O que é que João tem? João Gilberto

É o grande mito vivo da música brasileira. Inspirou meio mundo, da Bahia a Berlim, de Tóquio a Nova Iorque. Vive de noite, não sai de casa, passa 12 horas a tocar violão e nunca dá entrevistas. Mas foi pai aos 73 e agora, aos 80, vai fazer uma turné. A Pública falou com quem rodeou e rodeia João Gilberto. E de caminho tocou-lhe à campainha.

1. O homem invisível

Noite de neblina. Rio de Janeiro, sim, mas na viragem de domingo para segunda. O taxista quase dorme quando a repórter liga para a praça. Túnel Rebouças, Lagoa, Leblon: nem trânsito nem gente. Uma noite para nosferatus - não fosse o mar aqui à esquerda, respirem lá. Neblina mas com cheiro de mar. E quando o táxi entra na rua Carlos Góis, aquele oitavo andar está iluminado.

É João Gilberto, conclui a repórter, estacando no calçadão, já hipnotizada. João Gilberto talvez a treinar O pato pela 3786.ª vez ("O pa-to / vinha cantando alegremente / quéim, quéim..."). O mais perto que podemos chegar de João Gilberto é ouvi-lo na nossa cabeça.

A rua é esta, o número é este, um prédio do Leblon parecido com os fatos impessoais de João. Fato de vestir e não a palavra fato depois do acordo ortográfico. Os brasileiros não têm este problema porque chamam ternos aos fatos. Digamos então: o prédio de João é parecido com os ternos de João.

Mas será mesmo o prédio de João? A 10 de Junho, quando ele fez 80 anos, ainda era. E se mudou? Há que achar fontes in loco, embora, claro, o relógio na esquina marque 1h06. Boa hora para João, má hora para fontes. As quatro lojas da fachada estão de grades corridas: Enquadre - Loja de Gravuras; Cabeleireiro Pedro e Paula; Locadora Vídeo Nacional; roupas DatsKat. E as lojas da fachada lateral idem: um veterinário, uma depiladora, uma pizaria.

Correm muitas histórias extravagantes sobre João Gilberto. Que ele é visto em noites de chuva com um capote. Que quem lhe leva comida nunca lhe vê a cara. Que um vizinho gritou com ele por causa do cheiro a marijuana e ele gritou de volta (João gritou? Quem acredita nisto?).

Mas alguém podia também inventariar as extravagâncias dos fãs que estacam hipnotizados no calçadão de João à 1h06 da manhã a tentar extrair sentido do facto de que, durante o dia, enquanto ele dorme, apenas oito andares abaixo há quem arranje as unhas, vacine o gato ou coma uma piza com nozes e presunto.

A propósito, será essa que ele costuma pedir?

E eis que dos fundos da pizaria emergem quatro mulatas, com os seus shorts, os seus sacos de plástico, a caminho dos morros, finalmente a caminho de casa. O nome João Gilberto não faz acontecer nada na cara delas. "Um senhor que nunca sai de casa e mora aqui por cima...", tenta a repórter. Uma delas abre os olhos, vira-se para as outras: "Ah, aquele senhor..." Depois não diz mais nada. E as quatro desaparecem.

Resta o gradeamento na outra ponta do prédio. É aí que está a campainha para o porteiro. Os prédios típicos da Zona Sul do Rio têm grade e porteiro.

A repórter toca.

"Pois não", diz o porteiro.

"Boa noite, eu gostaria de saber se João Gilberto mora no oitavo ou no nono andar."

Pausa. "Não estou autorizado a informar."

"Mas ele mora aqui?"

"Mora, sim." Pausa. "Não estou autorizado a dar nenhuma informação."

Não porque sejam 1h06 da manhã (entretanto já será um pouco mais). Este porteiro tem o turno da noite, e o turno da noite é simplesmente o turno de João Gilberto. Estranho seria vir aqui de manhã ou à tarde. Ou querer confirmar alguma informação além desta: ele está aqui, é aqui que ele está (como no poema de Carlos Drummond de Andrade, "no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho", e já agora Drummond é o poeta favorito de João).

Muito obrigada, senhor porteiro.

Para o resto, resta ouvir, e ouvir quem conheça João Gilberto, tomando como pretexto que daqui a dias ele inicia a turné 80 Anos. Uma Vida Bossa Nova. Imaginem: se normalmente já toca umas 12 horas seguidas de violão, agora deve estar a fazer horas extra naquele oitavo andar.

