Retrato de D. Sebastião não teve compradores em leilão

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Quadro está agora à venda na Galeria da leiloeira Veritas, em Lisboa

O retrato do Rei D. Sebastião, que foi na semana passada a leilão, não foi vendido. O quadro, que foi à praça com uma estimativa de licitação entre 30 e 50 mil euros, está agora disponível para venda, na Galeria da leiloeira Veritas, em Lisboa.

O responsável da leiloeira Igor Olho Azul atribui a falta de interesse de compra à suposta chegada tardia do catálogo do leilão a potenciais compradores. O preço de venda é agora de 30 mil euros ao qual acresce a comissão da leiloeira, de 12 por cento.

De autor desconhecido e data precisa por definir, o retrato , é uma pintura a óleo sobre tela do jovem monarca com a aparência que teria no final do século XVI ou início do século XVII, se não tivesse morrido com 24 anos na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578: um D. Sebastião mais velho, com marcas de adulto, barba, bigode, já diferente do rei de rosto imberbe que habitualmente aparece em retratos feitos durante o seu reinado; mas não tão velho, calvo e de barbas brancas como em retratos e gravuras difundidos com o irromper do fenómeno sebastianista, da criação da lenda, resultante do desejo de ver o rei regressar para reconquistar a independência de Portugal.

A tela valerá mais como documento iconográfico do que como retrato artístico, referiu ao PÚBLICO o historiador de arte e especialista em leilões Anísio Franco, acrescentando que esta peça ajuda a compor o quadro da construção do mito sebastianista.

Confundido com outro
O retrato foi encontrado na casa de uns condes em Itália e foi a leilão na Europa, há cerca de quatro anos, como sendo o retrato de um conde italiano, apesar de em cima se ler Sebastianus Lusitanor I. Foi posteriormente vendido (por quem o adquirira no leilão) e adquirido por um comprador que se fez representar pela consultora de arte Câmara dos Azuis, que detectou o erro na atribuição. Já correctamente identificado como um retrato de D. Sebastião, veio para Portugal e os seus donos, portugueses, tentaram vendê-lo no leilão da semana passada.

É do mesmo modelo de dois outros que se guardam em Itália, escreveu Anísio Franco no texto publicado no catálogo da leiloeira, sendo um deles em miniatura e o outro atribuído a Cristofano dell'Altissimo, na série de retratos de reis da Europa na Ponte Vecchio, que liga as galerias Uffizi ao palácio Pitti, em Florença. E pode ser de um pintor espanhol ou "muito provavelmente" italiano, consideram outros historiadores de arte consultados pela Veritas.

Nesta tela pintada no fim do século XVI ou início do século XVII, o rei aparece de armadura, como um cavaleiro cristão, notou na altura Anísio Franco. Na parte inferior, vislumbra-se o princípio do que seria uma Cruz de Cristo. E essa será a principal nota a realçar.

"Aqui, ele aparece como o verdadeiro cavaleiro cristão", disse o especialista. "Era esta a imagem que ele queria propagar" e que corresponde "à sua função" e ao que ele ia fazer nas conquistas do Norte de África. "É uma imagem dele como um cavaleiro quase medieval. Era essa a ideia da espiritualidade medieval subjacente à própria batalha de Alcácer-Quibir", concluiu então. Esta "é uma imagem perfeita e acabada dessa nova espiritualidade".