Crítica

Lugares sagrados para a memória

Trata-se de impedir o esquecimento e reconhecer que existe o que não pode senão ser lembrado: é o inesquecível

Pode dizer-se muito sobre a política do trabalho de Doris Salcedo, sobre o modo como a cada obra constrói um discurso sobre a pobreza, a morte, a economia, a emigração. A premissa é que não se trata de política no sentido partidário, ideológico ou panfletário.

Também se pode dizer muito sobre as qualidades formais das obras que constrói, sobre o modo inteligente, sensível e forte com que ocupa os espaços e cria lugares. Mas há uma coisa no trabalho desta artista que escapa a qualquer palavra: a sua intensidade.

Dizer isto não é criar uma categoria sentimental vazia para descrever um trabalho artístico que nos escapa, mas é dar conta da insuficiência da palavra para fazer face à experiência das obras de Salcedo. O mais admirável no seu trabalho é como consegue fazer uma política poética e como mantém viva a crença no objecto escultórico e no gesto artístico. A mudez referida no título da obra que traz a Lisboa, “Plegaria Muda”, não é a mudez da arte, nem a da artista, mas a da violência a que alude, a mudez daqueles a quem tiraram a voz, o rosto e a humanidade.

Salcedo sabe da impotência da arte em fazer revoluções, em repor a justiça e restaurar a ordem natural que a violência derruba. A promessa de restaurar a voz emudecida pela violência não significa erguer o punho e fazer uma revolução, mas enfrentar o terror sabendo que é possível restaurar a humanidade presente em cada um dos seres humanos. Esta é a expectativa da artista e a inquietação que percorre o que faz. Independentemente de serem instalações como as que fez na Bienal de Istambul (2003), ou “Shibboleth” (Tate, 2007) ou “Plegaria Muda” (CAM, 2011), ou opte por objectos de menor escala dispostos no espaço expositivo, trata-se sempre de materializar e de condensar experiências humanas. As quais não são as da artista, mas a do mundo onde vive e que a rodeiam no dia a dia. “Eu sou uma artista do terceiro mundo”, diz sem hesitar e esta é a base da construção de tudo o que faz, diz e deseja.

Deve ter-se presente que para Salcedo a arte não se faz a si própria, não há arte pela arte ou auto-referencialidade. Interessa-lhe a arte como processo de pesquisa, procura e, sobretudo, como processo de conhecimento da realidade: a arte serve-a na medida em que permite a aproximação ao que acontece, ao que se dá, ao que é o caso. As suas obras nascem de longos e intensos períodos de pesquisa e reflexão e servem como formas de intensificar a ligação da arte à vida. Podemos dizer que é uma tragediógrafa contemporânea: sem dúvida que faz parte de uma linhagem de artistas como Beuys, Hesse, Hatoum, mas a sua tradição é a tragédia grega, porque para esta artista o trágico é não só uma categoria estética, mas significa o momento da descoberta do humano. É no confronto com o limite, no qual a tragédia nos coloca, que se descobre a total amplitude das matéria humana. O dramatismo das peças de Salcedo é diferente do das tragédias gregas ou das do drama lutuoso alemão e o seu herói é uma imensa multidão anónima. Um anonimato que não significa invisibilidade, mas a glorificação do corpo sofrido, marcado, violentado.

Independentemente da resolução formal das obras, dos materiais utilizados e até das estratégias retóricas invocadas, o trabalho de Doris Salcedo tem a capacidade de criar lugares a que chama lugares de memória para não serem confundidos com os monumentos. Se por um lado a história contemporânea do terceiro mundo é o seu ponto de partida e a sua urgência, por outro o seu trabalho rege-se por uma absoluta precisão espacial: gosta de escutar o espaço e seguir as indicações que lhe dá, sabendo que há relações de ajustamento entre os objectos e a arquitectura.

A exposição é ajustada, rigorosa e dialoga de modo brilhante com o espaço que ocupa. Entrar nesta “oração” é entrar num labirinto e iniciar-se numa experiência de oscilação entre o aberto e o fechado, a terra e o céu, a madeira e a relva, o ar e a claustrofobia, a vida e a morte. É sobre este fio que caminha quem quer que se entrega a “Plegaria Muda”. 161 mesas estão dispostas ao longo da nave central do museu entre as quais não há percursos definidos, mas cada um escolhe o seu caminho por entre estes objectos/lugares funerários. Na entrada da exposição a artista é clara e escreve: “cada elemento é um túmulo individual de um ritual funerário que aconteceu.” Em suma, trata-se de impedir o esquecimento e reconhecer que existe o que não pode senão ser lembrado: é o inesquecível.