Como contará a sua ex-mulher e grande amiga Miúcha Buarque de Holanda, o que João continua a dizer sobre qualquer canção é: "Eu estou quase chegando lá..."



2. A turné

"Nada que vem de João me surpreende." Eis como o biógrafo, produtor e compositor Nelson Motta, ele mesmo parte da Bossa Nova, comenta à Pública a anunciada turné de João Gilberto. Não falam há quatro anos, mas perante os concertos anunciados - de São Paulo (5 de Novembro) a Salvador (9 de Dezembro), passando por Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre - Motta declara-se pronto: "Se puder, vou assistir a todos os cinco."

Já Ruy Castro, "o" biógrafo da Bossa Nova e aquele que mais páginas terá escrito sobre João Gilberto, não se lembra de ele ter feito uma turné semelhante, mas também não se surpreende. "Quando aceita fazer alguma coisa é porque a proposta é muito boa."

Mas esta proposta, segundo os organizadores, partiu de Claudia Faissol, a mulher que fez João Gilberto ser pai outra vez aos 73 anos (detalhes mais adiante) e faz parte do quotidiano dele (tal como Miúcha e o agente, Otávio Terceiro).

"No ano passado conheci a Claudia e ela me convidou para que pudéssemos fazer um projecto para os 80 anos de João", conta o produtor Maurício Pessoa, um baiano como João. "Eu falei: que João diga o que ele quer." Mas nunca falou com ele, nem por telefone. "A Claudia convive com João, cuida dele. Os contactos que fizemos todo o tempo foi através dela."

A primeira conversa aconteceu em Dezembro, o contrato foi assinado a 10 de Junho, aniversário de João. Abrange oito concertos, dos quais cinco serão este ano e os restantes, ainda sem data nem local, em 2012. "A novidade foi a hipótese de gravar DVD, porque ele não tem nenhum", explica Maurício. "Nós propusemos e ele acabou aceitando. Temos direito a fazer oito shows e gravar até dois DVD com ele."

E como será a turné? "Tudo vai ser feito como ele quer." Ele escolheu as cidades, a produtora propôs salas "a partir de premissas como a melhor acústica e o contacto com o público". Algumas eram velhas favoritas de João, como o Theatro Municipal do Rio ou o Teatro Castro Alves de Salvador. "Ele prefere teatros." Mas em São Paulo tocará num espaço novo, o Via Funchal (que pretende ser "a melhor casa de espectáculos do Brasil").

Outras exigências de João: "Som de altíssima qualidade, com dois técnicos vindos do Japão, um para o som, outro para a iluminação. Já vieram ao Brasil ver as salas e tiveram uma longa conversa com ele. Inclusive um deles é o guardião do banquinho." Em que João se senta para tocar e cantar. "João só faz show com aquele banquinho. Conheceu esses japoneses em 2003, em Tóquio e deu-se muito bem com eles." Os japoneses adoram João Gilberto.

Mais detalhes? "Ele quer ficar sete dias em cada cidade, para descansar, e o deslocamento é por jatinho. Alugámos um." A bordo deverão ir Claudia, a filha de ambos e o primo de João que é também seu médico." Em compensação, o recheio do camarim ficará em conta: "Ele só pediu água, café com leite e bolacha de água e sal."

O microfone será o AKG a que João está habituado. Mas em vez do seu violão Tarrega de boca ovalada deverá tocar um outro que lhe ofereceram recentemente, feito em 1967, remata Maurício.

O outro co-organizador da turné, Antônio Barretto Júnior, também é baiano, e de Juazeiro, a cidadezinha onde nasceu João, nas margens do rio São Francisco, embora, aos 43 anos, seja demasiado novo para se ter cruzado com ele lá. "As nossas famílias eram vizinhas", conta. "A minha mãe conheceu muito ele. Minha avó e meu avô, Lauro e Angélica Lustosa Aragão, eram amigos da família." E a família continuou sempre em contacto com Yulo Viana, o tal primo de João. "Foi médico de minha avó, de minha mãe e meu. Agora está com 80 anos, mas acompanha João sempre, tão lúcido e vigoroso quanto ele."

A prenda para Juazeiro vai ser um ecrã a transmitir o concerto de Salvador.

