Torne-se perito

O homem que quis ganhar a memória da guerra

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Com as suas “Memórias da II Guerra Mundial”, Winston Churchill quis garantir que seria ele a construir a imagem da sua “melhor hora” para o futuro. O livro que valeu ao maior líder de guerra do século XX o Nobel da Literatura foi finalmente traduzido para português

No final de uma das sessões da Cimeira de Teerão (1943), a primeira que reuniu os líderes das três potências aliadas (o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, o presidente do Conselho de Ministros da União Soviética, Estaline, e o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill), este último disse ao chefe dos comunistas soviéticos: "Em tempo de guerra, a verdade é tão preciosa que deve estar sempre protegida por uma escolta de mentiras". Estaline e os seus companheiros, de acordo com o relato que Winston Churchill fez desta sessão em "Memórias da II Guerra Mundial" - o título da tradução portuguesa de "The Second World War", agora publicado pela Texto Editora -, apreciaram particularmente a frase após esta ter sido traduzida.

Nessa reunião, tinha ficado definido que o desembarque na Normandia, a operação Overlord, teria lugar em Maio do ano seguinte (a data concreta acabaria por ser 6 de Junho de 1944) e essa decisão atenuara, por algum tempo, a tensão entre os dois líderes. Desde a primeira visita que Churchill fizera a Moscovo, após a invasão da União Soviética pelos nazis, que os russos exigiam a abertura de uma segunda frente na Europa, a Oeste. Estaline desconfiava de Churchill e pensava que este preferia uma invasão ao desembarque no Norte da França. O primeiro-ministro britânico tinha reservas em relação ao êxito dessa operação, embora insista, ao longo de "Memórias da II Guerra Mundial", que nunca foi contra o desembarque. Como todos os livros de memórias, este é também um exercício de auto-justificação.

A frase, uma das muitas citações célebres do político britânico, tem de ser entendida no seu contexto. Ela referia-se às medidas que tinham de ser tomadas para que Washington, Moscovo e Londres pudessem comunicar entre si os detalhes dessa operação e do ataque decisivo que o Exército Vermelho iria lançar algumas semanas antes na frente Leste, sem que o inimigo fosse capaz de os decifrar. Mas introduz também uma leitura ambígua quanto à personalidade fascinante de Winston Churchill, um político genial e instintivo que acreditava ser possível ganhar uma guerra através da palavra. Algo que provou durante o período mais difícil da Segunda Guerra Mundial, entre 1940 e 1941, quando a Grã-Bretanha enfrentou sozinha o Terceiro Reich. Essa não foi só "a melhor hora" ("their finest hour") dos britânicos, que Churchill exortara a resistirem em três discursos históricos proferidos entre o ataque nazi à França, Bélgica e Holanda e a rendição dos franceses (Maio e Junho de 1940). Foi também a melhor hora de um dos mais extraordinários oradores políticos de toda a história.

Se Churchill quis usar a palavra para estimular a coragem dos seus compatriotas na hora da resistência, também quis influenciar pela palavra o relato desse combate. "Memórias da II Guerra Mundial" é precisamente a histórica de como um político de excepção, que foi também um grande escritor, quis marcar a memória do maior conflito da história da humanidade, em que desempenhou um papel decisivo. Uma narrativa que Churchill pôde escrever a partir do centro dos acontecimentos e que lhe permitiu construir e preservar o seu legado (e o seu mito) para a história.

Em 1948, o ano em que saiu o primeiro dos seis volumes que haveriam de ser reunidos em "The Second World War" - a versão portuguesa segue o texto fixado numa versão abreviada para quatro volumes (1046 páginas sem o índice) publicada pela primeira vez no Reino Unido em 1959 -, Churchill disse na Câmara dos Comuns: "Pela minha parte, acho melhor para todos os partidos deixarem o passado para a história, em particular porque eu proponho-me escrever essa história". O livro, elegante, detalhado, épico, trágico, valeu a Churchill o Prémio Nobel da Literatura, em 1953. O prémio foi-lhe atribuído também pelo todo de uma obra vasta e pelos extraordinários discursos do tempo da guerra. Com a memória vivida dos acontecimentos ainda próxima, a Academia Sueca sublinhava a universalidade de um homem que definiu uma época com as suas palavras, e que a definiu como um tempo de coragem e de resistência perante o pesadelo nazi, cuja verdadeira natureza Churchill fora dos primeiros (e dos poucos) no Reino Unido a compreender.

