Adesão dos médicos surpreendeu, a dos enfermeiros desiludiu

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Serviços mínimos foram cumpridos sem problemas

Já passava das dez da manhã quando espreitamos a entrada do serviço de urgências do Hospital Geral de Santo António (HGSA), no Porto, e a sala tem muitos lugares vagos. "Estamos cá todos... menos os doentes", dizem-nos ao balcão de atendimento. Estavam menos doentes, mas também havia menos médicos, enfermeiros e administrativos nos hospitais de todo o país. Corredores vazios no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e vias abertas para as visitas ao internamento no Hospital de Santo António. Ainda assim, os serviços mínimos foram assegurados sem incidentes.

Com as urgências asseguradas com serviços mínimos, houve - como em todas as greves gerais - o inevitável efeito de muitas cirurgias e consultas adiadas um pouco por todo o lado. Ao final da manhã o governo falava numa adesão na ordem dos 22 por cento no sector da saúde. Os sindicatos apontavam, como costume, números mais elevados. Os médicos arriscavam a hipótese de uma adesão "na ordem dos 70 por cento" e os enfermeiros soavam desiludidos com uma participação que ultrapassou, por pouco, os 50 por cento.

Na entrada para a zona de internamento do HGSA foi colocado um cartaz onde se lia "Greve, entrada livre", resultado dos poucos funcionários disponíveis para controlar as visitas. Do outro lado do edifício, os doentes com consulta marcada esperavam mais do que o costume para saber se a difícil viagem tinha sido em vão. E houve de tudo. Natália Borges esperou quase uma hora e foi de passo apresado e sorriso aberto em direcção aos corredores da consulta de cirurgia com os papéis da consulta na mão. Já Felisbela Pinto suspirava de desilusão após uma viagem de São João da Madeira. "O Doutor não está. Vai receber nova marcação em casa", ouviu do outro lado do balcão. A consulta estava marcada há um ano e agora é mais um tempo de espera, conclui. "Tentei ligar e disseram-me que não me podiam dizer se ia ter consulta ou não. Isso é que é pena. Agora a greve... estão no seu direito", desabafa a mulher preocupada agora em chegar a horas à empresa onde faz limpezas, num trabalho temporário.

No Hospital de São João, no Porto, a greve também adiou consultas e cirurgias (o bloco operatório central esteve fechado). No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, respirava-se uma calma invulgar com os corredores e salas de espera mais vazios. Menos de tudo, mais uma vez. Menos doentes, médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos. E, claro, menos consultas e cirurgias também.

Na saúde os protestos são marcados por uma adesão muito maior dos enfermeiros, auxiliares e administrativos. Porém, Pilar Vicente, da direcção da Federação Nacional dos Médicos contrapõe que, desta vez, "houve uma adesão surpreendente dos médicos, muito maior do que o habitual". Extrapolando a realidade que encontrou em unidades como o Centro Hospitalar de Lisboa Central ou o Curry Cabral, Pilar Vicente arrisca falar numa adesão dos médicos a nível nacional na ordem dos 70 por cento. "Um exemplo: num serviço de cirurgia com 24 pessoas encontrei duas a trabalhar", repara.

Há poucos dias, Guadalupe Simões, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses temia uma menor adesão à greve. Afinal, sempre era menos um dia de salário que "nesta altura pode fazer a diferença". Tinha razão. Ontem referia que a adesão ficou muito abaixo das expectativas. Os dados do SEP indicam que, a nível nacional, houve 65,8 por cento destes profissionais de saúde a aderir à greve no turno da noite e 52 por cento no turno da manhã. Sem dados definitivos sobre o turno da tarde Guadalupe Simões esperava que a adesão fosse menor ainda que de manhã.