Entre jatinho, uma semana em cada cidade, os técnicos japoneses que vistoriaram as salas e vão acompanhar os concertos e um cachê que por contrato não pode ser revelado, a conta não sai barata. Além disso, não há patrocínio e as salas não são gigantes, o que encarece o aluguer. Tudo somado, ir ouvir João vai custar pelo menos um salário mínimo (200 euros a geral mais barata, 570 euros a plateia mais cara), o que causou revolta entre os fãs.

"Esta turné foi elaborada em torno de espaços acústicos com 2000 pessoas em média", justifica Barretto Júnior. "Considerando os convidados de João e da organização, uns 12 por cento são convites. Além disso no Brasil temos uma carga tributária de 20 a 30 por cento no lucro dos ingressos. E a gente não tem um patrocínio vigoroso." Quando fecharam contrato com João já os planos de mecenato para 2011 iam adiantados. "Fizemos um acordo com os Correios mas não é expressivo. Tem também a questão da meia entrada [para professores, estudantes e idosos, obrigatória em todos os espectáculos]. É um complicador muito grande."

Os fãs dirão que se não fosse a meia entrada é que só daria mesmo para ricos. Barretto Júnior resume: "O custo global da turné é de 4,5 milhões de reais [1,8 milhões de euros]."

Ainda assim, à hora de fecho desta edição, Rio e São Paulo já tinham vendido 90 por cento dos bilhetes e Brasília e Porto Alegre 70 e 75 por cento (Salvador ainda não estava à venda).

Cada concerto terá entre uma hora e meia e três horas, consoante o ânimo de João. Que vai ele tocar? "Não nos passou o repertório. Será uma surpresa muito agradável."



3. O biógrafo e os discos

"Não conheço essa moça, mas me parece que ela está sendo uma influência positiva nele", diz Ruy Castro sobre Claudia Faissol.

Estamos num apartamento de cobertura no Leblon que seria o paraíso de qualquer melómano (e alguns bibliófilos), ainda por cima meticulosamente organizado. Ruy Castro, que aos 63 anos se apresenta de calções e com um sorriso de mágico, é quase vizinho de João Giberto, mas há 21 anos que não fala com ele.

Biógrafo de Nelson Rodrigues, de Carmen Miranda, de Garrincha, e contínuo biógrafo do Rio de Janeiro, Castro estreou-se em livro apenas em 1990, depois de uma longa carreira como jornalista, (incluindo, entre 1973 e 1975 - olhem só as datas - ser editor das Selecções do Reader"s Digest em Lisboa, onde aliás tem uma filha e netos portugueses).

Mas a sua estreia como escritor foi retumbante: Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova, múltiplas reedições, sendo que vale mesmo a pena ter a versão em formato original por causa das fotografias, como Ruy Castro fará a gentileza de mostrar, ao ver a amassada edição de bolso da repórter. Começa logo pelo facto de que na capa está João Gilberto, de pé, na praia, com violão.

Sim, Chega de Saudade é uma biografia da Bossa Nova. Mas se tem algum protagonista é João Gilberto, o único que o autor vai acompanhando desde a infância. De tal forma que em alguns momentos parece saber o que ele está a pensar.

O mais extraordinário é que Ruy Castro nunca viu João.

"Não quis pôr em risco aquela sequência de conversas por telefone que estavam correndo muito bem", conta, sentado num dos seus sofás, antes de passarmos aos discos. "Só precisava da cabeça e da voz dele."

E não foi difícil convencer João a falar?

"Facílimo. O [compositor de Bossa Nova Roberto] Menescal me perguntou: "Já falou com João Gilberto?" Eu disse: "Não, estou aprendendo tudo o que posso." Isso foi em 1989, já estava trabalhando havia um ano e meio no livro. Aí o Menescal disse: "Toma cuidado que ele vai-te hipnotizar." Eu disse: "Imagina!...""

Eram muitos anos de jornalismo, saberia resistir.

Então chegou o dia em que conseguiu o número de João. "Liguei, por volta de 23h, uma hora em que ele já devia ter tomado café-da-manhã... "João, boa noite, daqui quem fala é um escritor..." Não falei jornalista, achei que ele podia não gostar, e não falei em Bossa Nova, mas em música popular: "Eu não podia deixar de conversar com você, que é a personagem mais importante da história..." Ele ouvia, calado, do outro lado. Aí começou a falar..." Aveluda a voz para imitar João, sussurrante, lento: ""Que bom Ruy... Esse livro vai ficar ma-ra-vi-lho-so... Você é tão inteligente..." Ele ficou falando, falando. Aí quando ele se calou eu perguntei... [tão lento como João]: "Você acha mesmo, João...?" Eu já tinha sido hipnotizado!"

