Clubes dizem-se preparados para fair play financeiro

Foto
As regras de acesso às competições europeias vão ser mais apertadas Reuters

As sanções para os prevaricadores ainda não estão definidas, mas "cada vez mais se aponta para a retirada de pontos e proibição de inscrição de jogadores", revelou ao PÚBLICO Luís Paulo Relógio, presidente do Órgão de Gestão de Licenciamento da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que faz parte do grupo que está a estudar as regras do fair play financeiro. "A ideia é evitar punições como a exclusão da competição, para não matar o doente com a cura."

Se os critérios do fair play financeiro já estivessem em vigor, o FC Porto (que teve lucros nos últimos cinco anos) era o único dos três "grandes" livre de preocupações. O Sporting, que acumulou prejuízos de 72 milhões nas duas temporadas passadas, estaria à mercê de punições da UEFA e o Benfica (prejuízos superiores a 28ME) estaria sob vigilância.

A estes prejuízos, no entanto, há que retirar todos os custos relacionados com a construção de estádios e centros de treinos, bem como com a formação, que não serão tidos em conta no âmbito do fair play. E esta nuance permite aliviar o peso que cai em cima dos clubes portugueses.

"Se considerarmos a infra-estrutura do Seixal e os custos da formação, o valor aproxima-se dos 5 milhões de euros anuais. E as amortizações do estádio totalizam 5 a 7 milhões por ano", explicou ao PÚBLICO Domingos Soares Oliveira, administrador da SAD do Benfica, acrescentando que, para efeitos de fair play financeiro, ao resultado líquido do Benfica teriam de ser abatidos pelo menos "10 milhões por ano."

O Benfica considera-se assim preparado para as novas regras da UEFA, embora admita que a "conjuntura económica" e o fair play financeiro "obrigam os clubes a terem de repensar o seu modelo ou a sua operação". "Em situações como estas, as SAD devem tentar potenciar receitas e reduzir custos. No nosso caso, temos uma situação em cima da mesa, os direitos televisivos, e acreditamos que esse incremento de receitas vai ser superior a qualquer redução de custos", aponta Domingos Soares Oliveira.

José Filipe Nobre Guedes, administrador da SAD do Sporting, também se mostra confiante que "o Sporting não vai ter problema nenhum": "Estamos a recapitalizar a SAD, mas por enquanto não posso dar pormenores", disse ao PÚBLICO, acrescentando até que o clube de Alvalade não terá de "baixar salários" se conseguir captar a receita esperada. Angelino Ferreira, administrador da SAD do FC Porto, não se mostrou disponível para falar ao PÚBLICO, mas em Janeiro tinha dito que o clube estava preparado.

Além das regras do fair play, que serão tidas em conta pela UEFA na hora de admitir os clubes nas competições europeias, há ainda outro problema em cima da mesa dos emblemas nacionais. É o facto de todos terem capitais próprios (diferença entre activo e passivo) inferiores a metade do capital social, o que os obrigará a tomar medidas, como o reforço do capital das SAD. O Sporting tem mesmo capitais próprios negativos, o que habitualmente se designa como falência técnica, e o Benfica está lá perto (apenas 136 mil euros nas contas individuais e 2,5 milhões no consolidado).

A par da questão do endividamento (ver texto sobre dívidas à banca) e das novas regras, os clubes terão ainda de enfrentar os efeitos da crise nos seus proveitos operacionais. "Haverá quebras nas assistências, na publicidade e nas quotizações", salienta Paulo Reis Mourão, professor de Economia na Universidade do Minho, para quem é "inevitável" que os clubes ajustem os seus custos, especialmente com salários, que consomem uma boa parte das receitas.