Coragem perante

o terror nazi

O projecto de escrever estas memórias de guerra terá surgido quando Churchill assumiu o cargo de primeiro-ministro, em Maio de 1940. Começou então a arquivar a documentação que iria usar. Mas o livro transcende os seis anos do mais sangrento conflito da história da humanidade. O ponto de partida é o pós-Primeira Guerra Mundial (significativamente, o primeiro volume da versão original de "The Second World War" chamava-se "The Gathering Storm"). Churchill defende a tese de que a Segunda Guerra Mundial é uma consequência das penalizações excessivas impostas à Alemanha no Tratado de Versalhes, após a guerra de 1914-1918. Critica também a dissolução do Império Austro-Húngaro, cuja reconstituição parcial proporá como uma solução para a Alemanha pós-1945, separando a Prússia para um lado e criando a Sul uma "federação do Danúbio", que incluiria a Baviera e a Áustria.

A humilhação da Alemanha, associada aos efeitos devastadores da depressão de 1929, tornara possível a aliança entre o nazismo e o exército germânico, que já preparava o rearmamento e pensava ser capaz de conter Hitler. E Churchill insiste em fazer uma oração de presciência e em mostrar que estava certo na década de 1930. Nessa altura, a crise impunha o despedimento de funcionários públicos e a redução de salários no Reino Unido (um discurso que conhecemos bem hoje), o que tornava ainda mais difícil falar de rearmamento. Para mais, não faltavam na Grã-Bretanha germanófilos que simpatizavam com a causa de Hitler contra as democracias e viam nele um escudo contra a Rússia soviética.

O passado político de Churchill tinha sido errático. Mudara mais de uma vez de partido e vira a sua credibilidade desfazer-se quando, em 1915, defendeu, enquanto Primeiro Lorde do Almirantado, o ataque à Turquia em Gallipoli, que viria a ser uma das maiores catástrofes da Primeira Guerra Mundial para os aliados. Foi nessa altura, aliás, que Churchill começou a pintar, hobby que nunca abandonou. Mas se Winston Churchill estivera muitas vezes errado (embora nem sempre), mas desta vez tinha razão. E quando o número 10 de Downing Street ficou vazio, em Maio de 1940, a coragem era tudo o que a Grã-Bretanha ainda possuía para resistir ao terror nazi.

O que estava por detrás dessa formidável resiliência era uma personalidade única, que nos habituámos a entender como uma espécie de quinta-essência da identidade britânica. No entanto, a singularidade de Winston Churchill é o produto de um cruzamento entre a tradição aristocrática do Reino Unido e a cultura americana - era o filho do sétimo duque de Marlborough e da filha de um especulador financeiro de Nova Iorque, Jennie Jerome. No livro, Churchill define-se por mais de uma vez como meio-americano. A sua relação com Roosevelt é particularmente empática. Numa visita a Washington, que descreve em pormenor, Sir Winston foi hóspede do Presidente americano durante três semanas, na Casa Branca. Costumava empurrar a cadeira de rodas de que Roosevelt era prisioneiro. E transportou consigo os hábitos que o tornariam um político inelegível na ditadura moderna do politicamente correcto. Deitava-se tarde e levantava-se tarde, fumava e bebia a partir do momento em que acordava, e gostava de passar parte da manhã na cama, a ler. Churchill conta que uma manhã estava a sair do duche, completamente nu, quando Roosevelt entrou no quarto, na sua cadeira de rodas, e voltou as costas ao seu convidado, que se lhe dirigiu assim: "Saiba que o primeiro-ministro de Sua Majestade não tem nada a esconder ao Presidente dos Estados Unidos".

