A culpa de Erling Jepsen

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“A Arte de Chorar em Coro” é uma história terna e cruel, em que o amor de uma criança pelo pai pretende encobrir a dureza de uma realidade que já toda a aldeia conhece. O autor do romance, o dinamarquês Erling Jepsen, confessa o alívio que foi escrevê-lo

Em 2008, graças ao sucesso comercial do filme "A Arte de Chorar em Coro", do realizador Peter S. Fogs, e também à sua nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro, o nome do dramaturgo e escritor dinamarquês Erling Jepsen (n. 1956), autor do romance homónimo, começou a ser conhecido por toda a Europa e o seu livro a ser traduzido em diversas línguas. Faltava ainda o português, falha que a editora Eucleia acabou de "reparar".

Em "A Arte de Chorar em Coro" (originalmente publicado em 2002), um rapaz de 11 anos que vive numa zona rural da Dinamarca em finais da década de 60 narra com ingenuidade (e alguma perturbação para o leitor) uma história de amor filial, a admiração que tem pelo pai, pelo seu poder de emocionar os outros com as palavras, sobretudo em ocasiões como funerais, casamentos e aniversários. Mas por detrás desse "poder encantatório" da palavra, existe uma realidade dura e cruel que o pequeno narrador não entende, mas descreve: incesto, maus-tratos, doença mental. Na primeira página do livro, o autor, Erling Jepsen, informa que "todas as personagens, lugares e acontecimentos são fictícios". Mas a realidade ultrapassou a sua vontade, e ele acabou por confessar o lado biográfico da história contada. Na sua casa no centro de Copenhaga, onde amavelmente recebeu o Ípsilon, confirmou que a escrita do romance "foi o fim de um longo processo de exorcizar memórias, medos e culpas". E contou-nos mais algumas histórias.

Depois de mais de 20 anos a escrever apenas peças de teatro, como é que passou para o romance?

Eu não tinha quaisquer planos para escrever romances. Mas depois de ter escrito cerca de 40 peças de teatro, fiquei, de repente, desempregado. E então precisei de encontrar outras coisas. Alguns amigos aconselharam-me a viajar durante um ano, outros a desaparecer até que a gente do teatro começasse a ter saudades minhas [risos]. Mas eu queria continuar a trabalhar. Perguntei a mim próprio o que é que se assemelharia mais à escrita teatral. E pensei num romance, apesar de achar que a sua escrita não seria tão interessante como a teatral. Comecei a escrever e descobri que o romance poderia ser interessante de uma outra maneira, que havia naquele tipo de escrita um tom de voz a encontrar, que é uma coisa que não existe na escrita para teatro. E quando encontrei essa "voz de escritor", ela tinha a ver com a região onde nasci, no sul da Jutlândia, não apenas com a maneira de falar, com o dialecto, mas também com as muitas histórias que começaram a aparecer, como que a vir à tona, coisas que eu já tinha esquecido. Aconteceu tudo rapidamente. Como se a maneira como eu agora passara a escrever estivesse relacionada com a minha identidade e com o meu passado.

E a primeira história que lhe apareceu foi a que conta em "A Arte de Chorar em Coro"?

Esta história tinha de ser escrita, já estava à espera há demasiado tempo, mas eu não sabia. Surgiu quase naturalmente. E pensei que deveria ser contada por um adulto, talvez com a idade de 40 e poucos anos. Tentei, mas era uma história muito escura, ácida e pesada. Não gostei. Então escrevi-a de outra maneira, contada por um rapaz de 11 anos que admira o pai. Desta forma, eu conseguia, ao mesmo tempo, no meio da crueldade, ter também um pouco de uma história de amor...

Em vez de uma tragédia, uma comédia trágica... se é que nos podemos referir assim ao romance...

Sim. Eu tinha também já a experiência de escrever comédias.

Com muito humor negro...

[risos] Sim, é o meu tipo de humor. E usei também um truque que uso no palco para que o espectador saiba mais do que o actor que conta a história. Por exemplo, nas peças de Natal para as crianças, o narrador pode dizer no palco "eu não acredito no Pai Natal", mas por trás das costas dele aparece o Pai Natal, e o espectador pode vê-lo. Neste romance a técnica é a mesma, o leitor sabe mais do que o rapaz que narra os acontecimentos, porque o leitor já é um adulto e consegue pensar de maneira diferente.

É muito singular esse aspecto do romance. E dessa maneira também o autor faz passar para o leitor o sentimento de culpa que deveria pertencer ao rapaz-narrador...

Sim, sim. Foi a minha intenção, porque aquele rapaz não percebia nada do que acontecia entre a irmã e o pai, ele não poderia sentir-se culpado.

"A Arte de Chorar em Coro" toca muitas vezes aspectos religiosos: rituais funerários, sermões... Qual foi a importância da religião em toda esta história?

