Estudo

Jornais focam-se na dimensão internacional das alterações climáticas

Anabela Carvalho notou que as as organizações não governamentais de ambiente são menos referidas do que as empresas
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Anabela Carvalho notou que as as organizações não governamentais de ambiente são menos referidas do que as empresas Pedro Cunha/arquivo

Cimeiras em países distantes e tratados internacionais são os grandes temas das notícias climáticas na imprensa portuguesa, conclui um estudo a três jornais, divulgado esta tarde em Lisboa. Os impactos locais e regionais estão quase ausentes.

As alterações climáticas “são um assunto demasiado distante das pessoas, uma questão de grandes acordos internacionais que é decidida longe e com poucos reflexos a nível nacional”, disse ao PÚBLICO a investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa Luísa Schmidt, uma das autoras do estudo “As Alterações Climáticas nos Media e na Opinião Pública”.

O estudo, que faz parte do projecto internacional COMPON (Comparing Climate Change Policy Networks) para analisar cobertura mediática das alterações climáticas e onde também participou Ana Horta, do ICS, analisou uma amostra de 431 artigos publicados entre 2007 e 2010 nos jornais “Diário Económico”, “Jornal de Notícias” e PÚBLICO.

Os principais temas dos artigos analisados são os “acordos globais” e as “políticas europeias/nacionais” sobre alterações climáticas. Entre os menos abordados estão as práticas de sustentabilidade de cidadãos e empresas. Apenas 2,6% dos artigos dizem respeito à escala local e 3% à regional. Metade dos artigos fala de políticas, 10% da sociedade civil.

“A escala regional e local têm referências praticamente ausentes” nos jornais, disse ao PÚBLICO Anabela Carvalho, do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, que também participou no estudo. “E isto é problemático porque os cidadãos têm dificuldade em ligarem-se a estas questões. As alterações climáticas são construídas fora do alcance da intervenção do cidadão”, acrescentou. Por exemplo, “não há cruzamento entre planos rodoviários e alterações climáticas”.

Outra das conclusões que Luísa Schmidt salienta é o facto de os jornais não fazerem a ligação entre a crise económica e financeira e a crise climática e energética. “Vivemos um momento extremamente complicado, quando a crise económica obscurece tudo.” A investigação registou uma queda quase abrupta do número de notícias em 2009 e 2010, desde a crise. “O problema é que ninguém liga os dois tipos de crise. Estão acantonadas. Os jornais abordam o assunto muito ligado só às questões do ambiente quando este também diz respeito a muitas outras coisas como a saúde, economia, energia e agricultura”.

O PÚBLICO é o jornal que deu mais voz aos cientistas, instituições europeias, organizações internacionais, administração central/regional e associações e cidadãos. O “Jornal de Notícias” foi o jornal que mais espaço deu aos Governos estrangeiros e aos partidos políticos e o “Diário Económico” aos agentes económicos e autoridades locais.

Anabela Carvalho participou no projecto da Universidade do Minho “A Política das Alterações Climáticas: Discursos e Representações”, de 2005 a 2008”, e hoje diz ter ficado surpreendida com a predominância do Governo e de fontes estatais enquanto fontes para a cobertura climática. Também notou que a comunidade científica é pouco activa na disseminação da sua informação e que as organizações não governamentais de ambiente são muito menos referidas nas notícias do que as empresas.

“As pessoas estão interessadas [nas alterações climáticas] mas têm um grande sentimento de impotência. Associam mais a esta questão palavras como secas, inundações, degelo e incêndios do que energias renováveis e transportes limpos. Têm uma imagem muito negativa, sentem-se mais vítimas do que agentes de resolução”, comentou Anabela Carvalho.