e via áudio, a possibilidade de se ver o outro (via Skype, por exemplo) torna o convívio com a distância menos penoso, permite sentir uma maior proximidade e que cada um continue a fazer parte da vida do outro - e isso é positivo.

No entanto, se considero que pode facilitar a manutenção de uma relação à distância, sou bastante céptica em considerar que o contacto virtual poderá substituir o convívio presencial. Sim, por algum tempo, e em relações específicas, como referi anteriormente. Contudo, a presença física do outro é fundamental, precisamos do contacto físico para sobreviver. Penso que a ausência de uma interação "real" (face-a-face) parece facilitar uma comunicação psicologicamente distante, menos fiel, pois não se tem a percepção física imediata e real do outro. Na verdade, parece que cada vez comunicamos mais, mas cada vez vivemos mais em "ilhas", entregues a nós próprios e a necessitar mais de contacto humano.

De que modo uma relação à distância pode contribuir para uma falsa idealização do parceiro?

Claro que sim, todas estas transformações - estes novos modelos "cibernéticos" de comunicação e de relacionamento - poderão atrair os indivíduos justamente pela maior possibilidade de criar uma realidade imaginária. Mais facilmente se podem selecionar aspectos da sua personalidade que acreditam serem favoráveis em benefício próprio e para o desenvolvimento da relação, havendo um maior controlo daquilo que é partilhado.

Dessa forma, a interação "online" será mais útil na consolidação da idealização do que na formação de vínculos, como relacionamentos amorosos, ou de amizade. Continuo a acreditar que, sobretudo os relacionamentos amorosos, exigem níveis de intimidade muito mais elevados do que uma rede de interlocução virtual pode oferecer.

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