Os clássicos na literatura de cinco escritores portugueses

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Cinco escritores estiveram na Faculdade de Letras, em Lisboa, a falar sobre clássicos da literatura Manuel Roberto

À medida que os escritores iam entrando, no anfiteatro III da Faculdade de Letras de Lisboa, onde está a decorrer o colóquio internacional, ouviam-se murmúrios de agrado. "Isto é um luxo", sussurrava alguém. Na mesa-redonda dedicada à importância dos clássicos nas suas obras juntaram-se à mesma mesa os escritores Hélia Correia, José Mário Silva, Mário de Carvalho, Manuel Alegre e Vasco Graça Moura. 

Na primeira fila da plateia estava sentada Maria Helena da Rocha Pereira, da Universidade de Coimbra, que nesta quarta-feira participará na sessão de encerramento deste colóquio que começou segunda-feira. Todos os escritores referiram a importância que as traduções e o conhecimento daquela cultura tiveram na descoberta que cada um fez da Grécia e dos clássicos gregos.

O que os escritores contaram das leituras que, ao longo da vida, fizeram dos clássicos foi ao encontro do que disse Paula Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando os apresentou no início da sessão: lembrou a consciência que todos temos de que "os autores se fazem por percursos de leitura".

Hélia Correia, autora de "Perdição, Exercício sobre Antígona", é uma pessoa habitualmente calada. "Mas há dois temas sobre os quais não me devem provocar, é porem-me a falar de gatos ou da Grécia" contou e pôs a plateia a rir. Explicou que a Grécia para ela, não é vista como "um conhecimento exterior", cujos autores tenham enriquecido a sua formação ou que a tenham desafiado na sua actividade criativa. "A Grécia para mim é uma casa. A Grécia é o meu grande lugar de viver", disse. E explicou que embora não seja dos países onde se sinta fisicamente melhor (nas suas viagens, por vezes, desmaia, mas acorda do desmaio e lá vai ela outra vez) tem com a Grécia um caso de paixão violenta. O seu interesse pela cultura grega começou na adolescência, em parte por causa da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. Aos 15 anos teve a disciplina de grego no liceu. "A Grécia foi mudando, foi crescendo com a minha fome de aprendizagem. Sou sempre uma aluna das coisas gregas. A minha Grécia de hoje não tem nada a ver com a Grécia da minha adolescência ou a da Sophia", explicou. "A Grécia está em todo o lado na minha escrita, porque estar na minha escrita é estar em mim." Por muito que se aprenda, por tanto que se aprenda, o mundo grego nunca decepciona, nunca esgota, nunca se deixa surpreender. "Somos tão pobres quando nos comparamos com 5 minutos de Grécia", afirmou e lembrou naquela sala a primeira viagem que fez a Delfos que teve a sorte de descobrir na companhia de Maria Helena da Rocha Pereira.

"Atrevi-me a escrever peças gregas sobre as minhas figuras preferenciais. A minha preferida foi Antígona que durante a ditadura de Salazar, era amada enquanto ideal de uma resistência. É assim que se começa a amar a Antígona." Confessou que quando escreveu "Perdição, Exercício sobre Antígona" não percebia nada do que tinha escrito. Só mais tarde entendeu o sentido.  E também graças à tradução de Maria Helena da Rocha Pereira "desse texto pequenino que é um texto sem fundo". Quando viu a "Antígona" com outro olhar, quando a escritora julgou entender um extracto desse texto é que compreendeu o que tinha escrito.

Para Manuel Alegre, essa relação com os clássicos começou com Camões, no liceu a dividir as orações, tal como já contou em "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua", aos quinze anos disse à irmã que ia continuar "Os Lusíadas". A Maria Helena da Rocha Pereira e ao professor Paulo Quintela (que foi director artístico do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) deve o seu interesse pela "Antígona", com o teatro universitário representou a tragédia em muitos sítios, Alegre interpretava o mensageiro. Nunca se enfastia de ler Homero. Mais recentemente leu a "Ilíada", na tradução de Frederico Lourenço. "Está lá tudo", diz. Lembra a relação quase carnal dos combatentes em que a penetração é feita pela espada, Heitor é o seu preferido e admira a humanização de Aquiles que é insuportável mas que se vai humanizando. "Tudo isso está na minha poesia e ainda mais num futuro livro que irá sair em Abril", anunciou o poeta que também esteve na Grécia com a sua mulher e acompanhado pela sua amiga Sophia, numa excursão de alemães e japoneses. Leu no final um poema inédito chamado "Tróia".

Mário de Carvalho inveja aqueles que são capazes de ler em latim ou em grego e fez uma homenagem a todos os que os autores que "sobreviveram à destruição das bibliotecas e à fúria da barbárie". Leu excertos da sua obra "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina" onde a "Epístola aos Pisões (Arte Poética)" de Horácio e a "Poética" , de Aristóteles, estão contidas. Tal como se vê a determinada altura da conversa entre os dois coronéis: "Eu, cá para mim, um livro deve apressar-se para o evento, começar logo a meio da coisa e eliminar desvios e as imaginações que só servem para encher". E os risos na sala aconteceram com a leitura da frase: "Há gajos que se fartam de fazer citações encapotadas só para ver se a malta dá por isso!"

Vasco Graça Moura também pôs a sala a rir com o seu divertidíssimo poema "Diana no banho" ("num tom mais impróprio para senhoras", brincou) que está publicado em "Laocoonte, rimas várias, andamentos graves" (Quetzal) e que começa assim: "Via diana /pelo buraco/da fechadura./era jacuzzi?//banho de espuma?/estava nua,/brilhava flava,/tinha o cabelo// puxado para cima,/belas maminhas/ à tona de água,/olhos fechados// deliciada,/os pés nas bordas/dos azulejos./(...)". E contou que a sua adolescência a aprendizagem dos mitos se completa com a leitura de "Os Lusíadas" e depois com Ezra Pound, "que tinha [num poema] umas linhas em grego que eu ainda hoje não sei o que querem dizer". Lembrou a importância muito grande que "o imenso património da cultura europeia"  tem na sua maneira de escrever. E falou, como só ele sabe, da impossibilidade da palavra abarcar o mundo, pois "só no tempo de Homero é que o tempo cabia em alguns versos".

O mais novo dos autores, o poeta e crítico literário José Mário Silva, fez a ponte para o presente. O autor apesar de nunca ter estado na Grécia fisicamente, sente como se de lá nunca tivesse saído. Leu alguns dos seus poemas do livro "Nuvens & Labirintos" (2001), onde fez o exercício literário de trazer os mitos para a vida urbana, para uma Lisboa do início do século XX. E criou um Homero, cego e perdido em Santa Apolónia ou uma Eurídice a atravessar um túnel do metro lisboeta.

Nesta mesa-redonda ficou definitivamente comprovado que os autores se fazem mesmo por percursos de leitura.