Confrontos no fim da greve geral

Sete detidos e um polícia hospitalizado após a manifestação à porta do Parlamento

Mesmo em dia de greve geral a unidade é uma coisa muito relativa. Depois de não ter conseguido chegar a um acordo com os dirigentes sindicais para organizar um desfile conjunto em Lisboa até ao Parlamento, o movimento dos Indignados confrontou-se, ao desaguar em São Bento, com uma recepção algo hostil dos sindicalistas, que chegaram com meia hora de avanço e ocuparam a praça defronte da escadaria da Assembleia da República.

Alguns usaram mesmo os paus das bandeiras vermelhas para criarem uma barreira que impediu os “indignados” de avançar e de se misturarem com o resto da multidão. “Estão a separar os trabalhadores ligados à CGTP do movimento dos precários? É muito triste”, diz uma manifestante. Calados, os sindicalistas das bandeiras em barreira baixam a cara. Não dizem nada.

Depois de duas manifestações pacíficas feitas em separado - a da plataforma 15 de Outubro saiu do Marquês de Pombal, reunindo cerca de 2000 manifestantes, enquanto a da CGTP e da UGT partiu do Rossio -, este é o primeiro momento de tensão da tarde.

O outro ocorreu pelas 17h45, quando a praça ficou por conta do movimento dos indignados, alguns dos quais deitaram abaixo as grades policiais e tentaram invadir a escadaria do Parlamento, arremessando contra ela e contra os agentes garrafas de vidro. Acabaram por ser detidas sete pessoas, segundo informação confirmada pela PSP, uma das quais é um repórter fotográfico e há notícia de um polícia hospitalizado.

Segundo disse um comissário da PSP à TVI, outro dos detidos é um cidadão estrangeiro que será ouvido em tribunal nesta sexta-feira, indiciado por agressões a um agente policial.

O Parlamento fechou imediatamente a porta principal, enquanto vários grupos do corpo de intervenção conseguiram fazer recuar os manifestantes, que dirigiram a maioria das suas palavras de ordem contra a troika.

Antes disso, o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, tinha saudado a “coragem e determinação” dos portugueses que haviam aderido à greve geral: “A greve foi inquestionavelmente uma greve em grande esforço. Sentimos isso, respira-se um ar de grande responsabilidade, o sentimento de que a greve é um dever”.

“Os cinco ou dez euros que hoje perderam [os portugueses que aderiram à paralisação], no final do mês vão-lhes criar um défice muito significativo no seu orçamento”, observou.

Marcha pacífica no Porto

No Porto, na Avenida dos Aliados, a manifestação não fugiu ao figurino habitual. Muitas bandeiras vermelhas da CGTP, colunas de som a reproduzir algum do reportório de Zeca Afonso e uma multidão de perto de três mil pessoas de onde sobressaíam cartazes com palavras de protesto: “O Coelho tira-nos o dinheiro para o meter no cu do banqueiro”, “Roubar o subsídio de Natal é uma vergonha nacional”.

À frente dos microfones, representantes dos diferentes sindicatos iam dando conta do impacto da greve. “Sabem quantos comboios saíram [da estação] de São Bento? Nenhum”, proclamava um. “Aviões não há, o porto de Leixões está fechado. No Monte da Virgem [onde estão as instalações da RTP] a adesão foi entre 75 a 80 por cento e a empresa teve que transferir o jornal da tarde para Lisboa”, precisava João Torres, da União de Sindicatos do Porto.

A manifestação durou pouco mais de duas horas e, entre os rostos presentes, mais velhos que jovens, a aparência encardida de muitos anos de trabalho duro a ganhar às rastas dos mais novos. De resto, apesar do Mc’Donalds e das filiais de vários bancos ali mesmo ao pé, não se registaram quaisquer incidentes e, por volta das 17h00, a polícia voltou a abrir a zona ao trânsito.

Já `depois dos incidentes, o ministro Adjunto e dos Assuntos parlamentares, Miguel Relvas desvalorizou os incidentes frente à Assembleia da República entre manifestantes e policias, classificando-os “como casos pontuais”. “Os incidentes não podem nem vão reflectir o que se passou na greve geral”, disse à TVI.

Notícia actualizada às 20h12:

Actualizado o número de detidos, de quatro para sete e acrescenta um quinto parágrafo, com a informação da nacionalidade estrangeira de um dos detidos, que será ouvido na sexta em tribunal.