"O problema não é Portugal ou a Grécia, é o dumping salarial da Alemanha"

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Klaus Ernst

A chanceler alemã, Angela Merkel, tem-se focado, nesta crise do euro, no incumprimento dos países e como o evitar. Mas há um político alemão que prefere apontar o dedo ao que diz ser a quota-parte de responsabilidade alemã na crise. Klaus Ernst, um dos líderes do Die Linke (A Esquerda, 76 deputados entre os 260 do Bundestag), que esteve em Lisboa a convite do Bloco de Esquerda, explica.

O seu partido fez um folheto para desmascarar mitos sobre a Grécia - horas de trabalho, dias de férias, idade de reforma... Os alemães têm estes clichés?

Sim, mas isso tem também a ver com a política do Governo, que está a ter problemas para convencer os alemães a gastar os seus impostos no resgate, mas sabemos que esta verba não é para salvar a Grécia, é para salvar a banca.

Mas esse é outro mito: nem sequer é o dinheiro dos contribuintes alemães, é um empréstimo garantido pela Alemanha.

É verdade, mas isto significa que a Alemanha está responsável por um montante que corresponde várias vezes ao seu orçamento. E o problema é que as medidas que a Europa impõe não estão a funcionar, e que as dívidas dos países dependem de instituições financeiras privadas. Sem resolver este problema, os povos da Europa estão reféns da banca.

O que propõe Die Linke? Mais investimento público e maior controlo dos mercados?

Há dois aspectos na origem da crise. O primeiro é de economia real. Na Alemanha os salários desceram em comparação com outros Estados europeus. A economia tem assim uma vantagem competitiva. Como resultado, nos últimos dez anos, a Alemanha acumulou um superavit no comércio com Portugal de 210 mil milhões de euros. O problema não é Portugal ou a Grécia. É que a maior economia da Europa conquistou uma vantagem para as suas empresas à custa da sua própria população.

Uma espécie de dumping salarial?

Sim. O segundo aspecto é um problema da banca. De onde tem a banca o dinheiro? Do Banco Central Europeu. O BCE empresta o dinheiro a 1,5 ou 2%. E Portugal paga 6 ou 7 % de juros. A nossa reivindicação é a criação de um banco para empréstimos públicos com dinheiro do BCE.

Fala-se da saída da Grécia do euro. O que pensa desta solução?

Acho um erro político e económico. Vai destruir a ideia de uma Europa comum e pacífica. Seria um problema não só para os que saíssem mas também para os outros, que perderiam a vantagem de competitividade, reduzindo as possibilidades de exportação.

Die Linke foi, no entanto, o único partido alemão a votar no Parlamento contra o fundo de resgate. Porquê?

Este fundo de resgate tem condições: cortar saúde, cortar educação, privatizações... Para nós, não é aceitável, vai agudizar os problemas e não resolvê-los. Porquê a oposição do Governo alemão às obrigações europeias?

Nós fomos a favor dos eurobonds, mas agora é demasiado tarde. Alguns países já estão em perigo de não conseguir pagar a sua dívida e a taxa de juro dos eurobonds seria muito mais alta do que antes. Por isso agora dizemos que é preciso um banco para empréstimos públicos que empreste dinheiro directamente do BCE.

E por que é que o Governo alemão se opõe a que o BCE emita moeda como faz a Reserva Federal americana?

Estou convencido de que isto vai ter de acontecer. Senão o euro vai fracassar. O Governo argumenta que assim a Alemanha seria também responsável pelos gastos dos outros países, e que assim não se obriga estes países a levar a cabo uma política de austeridade. O que se passa neste momento na Europa é a liquidação do Estado social a nível europeu a favor dos grandes proprietários nos mercados financeiros.