E depois, como avançou a conversa? "No começo eu evitava assuntos pessoais, era só música. Ele cantava [canções antigas], fazia todas as vozes, tem uma memória impressionante. Eu perguntava: "João, quem foi o acordeonista que influenciou tanto o [João] Donato?" Ele dizia: "o Ernie Felice." Eu nunca tinha ouvido falar, mas no dia seguinte saía em campo, e uma semana depois já tinha os discos de Ernie Felice. Quando ele falava o nome de um compositor do passado, nos dias seguintes eu me dedicava a aprender tudo o que podia."

Ou seja, Ruy Castro não só aprendeu João com João, mas um pouco de tudo com João. "Tínhamos uma conversa a cada 10 dias, umas cinco horas de cada vez, até às três da manhã. Foram umas oito conversas, ao longo de três meses." Tomava notas, não gravava. "E enquanto isso, ia conversando com outras pessoas. Um pesquisador que era de Juazeiro me deu nomes de lá. João se lembrava de histórias em Juazeiro e contava. Aí as pessoas de lá corroboravam. Consegui armar uma rede de informantes que tiveram uma participação intensa em várias épocas da vida dele, incluindo a irmã, com quem tive várias conversas ao telefone, longas."

Esta irmã, Dadainha, entrou directamente para a história da música porque foi na casa de banho dela, em Diamantina, Minas Gerais, que João "achou" a batida da Bossa Nova. Há muitas casas-de-banho na vida de João, muitas horas de violão sentado na retrete. As casas-de-banho são pequenas, solitárias e têm azulejos que ampliam cada "plim" numa corda de nylon. Também levam a voz a baixar.

Para além disso, na fase em que João ficou em casa da irmã, ela tinha acabado de ser mãe. Se a voz de João nunca foi de se projectar, menos ainda com um bebé por perto.

"Ele ficava no berço e João ia de meias lá tocar", conta Ruy Castro. "Como vou ter essa informação senão por ela? E a parte do banheiro, do que se passou na cabeça dele, vem do que ele contou para muita gente quando voltou ao Rio, e eu conversei com todos eles. Conversar com o maior número de pessoas, esse é o segredo de uma biografia. Não é ter a pretensão de se meter na cabeça dele, mas eu tinha muitos relatos e todos diziam a mesma coisa."

Depois, claro, havia a música. Os discos oficiais, os raros e aquelas gravações de concertos que nunca foram discos. Ruy Castro levanta-se, caminha até ao canto da sala onde tem a aparelhagem, incluindo dois pick ups. Houve um tempo em que se desfez dos vinis para comprar CD. "Agora estou a comprar os vinis de volta..." Mas este CD-R, por exemplo, contém algo nunca impresso em vinil. Ruy Castro sorri como um Houdini prestes a fazer uma magia e carrega no play.

Um piano, Tom Jobim. Uma voz, João Gilberto: "Tom e se você fizesse agora uma canção / Que possa nos dizer / Contar o que é o amor?" A resposta de Tom: "Olha Joãozinho, eu não saberia / Sem Vinicius pra fazer a poesia..." Entra Vinicius de Moraes: "Para essa canção se realizar / Quem dera o João para cantar..." E João remata: "Ah, mas quem sou eu? / Eu sou mais vocês / Melhor se nós cantássemos os três..." E então - leitor, agora não respire - os três cantam, pela primeira vez na história: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."

É noite no Leblon, certamente o mar continua a bater no posto 12 e os morros acenderam como pirilampos mas cá em cima estamos a ouvir a estreia mundial de Garota de Ipanema.

Foi em Agosto de 1962, na mítica temporada de concertos do Au Bon Gourmet, organizada pelo melómano Flávio Ramos, "provavelmente o maior momento da Bossa Nova no Brasil", escreve Ruy Castro em Chega de Saudade.

E faz questão de dizer "no Brasil" porque fora do Brasil, em Novembro desse mesmo ano, houve o mítico concerto do Carnegie Hall. Quase toda a Bossa Nova embarcou para Nova Iorque e alguns, como Tom Jobim ou João Gilberto aproveitaram para lá ficar.

