Opinião

Carlos Marta, o federador, Fernando Gomes, o reformador

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Os 84 delegados que no próximo dia 10 vão eleger o próximo presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) terão de escolher entre um benfiquista (Carlos Marta) que tem o apoio da Associação de Futebol do Porto (cujo presidente, Lourenço Pinto, nunca iria contra a vontade do FC Porto, mesmo que Pinto da Costa procure passar uma imagem pública de neutralidade) e um portista (Fernando Gomes) que tem como principais amparos clubísticos o Benfica e o Sporting.

Um aparente contra-senso que se percebe e explica à luz dos complicados equilíbrios de forças que existem no futebol português. Dois exemplos: o avanço da lista de Fernando Gomes levou a que Fernando Seara acabasse por desistir da ideia que tinha de se candidatar, para o que contava com o apoio garantido do Benfica - hoje Fernando Seara é o candidato a presidente da assembleia geral nos corpos gerentes propostos por Carlos Marta; Soares Franco desistiu da corrida por não ter contado com o apoio do clube a que presidiu até há dois anos, e o Sporting acabou por apoiar Fernando Gomes, depois de ter escolhido Hermínio Loureiro (que será uma espécie de braço direito de Gomes, se este for eleito) como o homem certo para o lugar certo. Como se não bastasse este intricado processo, Luís Duque, administrador da SAD leonina, não tem tido dúvidas em dar o seu apoio público a Carlos Marta, como se infere das suas presenças em acções públicas de campanha da Lista A.

São apoios que não se irão reflectir na votação final, a exemplo do que aconteceu, por exemplo, quando José Mourinho apoiou declaradamente Fernando Gomes. Mas são posições que poderão influenciar a inclinação de alguns dos delegados votantes, até porque a eleição irá decorrer sob votação secreta.

Carlos Marta (Lista A) tem 54 anos e é mais novo quatro anos do que Fernando Gomes. Ambos têm meritórios currículos enquanto praticantes, mas em modalidades diferentes. O líder da lista A foi futebolista profissional, tendo-se licenciado em Educação Física na opção de Futebol. Fernando Gomes foi campeão nacional de basquetebol com a camisola do FC Porto, cuja secção chegou a liderar, antes de presidir à Liga de basquetebol. Licenciado em Economia, tem um percurso profissional multifacetado, que inclui o ensino universitário, a gestão de empresas, designadamente do grupo Amorim, a provedoria da Santa Casa de Misericórdia e a administração da SAD do FC Porto. Nos últimos 18 meses, presidiu à Liga de Clubes.

Ex-deputado e antigo presidente da distrital do PSD de Viseu, Carlos Marta vai no terceiro mandato como presidente da Câmara Municipal de Tondela. Grosso modo, pode dizer-se que a candidatura de Carlos Marta emana do movimento associativo, enquanto a de Fernando Gomes assenta principalmente no futebol profissional. Carlos Marta representa boa parte das associações que lutaram, sem êxito, contra as recentes alterações no Regime Jurídico das Federações Desportivas. Com a nova lei, aquelas associações passaram a representar, no seu conjunto, apenas 50 por cento do colégio eleitoral. Um peso ainda muitíssimo relevante e decisivo, não fosse a circunstância de Fernando Gomes ter conseguido também o apoio de algumas associações (Braga, Aveiro, Coimbra, Santarém, Ponta Delgada, Vila Real e Beja). Algumas notícias publicadas na imprensa desportiva apontam-no como favorito, mas até entre os seus apoiantes há quem mantenha um discurso prudente, sempre aconselhável numa votação secreta e num universo votante muito volátil...

As duas candidaturas têm imensos pontos de contacto entre si, como se comprova até no slogan escolhido: Pelo futebol, por Portugal (Carlos Marta) e MaisPortugal (Fernando Gomes).

A lista A foi acusada por Fernando Gomes de ter plagiado 21 medidas que já constavam nas promessas eleitorais da lista B. Numa entrevista recente, Carlos Marta também deixou acusações no ar: "Talvez seja por causa da arbitragem que a Liga quer mudar-se para a federação." Referia-se não só ao facto de boa parte dos candidatos da lista de Fernando Gomes já ocuparem cargos idênticos na Liga de Clubes, mas também à alteração legislativa que fez regressar a arbitragem e a disciplina ao âmbito da federação. De resto, salta à vista que esta última circunstância mexeu com muitos interesses do futebol português, neste caso antagónicos e distribuídos nas duas listas candidatas.

