Os desafios da vida num planeta de idosos

Amanhã o mundo terá 7000 milhões de pessoas e temos tarefas urgentes: educar as mulheres e pôr a funcionar uma sociedade com poucos jovens

Advay (Único, em hindi) poderá ser o nome do bebé 7000 milhões, se ele nascer amanhã no Uttar Pradesh. As Nações Unidas apostam que é ali que nascerá o bebé que arrendondará as contas da população mundial, porque este é o estado mais populoso da Índia, onde nascem 11 bebés por minuto.

A Índia vai em breve tornar-se o maior país do mundo: em 2020 deve ultrapassar a China. Nessa altura, o gigante asiático estará a envelhecer, passando pela transição demográfica que já hoje marca metade do planeta, a vai debater-se com a falta de jovens e o aumento dos mais idosos.

Globalmente, 43% dos habitantes da Terra têm menos de 25 anos - embora a tendência geral seja para o envelhecimento. A outra metade do mundo debate-se ainda com o crescimento populacional: os habitantes de África triplicarão até ao fim do século. Na Nigéria, o país mais populoso (158 milhões), 70% dos habitantes têm menos de 35 anos.

A humanidade demorou milénios até chegar aos mil milhões, em 1800; alguém que nasceu em 1968 pode ter sido o bebé 3500 milhões, prova viva da aceleração do crescimento populacional, iniciada no pós-Segunda Guerra, quando se generalizou o uso dos antibióticos. O bebé 6000 milhões nasceu em 1999.

Envelhecer antes de ser rico

Agora, passados 12 anos, 42% da população vive em países onde não nascem bebés suficientes para substituir os seus pais. E prevê-se que a proporção de pessoas com mais de 60 anos, que era de 11% em 2009, suba para 22% em 2050.

A China é um caso único: é um país que vai envelhecer antes de se tornar rico. E vai envelhecer muito depressa, perdendo um trunfo que lhe permitiu crescer tão rapidamente nas últimas décadas: uma grande população em idade activa (15 a 64 anos).

No léxico dos demógrafos, durante os últimos 30 anos, a China beneficiou de um "bónus demográfico": uma janela de oportunidade em que a proporção das pessoas em idade activa foi especialmente grande, em relação ao de dependentes (crianças e idosos).

Segundo os resultados do Censo de 2010, a China tem a maior fatia de população activa do mundo (74,5%). "Um quarto do crescimento económico chinês entre 1965 e 2005 pode atribuir-se ao crescimento da população em idade activa", escreveu na revista Science, em Julho, Xizhe Peng, da Universidade de Fudan, em Xangai.

Faltam raparigas

Mas esse período está a acabar, por causa da política de filho único seguida desde os anos 70. A preferência por filhos do sexo masculino levou a uma grave distorção nos nascimentos: 118 rapazes para cada 100 raparigas, quando a taxa natural ronda 104 meninos por 100 meninas.

"Os homens vão casar-se numa idade mais avançada, mas arriscam-se também a ficar solteiros, em países onde quase todos costumavam encontrar uma esposa", sublinhou à AFP o demógrafo Christophe Guilmoto, do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento francês.

A falta de noivas começará a sentir-se em breve - já se sente em algumas aldeias, como relata uma reportagem em Banzhustan, na província de Hunan (China), publicada em Setembro no jornal TheGuardian. Ali não há nenhuma mulher. Duan Biansheng, um agricultor de 35 anos, não tem exigências nenhumas: "Ficaria satisfeito se tivesse uma noiva".

Essa tendência é igualmente grave na Índia, onde se calcula que exista um défice de 7,1 milhões de raparigas até aos seis anos de idade - isto aponta para 3,1 milhões a seis milhões de abortos selectivos de 2001 a 2011, sublinha K. S. James, do Centro de Investigação Populacional de Bangalore, num artigo na Science em Julho.

