Crítica

Melancolia

Lars von Trier mudou de medicação para a depressão e fez bem. Depois dos remédios anteriores lhe terem inspirado o indigesto “Anticristo”, as novas inspiraram-lhe aquele que, a nosso ver, é o seu melhor filme em 20 anos, em grande parte porque “Melancolia” ejecta por inteiro os dois tiques mais petulantes e irritantes do seu cinema: o seu gosto pela manipulação (da narrativa e do espectador) e a sua tendência adolescente para o choque gratuito. Em “Melancolia”, filme-catástrofe de câmara passado numa luxuosa mansão campestre, o fim do mundo é uma metáfora mal disfarçada da depressão e do niilismo da sua personagem principal; o filme estica-se para lá do que a história aguenta, roda em seco parte do tempo, tem apenas duas personagens com espessura (sublimemente interpretadas por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg) e uma mão-cheia de bonecos a preencher o resto. Mas é também o filme mais sincero, mais frágil, mais desarmado de Von Trier, aquele em que sentimos um ser humano por trás de todo o estilo visual (aqui apurado ao limite da opulência) e não apenas um brincalhão irritante. Se continuar assim, ainda pode voltar ao panteão dos grandes.