Agência Internacional da Energia

O mundo tem cinco anos para evitar alterações climáticas irreversíveis

A central a carvão de Jaenschwalde está reflectida nas águas do lago perto de Cottbus, na Alemanha
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A central a carvão de Jaenschwalde está reflectida nas águas do lago perto de Cottbus, na Alemanha Pawel Kopczynski/Reuters

Restam apenas cinco anos para o mundo evitar alterações climáticas perigosas e irreversíveis, diz a Agência Internacional de Energia (AIE), que pede mudanças urgentes na forma como se usa a energia.

“Estou muito preocupado”, disse o principal economista da AIE, o turco Fatih Birol, ao jornal “The Guardian”. Hoje, a agência divulgou em Londres o seu “World Energy Outlook 2011” com a evolução do sistema energético para os próximos 25 anos. “Se não alterarmos agora a forma como usamos a energia, acabaremos para lá daquilo que os cientistas dizem ser o mínimo [de segurança]. A porta fechar-se-á para sempre”, acrescentou.

O limiar que a comunidade internacional não quer passar é um aumento de 2ºC nas temperaturas médias do planeta; para lá disso, os serviços dos ecossistemas – por exemplo, água e ar limpos, defesa contra inundações e solos de qualidade - não estão garantidos.

O cenário actual não é favorável. A população mundial está a aumentar e este ano atingiu os sete mil milhões de habitantes. A agência estima que o aumento do consumo energético aumentará um terço entre 2010 e 2035, com a China a consolidar a sua posição enquanto país que mais consome energia: em 2035 deverá consumir 70% mais do que os Estados Unidos. Além disso, a frota de veículos de passageiros deverá duplicar e chegar aos 1,7 mil milhões em 2035.

Economia continuará dependente dos combustíveis fósseis

A AIE prevê também que se continuem a construir edifícios ineficientes e mais centrais de produção de electricidade a carvão e gás natural – depois do abandono da energia nuclear em vários países, especialmente por causa da crise na central nuclear japonesa de Fukushima, em Março. Birol disse ao “The Guardian” que “se os países se afastarem da energia nuclear, o resultado poderá ser um aumento nas emissões equivalente ao que é emitido actualmente pela Alemanha e pela França em conjunto”.

O relatório da agência prevê que a procura de petróleo suba dos 87 milhões de barris por dia em 2010 para os 99 milhões de barris por dia em 2035. O aumento deve ser causado em especial pelo sector dos transportes nas economias emergentes.

Ainda em 2035, os combustíveis fósseis representarão 75% dos consumos mundiais (hoje a percentagem é de 81%) e as renováveis 18% (hoje em 13%), suportadas por subsídios que podem não se manter por causa da crise económica mundial. Em 2010 os subsídios para os combustíveis fósseis fixavam-se em 409 mil milhões de dólares (296 mil milhões de euros) e para as renováveis em 64 mil milhões (46 mil milhões de euros).

Num dos cenários previstos pela AIE, que inclui a aplicação de novas políticas, a concentração de emissões de dióxido de carbono (CO2) nos próximos 25 anos vai levar a um aumento das temperaturas médias de 3,5ºC. No cenário que não prevê novas medidas, o aumento da temperatura pode chegar aos 6ºC.

À espera da conferência da ONU em Durban

Este quadro “demonstra a urgência e a escala do problema”, disse a directora-executiva da AIE, Maria van der Hoeven.

“Os Governos precisam introduzir medidas mais fortes para orientar os investimentos para tecnologias de baixo carbono”, disse. “Não podemos continuar a depender de usos de energia inseguros e ambientalmente insustentáveis.”

“Sem uma alteração arrojada de políticas, o mundo vai ficar preso num sistema energético inseguro, ineficiente e altamente dependente dos combustíveis fósseis”, pode ler-se no relatório da AIE, considerada uma organização que costuma avançar as estimativas mais conservadoras.

Este relatório surge a semanas da conferência da ONU sobre alterações climáticas, a realizar em Durban, na África do Sul, no final de Novembro. “Se não tivermos um acordo internacional, que entre em vigor até 2017, a porta vai fechar-se para sempre”, disse Birol ao “The Guardian”.

Ainda assim, os Governos preparam-se para adiar a conclusão das negociações. O objectivo inicial seria encontrar um sucessor do Protocolo de Quioto, que expira em 2012. Mas depois de anos de impasse negocial, vários países – incluindo o Reino Unido, Japão e Rússia – propõem a chegada a acordo em 2018 ou 2020.

Birol acha que será tarde demais. “Penso que é muito importante ter um sentido de urgência. A nossa análise mostra [o que acontece] se não mudarmos os nossos padrões de investimento, algo que só pode acontecer com um acordo internacional”, acrescentou ao jornal.