Houdini troca de CD. Tcham, eis Tom Jobim a meter os pés pelas mãos na letra do Samba de Uma Nota Só nessa noite toda atrapalhada do Carnegie Hall, com Miles Davis, Dizzy Gillespie ou Peggy Lee na plateia. Era o começo da rendição americana à Bossa Nova. Só faltava Frank "The Voice" Sinatra ligar para o boteco de Tom um dia. Veio o dia. E nasceram discos.

"I"m very happy to be with you", diz o sempre charmoso Tom lá no Carnegie Hall. "Só duas pessoas sabiam o que estavam fazendo nessa noite", explica Ruy Castro. "Tom e João. De tal maneira que não precisavam mais um do outro. Porque eles não se gostavam. Houve um grande afastamento a partir daí."

Apesar de ambos terem vivido muito tempo na América.

Terá João voltado com alguma saudade patriótica? Reparem só nisto: "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo heróico o brado retumbante / E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da Pátria nesse instante..." Sim, é o hino do Brasil, e a voz, ó incrédulos, é de João Gilberto.

João Gilberto a cantar o hino do Brasil como se cantasse uma canção dele. Poucas canções, na verdade, são dele, mas qualquer canção se torna de João.

O anfitrião ri radiante. Onde é que isto foi gravado? "Talvez em casa dele..." Prenda de Nelson Motta.

Não saiam já. Há mais este inédito: "Na beira da lagoa/Foram ensaiar/ Para começar/ O tico-tico no fubá..." João Gilberto cantando O pato. Mas ouçam a próxima estrofe: "A voz do crooner /Era mesmo um desacato..." Crooner em vez de pato? E as onomatopeias que aí vêm? "Coisas de grupo vocal...", sorri Ruy Castro.

Porque foi assim que João se estreou no Rio de Janeiro, crooner do grupo vocal Garotos da Lua, recém-chegado da Bahia.



4. As histórias

João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira era um dos vários filhos de seu Juvenino e dona Patu, lá em Juazeiro, cidadezinha de 10 mil habitantes com ruas de terra, demasiado calor e enchentes regulares do rio São Francisco, conta o livro de Ruy Castro.

A voz do esplêndido Orlando Silva soava três vezes ao dia num altifalante de rua, entre anúncios e Duke Ellington, missa e Carmen Miranda. João não era aluno por aí além, gostava de futebol (até hoje gosta) e aos 14 anos deram-lhe um violão. O centro da cidade era o tamarineiro de grande copa na Praça da Matriz, e ali ficava ele, tocando. Sempre que via mais um musical de Fred Astaire pensava em sapateado. Queria ir longe, e aos 18 anos partiu para Salvador.

Nesse tempo, a capital do Brasil era mesmo o Rio, e esse tempo era o dos clubes de fãs de Dick Farney e Frank Sinatra. Uma das bandas-promessa, Os Garotos da Lua, tinha despedido o seu crooner por cantar baixinho, e alguém que tinha ido a Salvador falou de um rapaz que "cantava feito a peste". Difícil imaginar João a cantar feito a peste, mas João ainda não era João.

Os Garotos da Lula mandaram um telegrama a convidá-lo para entrar como crooner. João apanhou um avião para o Rio e instalou-se em casa de um deles até arranjar casa.

Isto foi em 1950. Acabou por arranjar casa, mas em 1960. Pelo meio simplesmente saltou de amigo em amigo, da Tijuca para Copacabana, de Botafogo para o Humaitá, exasperando um a um por não fazer limpezas, não ajudar nas contas, dormir de dia e demorar umas duas horas na casa-de-banho.

No começo da sua vida carioca, um tio deputado arranjara-lhe um emprego de funcionário que João nem fingiu exercer. Acabou demitido tanto do emprego como dos Garotos da Lua, por faltar a ensaios e concertos. Isto, na fase em que namorava a futura diva Sylvinha Telles, e o pai dela impediu o casamento. Como se já não bastasse, o seu primeiro disco, em que cantava como os seus heróis Orlando Silva e Lúcio Alves, não fez sucesso. João descobriu a marijuana nos becos da Lapa, e a descoberta dura até hoje.

