Crítica

Melancolia

O clímax da passagem de Von Trier por Cannes 2011 foi uma conferência de imprensa. Não foi um filme. É essa a tragédia. O filme chama-se “Melancholia”, é a versão de “filme-catástrofe” do dinamarquês, um filme “bonito sobre o fim do mundo”, escreveu no dossier de imprensa. Recordamos que aí lançava: “Estou confuso e sinto-me culpado. O que é que fiz?”, perguntava no “director''s statement”, referindo-se ao seu interesse pelo romantismo, por Wagner e por Visconti que o filme exibiria.


Era o final de um texto em que Lars fazia a sua parte de exposição psicanalítica como é habitual ele fazer nos festivais. (Como quem faz uma patifaria e se expõe ao açoite. ) Não raras vezes isso é mais eloquente do que os filmes de Lars. E eis o filme: com a Terra à beira da catástrofe, o choque com outro planeta, decorrem os dias de duas irmãs, interpretadas por Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst. A primeira hora é dedicada ao casamento de Dunst, e Lars quer que se repare na proeza (mas não parece um “remake” da festa de “Festen”, o filme do seu ex-colega do Dogma 95 Thomas Vinterberg?). Na segunda, o mundo abeira-se do fim, Dunst está já sem marido, e nem a irmã que a protegia lhe vale. O filme nunca satisfaz a expectativa da catástrofe; nem se distingue por existir de forma silenciosa e plácida na catástrofe (para isso é preciso ver o estonteante “4:44 Last Day on Earth”, de Abel Ferrara...).

Parece um caso de mera afectação. Como alugar uma “limousine” branca no dia do casamento. É numa dessas, aliás, que a noiva chega, atrasada, porque a limousine é grande e não cabe nos caminhos para a boda. É Lars a querer falar do seu desejo de exibição perante o qual o filme é tão impotente?