Mandar 2,5 milhões doentes das urgências para os centros de saúde não é praticável

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Os portugueses estão a recorrer mais às urgências NUNO FERREIRA SANTOs

Propostas do grupo técnico criado por Paulo Macedo suscitaram coro de críticas. Encaminhar doentes triados como "não urgentes" para os centros de saúde é uma das mais polémicas

Os especialistas são unânimes: encaminhar os doentes triados como "não urgentes" nos serviços de urgência hospitalares para atendimento nos centros de saúde não é praticável, pelo menos na actual situação. Fazendo as contas, como os doentes "não urgentes" correspondem a cerca de 40% do total de atendimentos nas urgências (6,4 milhões em 2010), concretizar esta proposta do grupo técnico para a reforma hospitalar implicaria mandar para os centros de saúde mais de 2,5 milhões de pessoas por ano.

Ontem, depois de a proposta ter provocado grande polémica, o coordenador do grupo, José Mendes Ribeiro, esclareceu que é um tema ainda "a debater", mas que a ideia subjacente passa por uma "melhor articulação" entre as urgências e os centros de saúde. Mendes Ribeiro defendeu a criação de mecanismos que garantam, por exemplo, que uma pessoa que vá à urgência sem justificação "tem uma consulta no centro de saúde no espaço de 12 de horas, em vez de ficar à espera na urgência". O coordenador do grupo defendeu ainda a necessidade reforçar projectos como a Linha de Saúde 24, que já permitiu evitar que 34% das pessoas que ligaram para lá não fossem à urgência.

Já o ministro da Saúde, quando questionado pelos jornalistas sobre esta sugestão, limitou-se a responder: "É uma das propostas [polémicas do relatório] que temos de ponderar." Paulo Macedo não quis tecer grandes comentários sobre o conteúdo do documento, afirmando que vai agora analisar as propostas "uma a uma" (ver texto na página seguinte). Mas, no discurso que fez antes, manifestou a esperança de que "este documento seja responsável por um saudável agitar de águas".

O certo é que aquela que era uma mera proposta entre dezenas de outras desencadeou de imediato um coro de críticas. "Não é exequível", afirmou o bastonário da Ordem dos Médicos, logo pela manhã, no fórum da TSF. "Só pode fazer uma proposta destas quem não tenha a noção do que é uma urgência e das limitações da triagem." O bastonário até deu um exemplo: o de um doente com uma dor no braço que é encaminhado para a ortopedia, quando a causa da dor pode ser um enfarte. "Duvido que haja alguém que corra o risco de enviar doentes com senha verde de uma urgência hospitalar para o centro de saúde."