A sua namorada seguinte foi Marisa, outra cantora. Ele conseguiu que ela cantasse no Golden Room do Copacabana Palace, enquanto para ele sobrava o nada glamoroso bar do Hotel Plaza. A falta de liquidez levou-o mesmo a entrar num musical vestido de fuzileiro naval e palhaço, numa boate da Urca. O Rio era a Urca, Copa, Botafogo, o Centro, o começo de Ipanema. A praia do Leblon era tão deserta, conta Ruy Castro, que se ia para lá ter sexo.

Além de Sylvinha, as musas chamavam-se Dolores Duran e Maysa, uma espécie de furacão antes do furacão Elis Regina. E depois havia a franja de Nara Leão, menina rica num apartamentão da Avenida Atlântica, com uns pais que deviam ter recebido uma medalha pelo muito que facilitaram a vida da futura Bossa Nova, incluindo o namorado de Nara, o compositor Ronaldo Bôscoli, ir usando as roupas do pai de Nara.

Mas a Bossa Nova só aconteceria com João, e João ainda não acontecera. Aliás, no começo de 1955 estava falido e deprimido. O seu fã Luís Telles, um gaúcho generoso, arrancou-o para uma temporada terapêutica em Porto Alegre. João passou sete meses num bom hotel, hipnotizando cozinheiros de bons petiscos e toda uma plateia para o seu violão. Mas ainda não era aquilo. Então foi para Diamantina, os tais oito meses em casa da irmã que foram a grande revelação. A casa hoje é uma imobiliária, mas tornou-se ponto de peregrinação, incluindo fotografias da casa de banho nos jornais nacionais. Ali sentado é que João decantou aquela batida, aquela respiração, aquela forma de cantar "como se cada sílaba estivesse sendo tirada de dentro de um envelope", na exacta formulação de Ruy Castro.

Ao voltar ao Rio, em 1957, tinha Bim-bom e Hô-bá-lá-lá, as suas primeiras canções. E quando as cantou e tocou para Ronaldo Bôscoli daquela maneira que encontrara em Diamantina, ele levou-o a casa de Nara e a partir daí o Rio - aquele Rio - parou para ver João tocar, sendo que nos intervalos ele ainda falava de Drummond, de Rilke e de técnicas de iôga.

Então estamos na fase em que João Gilberto dá ideias a Tom Jobim, e Jobim vai supervisionar a gravação do seu primeiro disco a entrar para a história, Chega de Saudade. Uma tortura para músicos, técnicos e o próprio Jobim, com João, senhor de um ouvido absoluto, ouvindo erros que mais ninguém ouvia.

Não pensem que foi a glória. Cantor resfriado, merda e discos partidos: as reacções desceram a isso. Depois em São Paulo subiram, e São Paulo arrastou o Rio.

João estava agora acampado em casa de Bôscoli, o que significa que as roupas do pai de Nara acabavam nele. Em casa de Nara conheceu uma pespineta chamada Astrud e teimou até casar com ela em 1960, com Jorge Amado como padrinho.

Foi quando finalmente arranjou casa. E por casa se deixava, mesmo que Jorge Amado telefonasse a dizer que tinha com ele Sartre e Beauvoir: não queria João aparecer? João dizia que sim e nunca aparecia.

Mas chegou a ser apresentador de um programana TV Tupi.

E era capaz de passar seis horas ao telefone com alguém (até hoje é). As festas disputavam-no. O adolescente Roberto Carlos tentava (em vão) cantar como ele. Ele era a Bossa Nova e nem gostava do nome, Bossa Nova. Ruy Castro conta que continuava a faltar concertos e a agir por impulso: no fim de 1961 deu com o violão na cabeça de um músico que o mandou calar nos bastidores.

Mas Flávio Ramos, o melómano organizador da temporada do Bon Gourmet em que se estreou a Garota de Ipanema, não tem uma queixa quanto a João. "Era uma pessoa adorável", diz à Pública. "Retraída mas muito simpática, espirituosa. Muito caprichoso com o violão, acordes, harmonia. Ele se atrasava um pouco nos shows mas como eu tinha um carro mandava buscá-lo. Cumpriu o contrato religiosamente. Super, hiperprofissional. Apenas foi responsável por eu gastar um bocado mais de dinheiro, porque primeiro queria mais um baterista, depois mais um contrabaixo, depois mais [o grupo vocal] Os Cariocas. Quando era para ser só ele, Tom e Vinicius! Mas eu sou tão alucinado por música que todos os pedidos dele faziam sentido."