O proporção de jovens desceu na China - apenas 16,6% têm menos de 14 anos, quando em 2000 eram 19,6%. E 13,3% têm mais de 60 anos, uma subida de 3%). "As projecções mais recentes apontam para que a China atinja o pico populacional, com 1450 milhões a 1500 milhões de pessoas, entre 2025 e 2030", escreveu Xizhe Peng.

"O trabalho barato, um dos maiores factores do milagre económico chinês, deixará de estar disponível. Isto empurrará os salários para cima e possivelmente reduzirá a competitividade das exportações chinesas", comentou Peng.

A Índia, com uma taxa de fertilidade de 2,5, vai tornar-se a o país mais populoso. "A Índia vai ultrapassar a China por volta de 2020, uma década mais cedo do que previsto. Em 2050, a Índia deve ter mais 400 mil habitantes do que a China", escreveu na Science K. S. James. "A população indiana deve estabilizar à volta de 2060, com 1720 milhões de pessoas".

Contrastes e desafios

Mas a Índia permanece um país de contrastes, em termos demográficos. Se a esperança de vida aumentou 30 anos em relação a 1950 - 67,6 anos para as mulheres é a previsão para 2010-2015 -, a mortalidade infantil continua a ser alta: morrem 50 bebés por cada 1000 que nascem, realçou James.

A China tem outro tipo de desafios: como cuidar de um número crescente de pessoas idosas, num país que está apenas a dar os primeiros passos num sistema de segurança social, por exemplo. "Na China, a crise do envelhecimento é incomparavelmente mais rápida do que na Europa, onde a fertilidade e a mortalidade baixaram de forma gradual ao longo do século XX. Nos próximos cinco anos, as pessoas com mais de 60 anos passarão de 178 milhões para 220 milhões", disse o demógrafo Christophe Guilmoto.

Mas as pessoas mais velhas ficam nas zonas rurais, enquanto os filhos, e os netos - que tradicionalmente tomariam conta delas - migram para as megacidades, para arranjar trabalho. "Dentro de dez anos, o Governo terá de enfrentar um enorme desafio", disse à AFP Liang Zhongtang, demógrafo envolvido no planeamento familiar.

Educar as mulheres

Do outro lado do mundo, neste planeta a duas velocidades demográficas, ainda se luta pela descida da taxa de fertilidade. As previsões, afinal, são de que atinjam os 9300 milhões de habitantes até 2050, e 10.000 milhões em 2100 e o crescimento acontecerá sobretudo em África - será mais ou menos o equivalente a duas Chinas.

A melhoria das condições de vida das mulheres e, em especial, a aposta na sua educação são a receita das Nações Unidas para abrandar o crescimento populacional naquela zona do globo. As mulheres que tiverem educação têm maiores hipóteses de aceder à contracepção - e, segundo cálculos do Fundo da ONU para a População, mais de 215 milhões de mulheres querem atrasar ou evitar gravidezes, mas não têm acesso a métodos modernos de contracepção.

Existem ainda muitos países onde as raparigas - ainda crianças - são dadas para casamento. Na Etiópia, metade casa até aos 18 anos e, no Nepal, 7% das meninas são dadas em casamento até aos dez anos, normalmente a homens bastante mais velhos, num matrimónio com uma relação de poder bastante desequilibrada, lê-se no relatório das Nações Unidas publicado esta semana, em que se traçam oportunidades e desafios colocados pelo marco histórico de se atingir os 7000 milhões de humanos na Terra.

Manter as raparigas na escola, garantir que têm acesso à educação, é uma forma de lhes permitir melhorar o seu estatuto na sociedade.

A ex-Presidente da República da Irlanda Mary Robinson contou à Reuters uma história que lhe ficou na memória. Para fazer conversa, perguntou a uma adolescente na Etiópia sobre o seu dia de casamento. Tinha 16 anos e já estava casada há um ano. "Ela olhou para mim com uns olhos muito tristes e disse: "Tive de sair da escola". Isto fez-me ver a realidade. Para ela, a vida tinha mais ou menos acabado."

Por isso, diz Robinson, "manter as raparigas na escola é uma das coisas mais importantes que os políticos têm de se responsabilizar por fazer".