Crítica

Mare Tenebrarum

Uma viagem ao sorvedouro da Cidade do México 
em que reconhecemos 
todos os traços de Gonçalo M. Tavares.

“Canções Mexicanas” é um livro louco escrito por um “louco” - Gonçalo M.Tavares (ele e o seu duplo) - que escapou à travessia de incontáveis vórtices, isto é, ao turbilhão de torrentes desencontradas que dá pelo nome de Cidade do México. Escapou com o projecto de escrever não mais um livro negro, mas de traçar o bairro negro onde “Rua Pinochet dá directamente para a Rua Pol-Pot”.

A Cidade do México é o centro sem centro (notem a sintaxe do ''sem'') porque tudo é centro, círculo sobre círculo cada vez mais largo; é a capital de um pais e uma extensão territorial urbana e humana imensas, parecendo cobrir a Terra inteira, e que acolhe o último romance que não é romance de Gonçalo M. Tavares. Ficção apenas, como está escrito. Cidade do México, Mare Tenebrarum. 28 milhões de habitantes. A capital nem ladeia o mar, sendo porém, em abstracto, ou em si, um mar, um sorvedouro que arrasta (“Maelström”), ou uma massa enlouquecida, cega, não de água, mas de gente que redemoinha freneticamente, gente que mesmo parada não cessa de borbulhar sob a pele. Um vaivém como o das marés. Gente que depois cai, nos braços do crime e/ou da religião. Ou dos dois, é o mais certo. Sendo que a figura da “queda” é recorrente no escritor.“Não sei nada do México e tenho” uma recensão a fazer.

Pego primeiro em dois livros recentes (2010), distintos mas algo contíguos, companhias de que gosto e indistingo: “Viva o México”, de Alexandra Lucas Coelho, e “É Março e é Natal em Ouagadougou”, de António Pinto Ribeiro (APR), os dois, entre muitas outras coisas, navegando em busca dos murais de Diego Rivera e da casa azul de Frida Kahlo. Trabalho moldado sobre o mesmo húmus. “Da janela pode ver-se um condutor lendo o jornal ao volante. Na fila do lado esquerdo, uma senhora aproveita as paragens do carro para arranjar as sobrancelhas, uma mãe amamenta um bebé no banco traseiro, um condutor de camião come um peixe seco à janela, um rapaz de empresa de entregas bebe de um termo florido, uma senhora tricota sempre que o carro pára, dois condutores em faixas paralelas conversam ao longo do percurso, ajeitando as suas viaturas de modo a mantê-las lado a lado, um homem chora ao volante. (...) Carros de alta cilindrada negros, de vidros esfumados, percorrem as ruas da cidade, escoltados por outros carros negros, de vidros esfumados negros de grande cilindrada, os cartéis ditam a lei. Tapetes de folhas de jacarandás tapam os passeios que se transformam em passeios roxos” (APR). “Não me lembro de ter sido levada assim de enxurrada por um país. Comovente. O México é comovente. Se alguém falar comigo agora, desato a chorar” (ALC). Ambos, no viajar da sua distinta mas sobreponível viagem, embarcam com livros. E o autor de “Canções Mexicanas”? Ou o narrador, aquele sujeito que diz eu, ou aquele que se interroga retoricamente: “Entendeste? Que absurdo, não entendo, respondo a mim próprio“. Ter-se-á o autor de “Jerusalem” deparado com algum deles? O que os distingue e os aproxima tão profundamente? Numa cidade concentracionária, suada e sufocada pelo calor, ALC fala de ventoinhas que borrifam os transeuntes de água. GMT fala de um Salvador de DDT em punho, esguichando o veneno para outros ainda mais malucos, corpos sujos que se despem para o receber.

Sem soltar o arganéu, todos navegam à sua maneira neste turbilhão, sabendo-se que quem lá cair perde o poder e se dissolve. GMT, esse, vai arrastar consigo Edgar Allan Poe e nele embeber esta ficção (mais real do que a realidade que desrealiza?), uma ficção que se dá materialmente em aberto (sem pontuação final) - como a cidade, ficção feita de fragmentos justapostos. Conjugam-se magistralmente “Uma Descida no Maelström”, do autor americano, e a Cidade do México. Vórtice: Maelström, a cidade, os passos que nela o narrador dá e o estilo em que o autor a transcreve. Ambos abriram mão da velha Europa, da ciência, da racionalidade. Exemplo entre tantos outros: a salvação num dado momento pode ser saber dançar a tarantela. A salvação pelos pés, nunca pela cabeça; eles é que mandam. Dizer que sim, sempre, A tarantela “salva-te da picada de um insecto mortal”. Dizer sim, nunca desdizer, é crença popular. Mas não só. Vem de tarântula, da sua picada que inocula uma substância tóxica inebriante e leva à dança. Dança da Europa meridional, siciliana, dança muito rápida, cada vez mais rápida. “Se parares dou-te um tiro, e eu agradeço esta forma de me ensinarem a dançar”. Da Sicília vêm também 500 mil cães esfomeados, em matilha. Ou menos, talvez uns 10 por cento, escreve Gonçalo, com a sua obstinação nos números. Serão desembarcados no Zócalo, a praça principal, para fazerem fugir os mendigos... Mendigos estranhos, soberbos, impassíveis, como os demais. E como a pequena ataraxia: sentada, num cartaz: “No soy capaz de moverme. Dame Diñero!(...)”. Uma ordem? Claro, disse o guia, inexpressivo também. Um hospício global, o México D.C., bebendo mezcal, mais rude do que a tequilla. Alguém terá dito, depois de ter bebido, e ilustrando com gestos em cima da cabeça, como se se tratasse de uma ventoinha ou de um redemoinho: Quem precisa do mar e do maelström, na Cidade do méxico, se tem mezcal? Falo do Poe mas o rapaz já não ouve nada, está entretido com o redemoinho em cima da cabeça” .

Reconhecemos neste livro o escritor, todos os seus traços: um mundo em devir animal, despovoado, uma estranha forma de ironia, a exploração do absurdo, a geometria fria das peças em jogo. Umas encaixam, estendem-se, reconhecem-se nas outras ao longo do livro, e assim estas “shorts stories” vão ganhando coesão, imagética e estilística.

Neste cenário, o sentimento do leitor é de asfixia e de opressâo. Mas lembremos “A Metamorfose”, de Kafka. Diz-se que Franz K., ao lê-la aos seus amigos, se desatava a rir. Aqui muitas são as histórias interrompidas pelo riso que causam no leitor (o louco que foi para louco para aprender inglês na TV do hospício, a prostituta que ajoelhava o cliente num banquinho e o obrigava antes de mais a beijar os pés de Cristo na cruz, “besito, besito”); outras o levariam, no fim, a rodopiar em delirio, querendo também ele que um helicóptero descesse e o arrancasse do sufoco destas páginas magistrais. A Jerusalem lá em cima!, “mas isso é impossível”.