Eis o sempre gentil Flávio Ramos aos 85 anos. Há 50 que não fala com João. "É um génio, sem dúvida nenhuma. Dificilmente vai aparecer uma pessoa com aquele cuidado, com aquele som, o bom gosto, a sonoridade. Foi e será a grande figura da nossa música."

No concerto do Carnegie Hall de 1962, por pouco não tocava por causa do vinco da calça, que faria a calça oscilar, quebrando a concentração.

Seguiu-se o disco com Stan Getz, e na gravação - de acordo com o que contaram a Ruy Castro - João dizia a Tom em português para dizer a Stan em inglês que ele era burro. Então Tom dizia a Stan como João sempre sonhara gravar com ele. E Stan respondia que a cara de João não parecia dizer isso.

Foi quando Astrud resolveu cantar a Garota de Ipanema no estúdio. A canção fez tudo pela carreira dela na América, e ela ainda lá está (embora já ninguém se lembre).

Entretanto no Brasil a ditadura acabou com a leveza da Bossa, que se dividiu entre os que não queriam misturar música com política e os que achavam que música era política. Nara andou de um lado para o outro, depois Elis varreu tudo. Então vieram Chico, Gil, Bethânia, Caetano.

Ainda antes de os militares tomarem o poder, João conhecera em Paris uma irmã de Chico, Miúcha Buarque de Holanda. Em 1964 ela foi ter com ele a Nova Iorque. Alugaram um apartamento em Central Park e casaram-se nas Nações Unidas. João não se americanizou: dava negas à Life Magazine e abandonava concertos em Washington. Dos Estados Unidos mudaram para o México, umas semanas que se transformaram em dois anos.

Já separado, ele só voltou ao Rio em 1980. Foi morar para um aparthotelno Leblon. De vez em quando saía à noite no seu Monza para ir até a Pedra de Guaratiba, um lugar do litoral, a uma hora do Rio. Também gostava de ir ao miradouro Vista Chinesa, na floresta da Tijuca.

Mas sobretudo ficava em casa, de pijama apesar de todos os seus fatos - os seus ternos - Yves Saint Laurent. A ver televisão, a tocar violão, e a tocar violão para a televisão. Além, claro, dos telefones, vários.

Já tinha mais de 70 anos quando uma fã se aproximou dele. Ela queria fazer um documentário. Era filha de um dentista das elites cariocas, famosa nas revistas, mais nova que a filha que João teve com Miúcha (Bebel) e muito bonita. Chamava-se Claudia Faissol. Tiveram juntos Luísa (Lulu), hoje com seis anos.



5. Quase chegando lá

Difícil é não ser fã de João. Ele hipnotiza à distância. Veja-se o caso de Marc Fischer, jornalista, escritor e músico alemão, de Berlim. Um dia um amigo japonês pô-lo a ouvir o vinil com a primeira gravação de Hô-bá-lá-lá. O elixir entrou directo no sangue de Marc. Basicamente João tornou-se uma obsessão.

E aos 40 anos, no fim de 2010, Marc veio para o Brasil em busca do mistério de João Gilberto. O resultado é um livro tão divertido como comovente, Hô-bá-lá-lá (que a Companhia das Letras só lança em Dezembro no Brasil, mas que a Pública já leu). Marc esperou até à última que João falasse com ele, João não falou, e no entanto está lá, através de toda a gente que Marc captou, e do que Marc soube captar no Brasil, mesmo não falando uma palavra de português.

Há um amor em Berlim ao longo do livro. Quando ele voltou a Berlim esse amor acabou. Em Abril, depois de entregar o texto ao seu editor alemão, Marc Fischer matou-se.

Miúcha Buarque de Holanda, uma das pessoas com quem falara, ficou em choque. Ainda não conhece o livro, mas leu quatro capítulos pré-publicados na revista Serrote.

