Constâncio Pinto, embaixador de Timor-Leste em Washington

“Às vezes sinto-me culpado por ter dado orientações para a manifestação”

Constâncio Pinto
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Constâncio Pinto

Vinte anos após o massacre de Santa Cruz, Constâncio Pinto não esquece os tiros, os pais à procura dos filhos. O actual embaixador de Timor-Leste em Washington foi um dos organizadores da manifestação que acabou por resultar na morte de mais de 200 timorenses. Sempre acreditou que, “cedo ou tarde, Timor teria que ser um país”.

Já era uma das pessoas mais procuradas na Indonésia devido à sua ligação à resistência timorense, por isso não participou na manifestação rumo ao cemitério de Santa Cruz. Mas foi Constâncio Pinto um dos impulsionadores do protesto. Estava em Díli, viu militares transportar os corpos, contou ao PÚBLICO, por email. No ano seguinte viria para Portugal e em 1994 tornou-se representante da resistência timorense para a América do Norte. Estudou Desenvolvimento Económico na Brown University, em Rhode Island, e Relações Internacionais na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. É desde 2009 embaixador de Timor-Leste em Washington.

Vinte anos após o massacre de Santa Cruz, como recorda esse dia?

Lembro-me perfeitamente desse dia. Às vezes sinto-me culpado por ter dado orientações para organizar a manifestação. E outras vezes sinto que foi uma decisão certa, condicionada pela luta. Lembro-me do som dos tiros de M16 e lembro-me de ter observado os militares indonésios a transportar jovens mortos e feridos para o hospital militar. Lembro-me dos pais que ficaram aflitos com seus filhos que saíram da casa sem dizer uma palavra.

Como foi a preparação da manifestação?

A manifestação de 12 de Novembro nunca constou na agenda da frente clandestina. Foi uma decisão tomada na última hora em resposta às frustrações dos jovens e da frente clandestina em geral pelo cancelamento da visita da delegação parlamentar portuguesa que estava planeada para o mês de Outubro. Dei orientações aos responsáveis principais do Comité Executivo da Frente Clandestina, neste caso ao Gregório Saldanha [o actual dirigente do Comité 12 de Novembro] através de Egas Alves, pedindo-lhes para organizar a manifestação aproveitando a presença dos jornalistas internacionais e do relator especial para os direitos humanos [da ONU], Pieter Koojimans. A missa para assinalar a morte do Sebastião Gomes [que tinha sido morto em Outubro por militares indonésios] foi apenas um pretexto. Embora num espaço de tempo muito curto, o Comité Executivo da Frente Clandestina, através do Gregório Saldanha e outros, mobilizou mais de 3000 jovens em menos de um dia.

A visita dos parlamentares portugueses tinha sido adiada, mas o protesto avançou.

Organizámos a manifestação de 12 de Novembro precisamente por causa do cancelamento da delegação parlamentar. Se a delegação parlamentar tivesse ido a Timor-Leste, a manifestação teria sido outra.

Como foi a caminhada para o cemitério?

Na altura estive escondido em Díli, eu era a segunda pessoa mais procurada pelos agentes secretos da Indonésia. Por esta razão não acompanhei a manifestação desde [a igreja de] Motael. O plano era levar as flores até ao cemitério de Santa Cruz e colocar na campa de Sebastião Gomes. Do cemitério continuariam para Licedere e juntar-se-iam em frente ao Hotel Turismo, onde estava Pieter Koojimans.

As imagens do massacre foram uma janela para o que se passava em Timor?

As imagens do massacre foram decisivas para a resistência timorense. Foram essas imagens que colocaram Timor-Leste no mapa político do mundo e desmascararam toda a diplomacia Indonésia em relação a Timor-Leste.

Como é hoje recordado em Timor o massacre de Santa Cruz?

Normalmente celebra-se uma missa na Igreja de Motel e levam-se flores para o cemitério de Santa Cruz e acendem-se velas à volta e por dentro do cemitério.

Esperava, nessa altura, que Timor seria independente daí a dez anos?

Sim, tive sempre a esperança de que Timor-Leste, cedo ou tarde, teria que ser um país independente.

Hoje é embaixador de Timor em Washington. Quais são os principais problemas do país e como olha para o futuro de Timor?

Há muitos problemas e desafios após a independência. Problemas políticos, sociais, económicos e de segurança. A crise de 2006 foi o culminar destes problemas. [Um conflito entre elementos do Exército de Timor-Leste contra discriminações no seio militar gerou confrontos entre timorenses e levou o primeiro-ministro Mari Alkatiri a abandonar o cargo e a uma intervenção internacional]. Estamos a ultrapassá-los gradualmente. No entanto, há problemas fundamentais, como por exemplo a falta de recursos humanos, a criação de empregos, a falta de confiança e respeito nas instituições públicas. Mas tenho confiança no futuro de Timor-Leste. Um Timor-Leste democrático, onde o respeito pela dignidade humana prevaleça na sociedade.