Outro extraordinário episódio descrito pelo autor é o momento em que recebe a notícia do bombardeamento de Pearl Harbour, através da rádio. Depois de confirmar a informação e de falar com Roosevelt, Churchill decide... ir dormir. Sabe que a guerra está ganha, uma vez que, a partir daqui, a América entrará no conflito. Qual seria a utilidade de passar uma noite em claro a seguir os acontecimentos, como seria obrigatório a qualquer político da era da televisão em directo (sendo que os directos televisivos, em regra, são como a cavalaria: chegam sempre depois do acontecimento)?

Entre dois mundos

e entre dois tempos

Churchill era um homem sem fronteiras, por ter vivido sempre na fronteira entre o novo e o velho mundo, e devia a isso o seu sentido de independência e o seu sentido de humor. Mas viveu também numa fronteira da História, entre o passado e o presente. Desde os primeiros anos da carreira lutou pelo império britânico e preservá-lo era um dos seus objectivos de guerra. Opôs-se sempre à independência da Índia, por exemplo. Por isso, existe a visão de que a guerra que Churchill travou destruiu para sempre o mundo em que ele vivia. Por outro lado, foi a cultura histórica que permitiu a Churchill liderar a Grã-Bretanha em guerra, tendo a perfeita consciência de que estava em causa uma ameaça existencial à democracia e à liberdade na Europa. Se a História não lhe permitiu ganhar a batalha do império, venceu claramente a batalha pela democracia e pela liberdade.

É um político entre dois mundos e entre dois tempos da História que se expõe nestas páginas extraordinárias, em que descreve operações militares com enorme detalhe (e a ajuda dos mapa que ele adorava - Roosevelt copiou mesmo, na Casa Branca, a sala dos mapas do "bunker" de Churchill em Whitehall), oferece-nos o pormenor humano das conversas que decidiram a guerra e a forma como o futuro da guerra e da paz era perspectivado durante os anos do conflito. A soma destes factores permite-nos descobrir os futuros possíveis que foram sendo desenhados ou estratégias alternativas que nunca chegaram a verificar-se. E é sempre através dos olhos de Churchill, da sua personalidade tenaz e enérgica, que vemos desfilar os líderes aliados. Vemos Churchill lamentar o ponto a partir do qual Roosevelt e depois Truman deixam de reunir separadamente com o primeiro-ministro britânico, para não melindrar Estaline - era já o mundo das superpotências do pós-guerra a emergir ainda com o conflito em curso. Vemos o conservador anti-comunista tentar conquistar a confiança de Estaline em sucessões infinitas de brindes com vodka quanto as necessidades da guerra o exigiram - no último ano do conflito tentará, em vão, mobilizar Roosevelt e os americanos contra a ocupação da Europa de Leste pelos soviéticos. Vemo-lo lamentar como De Gaulle passava a vida a dizer mal dos britânicos que lhe davam refúgio e depois aceitar a justificação do futuro presidente francês, que lhe explicou que se não criticasse os britânicos ninguém o levaria a sério em França....

Todo este fascinante universo de memórias e de história vivida é-nos trazido numa versão que, infelizmente do nosso ponto de vista, respeita as regras do novo acordo ortográfico. Sublinham-se também vários erros ou algumas escolhas excessivamente literais que, não chegando a pôr em causa toda a tradução, deviam ter sido evitados. Constata-se por exemplo que, na mesma página, a capital da Finlândia é mencionada em português (Helsínquia) e inglês (Helsingfors) e que a Baviera se tornou na Bavária. Numa passagem relativa à conferência de Teerão em que Churchill descreve um encontro a três entre os líderes aliados "with our interpreters", escreve-se que o encontro foi sem intérpretes. E a moção de censura foi literalmente traduzida por "voto de censura". Uma edição desta importância teria merecido uma melhor atenção nos detalhes.

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