"Achei deslumbrante", conta à Pública. "Não tinha a menor ideia de que por trás daquele homem frágil, meio disfarçado, de óculos, estivesse aquilo. E na hora liguei para João. Falei: "João, estou lendo a coisa mais genial. Ele pega você por outro lado!" Miúcha já tinha falado a João em Marc quando ele estava no Rio a fazer a sua pesquisa. Mas João, ao saber que por exemplo Marc fora falar com um seu imitador, achara que Marc "estava completamente perdido", e não falara com ele. Então quando Miúcha ligou depois de ler os capítulos, foi uma surpresa. "Ele ficou tão espantado com o meu entusiasmo. Depois eu falei: "O cara pulou da janela..."" Como reagiu João? "Silêncio mortal. Ele ficou chocado."

Miúcha combinou levar-lhe a revista, e depois o livro. João vai ler o que Marc Fischer escreveu. É isso que falta.

Só questão de deixar passar a turné.

"Ele fica muito tomado pelos shows", diz Miúcha. Não que no resto do tempo esteja de férias. "Passa a vida ensaiando. Estica a mão e o violão está lá. Ele jorra música, está o tempo todo treinando, como se repetir a mesma música esgotasse todas as possibilidades rítmicas e harmónicas. Depois na hora escolhe a versão."

A saúde tem ajudado. "O sertanejo é antes de tudo um forte. Ele está muito bem. E conseguiu levar a vida de uma maneira que eu tenho inveja. Só vê quem quer, na hora que quer, tem sempre gente que pode resolver comida, banco..." Não é uma solidão? "Solidão total. Mas ele é muito feliz no sentido em que consegue ter um controle do tempo. Tem um rigor absurdo dentro daquele loucura toda. Uma capacidade de concentração absolutamente incrível. Acreditou que podia sempre melhorar. Diz: "Eu estou quase chegando lá..." É uma coisa que ele diz faz 200 anos. Um cara de 80 anos tem uma mão de 80 anos, mas você não vê nenhum sotaque de velhice na mão. Ele está tocando mais que antes, melhor. E isso é uma coisa quase milagrosa."

O nascimento da filha Lulu alterou algo? "Ele é louco pela filha, gosta de criança, mas não vejo mudanças no quotidiano, nos horários. Agora, João é um grande sedutor. Uma criança está na mão dele, os bichos. Ele se dá muito bem com gatos. E é por um canal outro. A música tem outro canal e esse é o canal dele. Você vai chegar para ele e vai contar a coisa mais íntima da sua vida. É um sedutor genial."

Quando viviam no México, numa casa em estilo japonês à saída da capital, João ficava ouvindo o galo, vendo o mato. "Ele dizia que era uma parada para preparar ele chegando no Brasil. Tenho músicas de João tocando violão e quase o galo lá longe."

Então João precisava do Brasil? Miúcha ri. "João não precisa de nada." Mas voltou para viver no Rio. "O Rio é um monte de lembranças. Acho que ele não podia morar na Bahia, ia ficar reclamando o tempo todo. O Rio é a praia, a boémia, aqueles músicos, essas coisas estão misturadas. O cheiro bem forte do mar. Acho que tem uma Copacabana imaginária ali. E ele tem uma memória fulminante, lembra de tudo."

O musicólogo Lorenzo Mammí, professor na Universidade de São Paulo, escreveu dois longos artigos sobre o mistério de João. "Como é que uma pessoa tão esquiva se torna a personalidade mais representativa da cultura brasileira?", resume à Pública. "Ele tinha tudo para desaparecer. Acho que isso revela muito sobre a cultura brasileira, baseada nas relações informais, não assertiva, com génio. João representa essa outra modernidade. O que é elevado à perfeição é a conversa entre amigos, o cantar para si mesmo, todo um trabalho de privilegiar o lado afectivo, elevar os aspectos que são dificilmente quantificáveis, como a dicção. Aquilo que na tradição do jazz são restos."

Os Estados Unidos da América eram eficácia e produtividade. João não é isso, talvez por isso tivesse que voltar. Não lê uma nota de música, é a própria música, como na bela canção de Caetano, seu discípulo, que depois de homenagear Nara, Tim Maia, Bethânia, Djavan, Chico, Paulinho, Gal, Elis, Elba, Sílvio, Elisete, Carmen, Gilberto, Cauby, Milton, Roberto, Bosco, Dalva, Marisa, Aracy, Amélia, Max, Nora, Dolores, nos diz que "Melhor do que isso só mesmo o silêncio/ Melhor do que o silêncio só João."

Talvez por isso também, como diz Ruy Castro, João use aqueles fatos, aqueles ternos. Para que quando olhamos para ele, ele desapareça e fique só a música.

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