Jorge Figueira no comboio-fantasma da arquitectura portuguesa

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“Reescrever o Pós-moderno” reúne sete entrevistas com arquitectos que marcaram o nosso país nas décadas de 70/80. Jorge Figueira, arquitecto, professor, crítico, acha que todos eles foram pós-modernos. E tenta remar contra a “tábua rasa” que diz ter sido feita em Portugal relativamente àquele movimento

Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura, Manuel Graça Dias, Manuel Vicente, Pancho Guedes, Tomás Taveira e Paulo Varela Gomes. A ordem de apresentação é alfabética. Jorge Figueira (n. Vila Real, 1965) não faz distinção no escalonamento do papel e da relação que cada um destes arquitectos teve com o pós-modernismo entre nós, e na sua ponte com o mundo. "Tenho a convicção que todos eles trabalharam sobre aquilo que estava a acontecer nos anos 60, 70 e 80, todos eles perceberam que o mundo estava a mudar, que a cultura americana passava, desde o pós-guerra, a ser hegemónica, e que a arquitectura moderna e modernista dos anos 20 e 30 tinha acabado, nas suas premissas mais redentoras do mundo".

Justifica assim a associação daqueles sete arquitectos numa série de entrevistas que realizou em 2006/07, para a sua tese de doutoramento, e que agora publica no volume "Reescrever o Pós-moderno" (edição Dafne). Ainda associado ao programa da apresentação do livro, decorre ao longo de hoje, em Coimbra, no Colégio das Artes, um colóquio destinado a debater o que ficou do pós-moderno, que Figueira considera ser ainda "um tema tabu e até de má fama entre nós, algo de que se não fala nos salões da nossa sociedade".

Na lista dos convidados para o colóquio estão figuras que marcaram a vida cultural portuguesa na década de 80, como o galerista Luís Serpa, o cineasta João Botelho ou o encenador Ricardo Pais. Estará também André Tavares, o editor da Dafne (chancela portuense que vem fazendo um trabalho de divulgação na arquitectura), e a inglesa Jane Pavitt, professora no Royal College of Art, em Londres, e uma das curadoras da exposição no Victoria & Albert Museum, "Pós-modernismo: estilo e subversão" (até 15 de Janeiro). Figueira viu na associação da saída do seu livro com o correr da exposição em Londres "uma coincidência interessante", que sucede, de resto, a um inesperado movimento editorial com vários livros e artigos versando o tema do pós-modernismo.

O programa de Coimbra inclui ainda a exposição "Somos todos pós-modernos", com que o autor faz "uma cronologia um pouco surrealista daquilo que foram os anos 70/80".

Somos todos pós-modernos

Mas a tese "somos todos pós-modernos", sendo uma afirmação de Álvaro Siza logo na abertura da sua entrevista, é também um programa de análise do que foi a arquitectura (e a cultura) portuguesa daquela época, aos olhos de Figueira, arquitecto formado na Escola do Porto e actualmente professor (e director) na Escola de Coimbra. Será que temos já recuo para fazer uma avaliação histórica do movimento pós-modernista? Responde claramente que sim. "O tempo que passou é mais que suficiente, embora haja aqui um paradoxo, porque não considero que a história do que aconteceu nos anos 70/80 esteja encerrada". Assume a componente historiográfica do seu trabalho, pelo carácter testemunhal e documental das entrevistas. "Mas o livro tem também uma componente teórica, de inquirição da validade destes conceitos no nosso tempo", acrescenta. Acha, de resto, que "o modo como vivemos, a televisão e os filmes que vemos, a literatura que lemos, a arquitectura que visitamos têm inscritos todos os pressupostos da pós-modernidade dos anos 70 e 80". E assinala que, num tempo em que todos bebemos da cultura americana, "uma figura como Barack Obama, por exemplo, não é compreensível sem se pensar em termos de pós-modernidade".

Referindo-se mais especificamente ao campo da arquitectura, critica a forma como, também os arquitectos, se quiseram "desembaraçar, muito rapidamente, dum conceito e dum período que foi muitíssimo importante", e que marcou de forma intensa o dia-a-dia da época, com extensão, inclusivamente, às áreas artísticas e científicas. "De repente, é como se isso não tivesse acontecido. Os arquitectos são muito argutos no sentido de respirar o ar daquilo que está a dar. Quando, de repente, um conceito começa a entrar em decadência, eles estão logo à procura de outra coisa qualquer que lhes permita a sobrevivência". Considera que "os arquitectos são mais parecidos com os políticos do que aquilo que se imagina. São um bocadinho ‘double faced'. Têm um faro especial para irem ao encontro da sociedade, à procura de perceber aquilo que, de alguma forma, lhes permite ter clientes".

Território sombrio

Para a apresentação e actualização das entrevistas feitas aos sete arquitectos citados, Figueira escolheu o subtítulo "Os prazeres de viajar num comboio-fantasma". É a consciência de que estava a entrar num território escuro e difícil de tactear? "A metáfora é essa. Depois dos anos 80 e a partir dos 90 houve, de forma muitas vezes arrogante, uma espécie de tábua rasa sobre aquilo que tinha acontecido. O comboio, que estava apinhado de gente e cheio de energia e de carvão, de repente é abandonado completamente. E transforma-se num comboio fantasma", confirma. E nota que o pós-modernismo transformou-se em algo estrutural na nossa sociedade, promovendo como que "uma troca de lugares": "Até aos anos 70, a modernidade era a estrutura, e o que se desejava era a pós-modernidade; a partir dos anos 80, a pós-modernidade passa a ser a estrutura, e aquilo que se deseja é a modernidade". Dá o exemplo do percurso "brilhante" de Souto de Moura, "que não é outra coisa se não um arquitecto essencialmente pós-moderno, que fez o caminho no sentido desse desejo de modernidade. Ele tem a intuição, nos anos 80, de que o clima e a cultura são pós-modernas, mas que, também por isso, ser moderno vai ser o grande objecto de desejo, como de facto o foi, nos últimos vinte anos". E cita, como exemplo prático, a utilização que o Prémio Pritzker 2011 faz do vidro espelhado, do granito como uma placagem...