Nesse tempo, e naquela região, havia duas crenças religiosas em luta. Hoje ainda continuam, mas de uma maneira mais suave. Eu cresci e fui educado numa delas. Eram duas versões dos preceitos luteranos... ou calvinistas... ou baptistas... já não sei. Mas o que interessa é que uma delas era de um enorme conservadorismo, parecia vinda dos tempos medievais... eles não podiam dançar, nem jogar às cartas, qualquer divertimento estava proibido. A vida era um contínuo exame, em que se era aprovado ou não. A outra crença, em que eu cresci, tinha preceitos menos severos, aceitava que a vida era uma dádiva do céu, era-nos permitido desfrutar a vida, gostar dela. Havia na vila dois padres, um de cada crença. E quando alguém da crença que não era a nossa morria, chamavam o meu pai para fazer um discurso fúnebre porque não gostavam da maneira como o padre deles falava, não o percebiam bem.

Porque o padre não falava no dialecto da Jutlândia?

Sim, usava palavras que eles não conheciam. E o meu pai tinha um discurso simples e bastante emotivo. Mas só podia falar fora da igreja. Com isto, o meu pai tinha um importante papel na vida da comunidade, e eu gostava de ver isso, porque no resto das coisas que fazia ele não era bem sucedido.

Os discursos eram a coisa mais importante da vida dele...

Sim, sim... Por isso o número de pessoas que morria nunca era suficiente. Procurávamos muitas vezes no jornal, na necrologia, se alguém dessa crença tinha morrido, para que ele pudesse fazer o seu discurso. Um dia, ouvi uma mulher dessa igreja a tossir de uma forma muito estranha, e as pessoas disseram-me que ela estava muito doente e que poderia morrer se apanhasse uma pneumonia. E eu logo perguntei como é que alguém apanha uma pneumonia. Disseram-me que com uma corrente de ar. Então, um dia, quando ela estava a ler os salmos, eu fui abrir as janelas de ambos os lados para provocar uma corrente de ar. Se ela morresse, o meu pai poderia falar e então, durante uns tempos, esses crentes viriam comprar coisas à nossa pequena loja, dar-nos algum dinheiro.

Foi difícil para si escrever "A Arte de Chorar em Coro", que usa uma grande parte da sua biografia?

Foi fácil escrevê-lo, mas foi muito difícil saber como lidar com ele depois de ser publicado. O que é que a minha família iria dizer, os problemas que me traria, e também o que iriam dizer as pessoas dessa vila. Mas tinha prometido a mim próprio mentir. E a princípio fi-lo, pois quando me perguntavam se tinha alguma coisa a ver com a minha vida pessoal eu dizia que não, que era apenas um romance. Mas isso foi muito no começo, e as pessoas não acreditavam. E devagar fui aceitando em público que o que escrevera tinha sido uma parte da minha vida, com as devidas adaptações que um romance exige. O meu pai morreu poucos meses antes da publicação do livro, mas ele sabia sobre o que é que eu tinha escrito. A minha mãe ainda viveu durante mais sete anos, e claro que o livro lhe trouxe alguns problemas. Mas ela sempre o defendeu, e nós pudemos finalmente falar sobre coisas de que nunca tínhamos falado. Tenho também uma irmã, cuja vida foi quase como a da rapariga do romance. Ela sabia de todo este meu projecto antes de ser publicado, e foi a única a quem eu perguntei se tinha alguma coisa contra. O meu sentimento é de que o livro a ajudou realmente [longo silêncio].

A escrita de "A Arte de Chorar em Coro" foi para si uma catarse?

Não. Foi o fim de um longo processo de exorcizar memórias, medos e culpas.

As personagens fazem um esforço para serem aceites pela comunidade, e conseguem-no. Como se com isso dividissem as culpas com o resto da vila, que sabia o que se estava a passar e nada fez...

Exactamente. Era uma espécie de estado de "negação colectiva": "eu sei, tu sabes, ele sabe, mas todos nós concordamos que não sabemos" - mesmo sem nunca termos falado sobre o assunto. É, para mim, um fenómeno muito estranho. Talvez as pessoas pensem "eu não sou a pessoa certa para contar isto à polícia", ou "se ele não conta porque é que tenho de ser eu?". O tempo passa, o que torna as coisas mais e mais difíceis, porque se um dia alguém fala no assunto em público, perguntar-lhe-ão logo: "Mas há quantos anos sabias disso". E depois vem a acusação: "E nada fizeste". Quem o fizesse transforma-se-ia numa espécie de traidor da confiança dos outros membros da comunidade [silêncio]. Muita gente me perguntou porque é que eu escrevi o livro, se era necessário. Que aquilo era verdade, sim, mas para quê contá-lo?

E era necessário?

Sim. Para mim era [risos]. Algumas vezes ainda penso que não o deveria ter feito... tive muitas vezes um forte sentimento de vergonha, e a minha mãe teve problemas quando o livro foi publicado... Mas depois percebi que a vida continuava. Escrevê-lo foi um grande alívio. Nós conseguimos suportar muito mais do que aquilo que pensamos que somos capazes.

Quando viu o filme [baseado no romance] pela primeira vez, o que é que sentiu?

Fiquei quase em estado de choque. E não pude vê-lo todo durante muito algum tempo... era como um eco que me chegava, de tão real, ainda mais real do que o romance.

O Ípsilon viajou com o apoio da Embaixada da Dinamarca