Sarkozy assumiu o compromisso que a Alemanha queria ouvir para salvar o euro

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Sarkozy pouco antes de fazer o seu discurso sobre a crise europeia

Presidente francês prometeu mais disciplina orçamental, mas pede em troca uma "solidariedade sem falhas" de todos os países e do Banco Central Europeu

Nicolas Sarkozy respondeu ontem positivamente ao essencial das condições impostas pela Alemanha para salvar a zona euro da implosão, ao defender a necessidade de uma "refundação" da Europa baseada na estabilidade, convergência económica e disciplina orçamental.

O sim francês abre o caminho para Angela Merkel, chanceler alemã, e o Banco Central Europeu (BCE) assumirem, por seu lado, a "solidariedade sem falhas" esperada por Paris e pela generalidade dos países europeus para travar a especulação dos mercados contra os países mais frágeis, e resolver de uma vez por todas dezoito meses de crise da dívida.

O presidente do BCE, Mario Draghi, deu, aliás, ontem sinais de que poderá intervir de forma mais robusta no mercado para proteger os países da especulação, se os governos do euro avançaram de forma decidida para uma união orçamental (ver pág. 4).

Esperada com grande expectativa em todas as capitais europeias, a resposta da França constitui a chave do acordo que deverá ser concluído na próxima semana pelos líderes europeus sobre um novo salto na integração económica dos países do euro enquanto resposta à crise da dívida.

Merkel e Sarkozy encontrar-se-ão, aliás, na segunda-feira em Paris para preparar as propostas que pretendem submeter aos parceiros, e que incluirão uma alteração dos tratados europeus para consagrar uma união de estabilidade com uma disciplina mais apertada, controlo europeu dos orçamentos nacionais e sanções mais duras contra os países que não cumpram as regras.

Estas são algumas das condições avançadas por Merkel para aceitar a solidariedade que lhe é pedida em termos de protecção dos países atacados pelos especuladores.

Sarkozy respondeu a quase todas as condições pela afirmativa durante um discurso de uma hora perante mais de 5 mil pessoas, numa grande sala de concertos em Toulon, e que pretendia constituir o balanço do seu mandato na perspectiva das eleições presidenciais de Abril de 2012.

O líder francês confirmou a sua abertura para rever os tratados europeus para permitir uma "refundação da Europa". "A Europa precisa de mais solidariedade, mas mais solidariedade exige mais disciplina", afirmou, retomando os termos exactos da posição alemã.

"A França e a Alemanha fizeram a escolha da convergência [económica]. Nunca porei em causa esta escolha", assegurou, frisando que "a escolha da convergência é a escolha do trabalho em comum, do esforço partilhado para construir no coração da economia europeia uma zona de estabilidade e de confiança que será o motor da competitividade europeia".

Depois desta profissão de fé, o Presidente francês pôs as suas condições, que ainda não são totalmente consensuais em Berlim.

França propôs um "FME"

A actual crise "de credibilidade e de confiança" no euro só se resolverá se "todos os Estados e todas as instituições" manifestarem uma "solidariedade sem falhas" entre todos. Foi por isso, lembrou, que "a França propôs um Fundo Monetário Europeu (FME) que será o instrumento da solidariedade" e criará "uma barreira contra a especulação". Com decisões por maioria qualificada para evitar que partidos minoritários num país bloqueiem todo o processo, precisou.

Do mesmo modo, "o BCE tem um papel determinante a desempenhar", prosseguiu, embora insistindo, na mesma linha de Merkel, que a instituição "é e permanecerá" independente do poder político. "[Apesar disso], estou convencido que, face aos riscos deflacionistas que ameaçam a Europa, o BCE agirá." Cabe-lhe inteiramente a decisão sobre "quando e com que meios". Mais: "Que ninguém duvide que [o BCE] o fará." E, tal como Merkel, insistiu: "Esta solidariedade sem falhas não é possível sem uma disciplina mais estrita."

O discurso do Presidente francês tem, em contrapartida, todas as condições para irritar alguns países e constituir uma decepção para a Comissão Europeia e para o Parlamento Europeu (PE), firmes defensores de uma maior integração baseada nas regras e instituições comunitárias.

Para Sarkozy, pelo contrário, a integração terá de ser conduzida pelos governos, através do chamado "método intergovernamental", o que equivale a recusar dar mais poderes à Comissão e ao PE.

"A crise pressionou os chefes de Estado ou de governo a assumir responsabilidades crescentes, [porque são eles que] dispõem da legitimidade democrática [para decidir]", afirmou. "Pois bem, é pelo [método] intergovernamental que a integração europeia vai passar, porque a Europa vai ter de fazer escolhas estratégicas eminentemente políticas."