Um amor de contrabando

Um século antes da legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, duas espanholas conseguiram enganar um padre e casaram-se pela Igreja. Descobertas, fugiram. Há 110 anos viviam no Porto e no Porto tiveram uma filha.

Se uma grande história de amor é aquela cujos ecos ultrapassam as contingências do seu tempo e se imortaliza, como sucedeu com as paixões de Pedro e Inês (ou de Romeu e Julieta), o romance de Marcela e Elisa é, sem dúvida, "uma das mais extraordinárias histórias de amor de todos os tempos", conforme lhe chamou o escritor espanhol Manuel Rivas. Eram ambas mulheres e conseguiram o impensável: Elisa vestiu-se de homem, enganou um padre e, assim, casou com Marcela pela Igreja, na paróquia de S. Jorge, na Corunha, a 8 de Junho de 1901.

"Impressionou-me a inteligência das duas mulheres e a capacidade de traçarem um plano que lhes permitisse viver juntas o resto da vida, serem reconhecidas como marido e mulher e até chegarem a ter descendência", diz Narciso de Gabriel, o professor universitário galego que dedicou quase quinze anos a investigar a incrível história de Marcela e Elisa. Alén dos homes foi publicado em 2008 e acabou por ser traduzido para castelhano, sob o título Más allá de los hombres. Há também um filme em preparação, que deve ser realizado por Isabel Coixet, a autora de A Vida Secreta das Palavras. Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres.

Em Dezembro de 1901, há exactos 110 anos, Elisa e Marcela estavam, porém, longe da cidade do Norte da Galiza que agora as recorda. Viviam na cidade do Porto, em relativo sossego depois da agitação que tinha provocado a chegada do insólito casal no Verão anterior.

As notícias que O Commercio do Porto publicou durante o mês de Agosto de 1901 tinham sempre o mesmo título: As duas hespanholas: mulher-homem. Ainda não se usavam nos jornais palavras como homossexualidade ou lesbianismo, pelo que o caso foi contado com relativa discrição, entre notícias de agressões à pedrada e de homens mordidos por cães. O episódio, ainda assim, deu brado, conforme se percebe na edição do dia 30, que narra a libertação de Marcela e Elisa da Cadeia da Relação: havia "grande aglomeração de curiosos para ver as duas mulheres, sendo necessário os soldados da guarda dispersarem a multidão, que fez grande berreiro quando o carro seguiu o seu destino".

Chegara ao fim, na véspera, o processo judicial em que as duas cidadãs espanholas se viram envolvidas durante a passagem pelo Porto. Tinham fugido para Portugal depois do escândalo que se armara na Galiza, onde o "casamento de contrabando" andou nas primeiras páginas dos jornais, alimentando também a imprensa de Madrid. Mas a história, iniciada alguns anos antes, havia ainda de ter outras complicações, obrigando o venturoso casal a empreender nova fuga, desta vez para a Argentina.

Daquele período conturbado ficaram três fotografias: na do casamento, muito solene, captada por José Sellier, um fotógrafo francês da Corunha, Marcela está de negro e o noivo aparece segurando a aba do casaco com a mão direita, a sombra de um buço imberbe sobre o lábio; na do relojoeiro José Rodrigues, da Rua do Bonjardim, aparecem juntas na prisão do Aljube, no Porto, como homem e mulher, e Marcela parece envelhecida, com os olhos encovados, e Elisa, com o bigode já mais pronunciado, poderia facilmente ser tomada por um banal caixeiro do Porto; na terceira, Elisa espreita o casario da cidade pelas grades da prisão, com um chapéu de homem na cabeça, evitando ser fotografada pelo "repórter" do El Suceso Ilustrado.

Mario e Elisa, num só

Elisa e Marcela conheceram-se muito jovens, então estudantes da escola da Corunha onde se formavam as professoras primárias. Tornaram-se inseparáveis e essa proximidade terá levado os pais de Marcela a enviá-la para Madrid na tentativa de apaziguar a primaveril relação das moças. Porém, como em todos os grandes romances, também neste caso o destino - ou a indeclinável lei das coincidências que com ele se confunde - parece ter desempenhado o seu papel de inveterado alcoviteiro: em 1900, Elisa estava a ensinar interinamente na aldeia de Couso, situada a meio caminho entre a Corunha e Finisterra, na Costa da Morte; Marcela, já mestra superior, instalara-se na escola de Calo, no município vizinho de Vimianzo. Estavam, pois, o fogo e a estopa juntos e, segundo os relatos recolhidos no livro de Narciso de Gabriel, dormiam frequentemente na casa de Marcela, em Dumbría.

Não sendo nem a primeira nem a última vez que duas mulheres mantinham uma relação amorosa, o caso seria comentado e motivo de algum escândalo, quanto mais não fosse porque a rigidez dos códigos morais da época proibia às professoras que usassem maquilhagem ou vestidos vistosos. Em alguns colégios eram mesmo proibidas de casar. Nada, portanto, podia ajudar a prever o que estava para acontecer - excepto, eventualmente, o facto de também na Galiza estar registado o primeiro caso de um casamento católico entre dois homens, Pedro Díaz e Muño Vandilaz, celebrado a 16 de Abril de 1061, há 950 anos, na capela de Rairiz de Vega (a acta foi encontrada há alguns anos no Mosteiro de S. Salvador de Celanova).

Em 1901, porém, as raparigas necessitaram de fazer mais do que apresentar-se diante de um padre e declarar a intenção de viverem juntas até que a morte as separasse. Começaram por encenar uma zanga e, logo depois, Elisa Sanchez Loriga partiu para a Corunha, então uma pequena cidade de província. Ali cortou o cabelo, passou a fumar e a vestir-se como um homem e adoptou uma nova personalidade. Passou a ser Mario, com uma biografia decalcada de um primo que tinha morrido num naufrágio e alegando ser filho de um herege inglês. Apresentou-se, assim, diante de um padre, declarando pretender converter-se ao catolicismo. A 26 de Maio passou pela pia baptismal e fez a primeira comunhão e, daí a dias, a 8 de Junho, pelas sete da manhã de um sábado, casava com Marcela Gracia Ibeas. Esta, antecipando-se a eventuais comentários, terá tomado a iniciativa de reconhecer as semelhanças físicas entre Mario e Elisa. "Têm a mesma estatura, a voz igual e as mesmas maneiras. Até os génios são parecidos", terá dito, de acordo com os testemunhos recolhidos por Narciso de Gabriel.

A noite de núpcias fo