Literatura de polpa

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Que tenha havido uma corrente de “pulp fiction” portuguesa com vitalidade suficiente para se poder falar em “anos de ouro” é um facto passível de surpreender pessoas nascidas depois de 1950. E, no entanto, ela moveu-se

Que viessem mil soldados, com lanças e cavalos. Que viessem tribos de canibais e orcs sodomitas montados em javalis de guerra. Mas que o inimigo fosse visível, de carne e osso, para que o aço os pudesse matar!" (Ludovico Bombarda)

Qualquer leitor com um interesse negligente nos géneros populares (fantasia, terror, western) estará pelo menos vagamente familiarizado com as propriedades básicas da "pulp fiction" clássica: a torrente de arte popular histérica saída das páginas de revistas americanas como a "Weird Tales", a "Amazing Stories" e a "Black Mask", que floresceram nas décadas de 20 e 30, e revelaram nomes como Edgar Rice Burroughs, Robert E. Howard, Ray Bradbury e Fritz Leiber.

O princípio operativo era o do exotismo: exotismo temático, estilístico e frequentemente geográfico. Tudo na "pulp" era um delírio, uma aberração ou um fenómeno - e a linguagem automutilava-se em conformidade. Havia heróis e vilões, inocentes e culpados, mas nenhuma categoria pretendia conquistar a identificação do leitor. O propósito era levar personagens invulgares a lugares insólitos para presenciarem eventos extraordinários, e criar as condições para o leitor despachar tudo em cinco minutos: mitos mais drásticos para uma cultura mais rápida.

A cronologia específica da "era de ouro" (entre as duas guerras mundiais) também não é acidental. Em períodos de repressão, aquilo que é reprimido - psíquica ou politicamente - tende a regressar à superfície sob formas distorcidas. Os excessos da "pulp fiction" tentavam inocular os leitores contra o caos segundo um princípio homeopata: servindo-lhes doses reduzidas de horror, violência e insanidade como entretenimento dramático. Ao mesmo tempo, permitiam-lhes o vislumbre de um mundo regido pelas convenções de uma justiça simples e apelativamente eficaz. As revistas baratas e os seus cromos de consumo rápido representavam uma saturnália barata: uma rebelião inofensiva e controlada contra a norma.

A qualidade geral da prosa era má - mas não tão má quanto se possa pensar. Sobre o "bom livro mau" e o gosto incurável pelo mesmo, é provável que George Orwell tenha dito tudo aquilo que precisa de ser dito: qualquer leitor competente e razoável deve manter a faculdade de se empolgar, divertir ou comover com uma história, mesmo que o seu intelecto se recuse a levá-la a sério. É uma consequência previsível da aquisição precoce de apetites literários que o lixo que consumimos na pré-adolescência nos assombre para sempre; é também uma consequência feliz. Parte do processo é explicada pela sede de autenticidade que ergue altares automáticos a tudo o que nos maravilhou numa idade em que os centros de prazer ainda não tinham sido contaminados pelo discernimento - um sentimento que pode facilmente degenerar num ridículo fetichismo nostálgico, que glorifica tudo aquilo que se leu quando ainda não se sabia ler. O medo do ridículo, no entanto, não deve induzir a fuga para a posição oposta. Renegar os cowboys, corsários, detectives e extraterrestres só porque descobrimos os Modernistas é o equivalente moral a renegar amigos de infância só porque ganhámos o totoloto. Consolidar uma hierarquia de valores não implica necessariamente que se execute um genocídio; nesta, como em tantas outras situações, basta um simples campo de concentração.

As antologias são o campo de concentração por excelência da logística literária, e um excelente mecanismo de higiene canónica. Permitem-nos descer às favelas - mas num ambiente controlado. Permitem-nos pegar em "bons livros maus" - mas com um alibi documental. Permite-nos regressar sem complexos aos bons velhos tempos em que isto é que era bom: "No terraço mais alto do palácio real, que se erguia majestosamente no topo da colina no centro de Coppesh, quatro mercenários shemitas com laudeis de couro alinhavam-se em frente a meia dúzia de irrequietos dragões".

Este maravilhoso exemplo de prosa casta e decorosa pode ser encontrado naquele que é um forte candidato ao livro mais apaixonante do ano: "Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa" (Saída de Emergência). Que houve uma corrente de "pulp fiction" portuguesa com vitalidade suficiente para se poder falar em "anos de ouro" é um facto passível de surpreender pessoas nascidas depois de 1950. E, no entanto, ela move-se. A antologia é um paciente e dedicado trabalho de arqueologia bibliográfica, fixando uma história paralela da ficção popular portuguesa e configurando uma insuspeita tradição nas margens do cânone estabelecido. Os organizadores, Luís Filipe Silva e Luís Corte-Real, não se limitaram a vasculhar arquivos privados e bibliotecas públicas à procura de exemplares sobreviventes de revistas esquecidas, como "A Senda do Crime", "O Capitão Preto", ou a mítica "Falcão Lusitano"; souberam também recuperar uma cronologia rudimentar da evolução da "pulp" nacional (que se auto-instrumentalizou como oposição vernacular ao Estado Novo), e articulá-la com a história política e social do país. De caminho, proporcionam-nos vinhetas biográficas de personagens e vidas memoráveis, como Edgar Silveira e António Assunção (os patriarcas editoriais do formato); o cosmopolita Arthur de Carvalho, que emigrou para a América em 1934 e se tornou amigo de Fritz Leiber e Sax Rohmer; o brilhante Orlando Moreira, criador do "Sentinela"; e a patologicamente prolífica Ana Maria Casaca, baronesa austríaca e filha única do Barão von und zu Hadegg, que se radicou em Portugal no princípio do século XX e viria a escrever mais de 200 contos sobrenaturais, sendo também responsável pela primeira exposição do público português ao universo dos "mythos" lovecraftianos.

Entre as jóias presentes no livro, destacam-se "A Noite do Sexo Fraco", uma alegoria mal disfarçada sobre o necromante "Raz-A-Las" (ler ao contrário), preservada num fac-símile do manuscrito original exibindo os cortes da censura. E acima de tudo uma esplêndida miniatura de terror puro intitulada "O Cadeirão da Meia Noite", da enigmática Cândida Reis Magee (uma transmontana de ascendência irlandesa sem mais obra publicada e cujo paradeiro é desconhecido). O conto - meras seis páginas - é uma fantasia visionária sobre os últimos dias do regime: um Salazar combalido e incoerente, depois de cair de uma cadeira num incidente doméstico, recolhe-se ao leito de morte, onde vai relatando pavorosos pesadelos envolvendo cravos, e de onde vai balbuciando as suas últimas ordens (mórbidas e indescritíveis) a um círculo íntimo cada vez mais confuso, que nos últimos parágrafos já não tem sequer a certeza se o ditador ainda está realmente entre o reino dos vivos. O derradeiro arrepio profético, contudo, vem na nota bibliográfica: o conto foi escrito em 1948.