Álvaro Siza também recorre a estes expedientes tecnológicos, mas o próprio explica na entrevista que eles são a resposta inevitável a necessidades materiais e a adequação às exigências da época. Isso faz do arquitecto da reconstrução do Chiado um pós-moderno?

"Álvaro Siza tem a percepção de que as necessidades e as exigências nos anos 70 e 80 alteram-se profundamente. Ele é um arquitecto que, um pouco ao contrário do Souto de Moura, é moderno estruturalmente, no seu ADN - fala-nos essencialmente do Alvar Aalto, do Corbusier, do Picasso -, e tem que ser pós-moderno para ser acutilante em relação ao que está a acontecer nessa época". Refere o exemplo da casa Avelino Duarte, em Ovar [1980-84], "que é uma citação histórica do famoso arquitecto austríaco Adolph Loos [1870-1933]. Ele utiliza a referência, a citação e até a colagem, a ironia, o maneirismo". E continua: "Siza, para ter relevância e acutilância nos anos 70, 80 e 90, teve que apreender, com agudíssima intuição, o que significava o Robert Venturi, o Aldo Rossi e, mais tarde, o Frank Gehry. Foi-se adaptando".

O pós-moderno oficial

Diferente, e mais fácil de associar ao movimento pós-moderno, de quem foi um "representante oficial" entre nós, é o caso de Tomás Taveira, que - e isso é claro lendo o livro - "é o único destes sete entrevistados que assume a pertença a essa genealogia". Jorge Figueira, no entanto, teve a preocupação de ir recuperar junto do autor das Amoreiras a sua experiência nos anos 60, quando ele "estabelece uma relação forte com a cultura pop da ‘swinging London'".

Enquanto expoente mais mediático do pós-modernismo em Portugal, « Taveira "corresponde a esse enunciado estilístico que é ditado essencialmente no mundo anglo-saxónico, nomeadamente na América".

Já sobre Manuel Graça Dias, que foi aluno de Manuel Vicente e emergiu na cena arquitectónica lisboeta nesses tempos festivos dos anos 80 - e esteve envolvido na organização da histórica exposição "Depois do Modernismo", realizada na Sociedade Nacional das Belas Artes, em Lisboa, em 1983 (e de que fala abundantemente na sua entrevista) -, Jorge Figueira diz que "ele faz uma pesquisa muitíssimo interessante, que é uma espécie de pós-moderno não oficial, de pós-moderno autêntico no sentido da relação com aquilo que estava a acontecer na cultura portuguesa da altura: o Bairro Alto, o António Variações, as casas dos emigrantes..."

Manuel Vicente e Pancho Guedes são dois casos especiais. Sobre o segundo, Figueira nota que ele foi um arquitecto "muito maltratado pela historiografia portuguesa", mas que tem vindo a ser recuperado. "Pancho Guedes tem, nos anos 50, uma intuição que é pós-moderna ‘avant-la-lettre', que é uma erupção de africanismos na arquitectura moderna que ele produz", diz o autor. E lembra, sobre este arquitecto com carreira marcante em Moçambique, a "reintrodução que faz do surrealismo - ele que foi apresentado pelo dadaísta Tristan Tzara, em 1961 -, e com que começa a fustigar o lado tradicionalista da arquitectura moderna".

Já Manuel Vicente, com obra em Macau, mas também com passagem pela América e colaboração com Louis Kahn [1901-1974], "é de facto um arquitecto pós-moderno, até nesse sentido de ter trazido a América para a Ásia e para Portugal".

Paulo Varela Gomes é o autor que encerra esta série de entrevistas, ouvido mais na qualidade de historiador e crítico. Figura marcante pelos artigos que escreveu, ou co-assinou com João Vieira Caldas, no "Expresso", ajudou a ler "um momento em que a arquitectura está implicada na filosofia, exactamente através do pós-modernismo", mesmo que o tenha feito numa "relação tensa com a arquitectura-tal-como-é-vista-pelos-arquitectos", escreve o autor, na introdução à entrevista.

Ao escrever e actualizar o seu livro, Jorge Figueira acredita que há "um pós-modernismo que ainda não chegou", que é de natureza bem diferente do arcaísmo dos anos 80 e da (nossa) era da net, hoje omnipresente e subreptício, mas ambos igualmente "insatisfatórios" e ainda longe "da inteligência elegante", que acha indispensável para o futuro. E que ultrapasse a situação da arquitectura portuguesa actual, que caracteriza como sendo de "um escapismo neo-modernista" e estando "totalmente alheada daquilo que são agora as grandes discussões" do nosso tempo.

Ainda que a sua actividade seja centrada na docência, Jorge Figueira trabalha também como arquitecto. Tem vindo a projectar o campus universitário de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, Açores. "Já estão construídos quatro ou cinco edifícios, e acredito que aí está escrito aquilo que é o meu entendimento de uma espécie de pós-modernismo contemporâneo", diz.