A candidatura de Carlos Marta distingue-se por não apresentar qualquer lista candidata ao conselho de arbitragem. O dirigente assumiu, desde a primeira hora, que apoiaria uma lista saída do organismo que representa os árbitros. A APAF chegou a manter negociações também com Fernando Gomes. "Dissemos sim ao consenso, mas não às grelhas que faziam com que cada lista escolhesse um número certo de nomes", explicou quem voltou a escolher Vítor Pereira para liderar o sector. Gomes garante ainda que, "sem sofismas", salta à vista que Luís Guilherme (presidente da APAF) é o candidato da outra lista...

Tanto Gomes como Marta garantem não ter feito compromissos com ninguém. Um e outro declararam a necessidade de existir maior solidariedade na distribuição do dinheiro que resulta das transmissões televisivas e ambos defenderam que a melhor solução passa por uma negociação centralizada. Nesta matéria, Gomes corre mais riscos. Porque os principais clubes estão entre os seus apoiantes e porque é pública a sua boa relação com Joaquim Oliveira, a quem não interessa que a Olivedesportos passe a ter de negociar um "bolo" total com um representante dos 32 clubes profissionais.

O único debate em que Marta e Gomes aceitaram participar (anteontem, na RTP Informação) terminou com um empate técnico. Marta comunica melhor, mas Gomes foi mais agressivo e incisivo. Foi um confronto vivo e interessante entre dois candidatos bem preparados. Qualquer que seja o eleito, é garantido que a federação ficará bem entregue, e melhor do que está.

Gilberto Madaíl foi importante na recuperação financeira da FPF (que tem hoje muito dinheiro em caixa e um orçamento de 40 milhões de euros) e pode reclamar a sua parte nos méritos desportivos, mas muitos dos problemas que afligem hoje o futebol português também se devem à inacção de quem é presidente há quase 15 anos.

No debate, ficou evidente que Marta assume uma postura mais agregadora, enquanto Gomes não tem dúvidas de que o seu posicionamento, sem deixar de ser agregador, passa também pela rotura. Isso tanto lhe vale apoios, como lhe cria anticorpos - não é por acaso que falha o apoio público do FC Porto, o que era previsível, depois de ter escolhido Hermínio Loureiro e Vítor Pereira e de ter voltado a receber o apoio inequívoco de Luís Filipe Vieira, a exemplo do que tinha acontecido nas eleições da Liga. Na altura, muita gente entendeu tratar-se de uma jogada magistral de Pinto da Costa. Um enorme equívoco. Porque Fernando Gomes há muito que corre por sua conta e risco, como ficou claro quando Pinto da Costa nem se lhe referiu na última festa dos Dragões, apesar de Gomes estar presente na sala.

Os dois candidatos apresentaram planos de desenvolvimento, em que as suas preocupações principais passam pela melhoria na formação, nos quadros competitivos e na luta contra o uso excessivo de jogadores estrangeiros. A exemplo do que tem feito na Liga, Gomes valoriza muito o incremento das receitas. Marta insiste mais na distribuição justa dos dinheiros, designadamente daqueles que resultam da presença nos Europeus e nos Mundiais. Ambos elogiam Paulo Bento, mas não estão de acordo num ponto: Marta insiste em que a sorte dos seleccionadores só deve ser definida no fim de cada ciclo, enquanto Gomes diz ir fazer a vontade ao treinador e dizer-lhe o que o futuro lhe reserva mesmo antes de começar o Europeu. Mas, por outro lado, não exclui a possibilidade de, no futuro, vir a contratar um seleccionador estrangeiro, o que Marta recusa.

O líder da lista A convidou Toni e Augusto Inácio para assumirem cargos de direcção à frente das selecções, mas deixou claro que irá continuar a investir em Carlos Godinho. Nada mais justo, porque o actual director desportivo da federação é de uma competência e seriedade acima de qualquer suspeita.

Nos convites feitos por Fernando Gomes, também se percebe a intenção de abranger um largo espectro clubístico. Mas é duvidoso que Humberto Coelho tenha o perfil ideal para ser o responsável pelas selecções. Apostas acertadas parecem ser as de João Pinto, Pauleta, Mónica Jorge, Pedro Dias e Vítor Baía (mandatário desportivo).

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