Eu é que sou o Tintin

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A aparência física de Jamie Bell ou dos outros actores era irrelevante já que a interpretação dependia apenas da captura digital dos movimentos e expressões entretanto convertidos em personagens animadas por computador YVES HERMAN/REUTERS

A primeira adaptação das "Aventuras de Tintin" em 3D com realização de Steven Spielberg e produção de Peter Jackson até podia justificar alguma solenidade. Mas isso seria a antítese de Jamie Bell, actor que não quer ser estrela nem se deixa deslumbrar por Hollywood. Vítor Moura em Paris

Does Jamie Bell ring a bell? Claro que sim. Pelo menos, desde que arrebatou meio mundo a fazer de Billy Elliot, o rapaz com um talento nato para a dança que conseguiu fazer frente a um destino desolador, contra todas as probabilidades. Conseguiu a personagem do filme sensação de Stephen Daldry e conseguiu o actor que está há 11 anos de pedra e cal no cinema, embora não saiba explicar bem como. "Sinto que sou um sortudo porque ainda estou a trabalhar. Não sei... mas tenho conseguido". É um desabafo meio constrangido com a ideia de que, se está onde está hoje, é porque também merece estar. Mas, pelos vistos, Jamie Bell é mesmo assim: humilde e... um pouco tímido até.

Oportunidades de trabalhar com quem mais admira, não lhe têm faltado. Clint Eastwood é um dos exemplos porque o chamou para "As Bandeiras dos Nossos Pais", em 2006. Um exemplo maior ainda está à vista na primeira das "Aventuras de Tintin", o princípio de uma trilogia que hoje mais parece uma predestinação quando se lembra do primeiro filme que viu no grande ecrã. "Tinha 8 anos, na altura. Vivia nos arredores de Sheffield, Inglaterra. Acho que tinha à escolha "Wayne"s World 2" e "Parque Jurássico" mas fui ver o segundo e tudo aquilo me deixou maravilhado! Fiquei a achar que havia dinossauros neste planeta! No fim, lembro-me de ter reparado na referência "realizado por Steven Spielberg" e de ter pensado que aquele tipo era um mágico".

A magia agora é outra, muito mais sofisticada e espectacular, mas também única e especial porque, depois do nome do realizador, é o próprio nome que Jamie Bell vê nos créditos finais de "O Segredo do Licorne". Como foi então trabalhar com um ídolo da infância? "Estava intimidado. Era uma coisa séria. Podia ter sido devastador e decepcionante... Mas não foi nada!". Nova prova de humildade: "Não há nada de único que possa realmente dizer sobre ele... O que diria você? Vamos passar em revista o que todos os actores já disseram sobre ele e... repetir que ele é estupendo?! Ele é o pioneiro da tecnologia, o grande visionário, o criador de mundos maravilhosos onde já todos passámos bons momentos e rimos, tivemos saudades e voltámos. Ele faz isso. Ele é o full monty".

A tecnologia é fixe

Jamie Bell foi a testemunha principal numa produção altamente tecnológica mas também muito fiel ao imaginário de Hergé, o mesmo que o fez sonhar vezes sem conta. "Cresci com o Tintin. Ele faz parte da minha história... Representava basicamente quem eu queria ser!". Motivos para admirá-lo não faltavam. "Ele era destemido, não tinha noção das consequências do perigo... E eu queria ser como aquele pequeno agente secreto que pilotava aviões, viajava pelo mundo, resolvia problemas e corrigia o que estava mal..." E era jornalista. "Eu também queria ser jornalista quando era miúdo, provavelmente por causa dele".

Bell acabou por seguir o caminho da representação e hoje, homem feito, reconhece que pouco ou nada tem em comum com a personagem que continua a admirar. "Não, eu tenho muito medo do perigo!" É uma diferença substancial entre Jamie Bell e Tintin. Mas há outras. A personagem não tem mais de 17 anos e o actor já está nos 25. A personagem é ruiva e franzina e o actor é louro e encorpado. Mas nada disso é importante porque o que estava em causa era recriar as aventuras num cenário virtual através da técnica da "performance capture". A aparência física de Jamie Bell ou dos outros actores era irrelevante já que a interpretação dependia apenas da captura digital dos respectivos movimentos e expressões entretanto convertidos em personagens animadas por computador. Jamie já conhecia a técnica da rodagem de "King Kong" onde assistiu à transformação de Andy Serkis no macaco gigante com marcadores espalhados por todo o corpo. Agora, já pode falar com conhecimento de causa e fala mesmo. "É uma tecnologia muito fixe. O que se consegue é estupendo. Vejo todos os pequenos tiques, todas as pequenas coisas que fiz... Emergimos mesmo através da tecnologia."

Citamos Spielberg a reconhecer que a tecnologia é um trunfo para conseguir um efeito impossível numa produção "live action" mas também a sublinhar que é um meio para contar a história e não, nunca, um fim em si mesmo. Jamie concorda e aproveita a deixa para criticar quem despreza o trabalho que Andy Serkis começou no "Senhor dos Anéis" no papel de Gollum, continuou em "King Kong" e retoma nestas "Aventuras de Tintin" como Capitão Haddock. "Aqueles actores que dizem que usar esta técnica não é representar... gostava que vestissem um fato e fizessem o que ele faz. Ele é formidável e não devia ser desacreditado só porque é pioneiro na tecnologia". A indignação toma-lhe conta do rosto. "As pessoas dizem-lhe para parar com as macaquices! Eu gostaria de vê-las a tentar ser um animal, a fazerem-me sentir algo e a viajar, a pôr-me zangado ou triste... A dar vida a algo que seria normalmente criado por um computador. E não é. A alma da personagem vem... dele. Esse é o princípio da representação!". É então por isso que lhe chama o Gandalf da performance capture? "Isso mesmo".

Jamie Bell aprendeu muito com Andy Serkis nos cenários virtuais mas não descurou a pesquisa que ninguém podia fazer por ele para se transformar no primeiro Tintin 3D da história do cinema. Começou por Hergé. "Li muitas coisas sobre ele, os primeiros dias na publicidade, a outra BD que ele tinha sobre o escuteiro; o Tintin veio daí, ele é basicamente um escuteiro... E depois li sobre o resto da vida do Hergé. Percebi como ele, depois de ter criado Tintin, tentou seguir em frente e afastar-se mas nunca conseguiu... Era um homem contraditório mas muito interessante. Não sabia muitas das coisas que li." Ficou a saber. Também mais esclarecido sobre quem é realmente Tintin? "Nem por isso, não".

Tintin e Indiana

O próprio Hergé deixou sempre muitas questões em aberto, abrindo espaço à imaginação de milhões de fãs, Jamie Bell incluído. Como é que o actor explica o entusiasmo universal com a personagem que viu surgiu pela primeira vez numa BD publicada em 1929 e está hoje traduzida em mais de 80 línguas? A resposta traz uma comparação. "Ele é um herói que não se esconde atrás de uma máscara. Um herói que não tem super poderes... a não ser o facto de ser um miúdo que tem uma coragem incrível, que tem aquelas aventuras estupendas, que encontra tesouros e afasta os maus da fita, muito ao estilo do Indiana Jones".

Não foi por acaso que alguns críticos franceses apontaram semelhanças entre as personagens quando viram "Os Salteadores da Arca Perdida", em 1981. Foi, aliás, com esses críticos que Spielberg ouviu falar de Tintin pela primeira vez. Será possível que as semelhanças de há 30 anos se tenham transformado em coincidências intencionais nas aventuras que chegam agora ao cinema? Jamie garante que não. "Estamos a pensar mais nas pessoas jovens, nos miúdos... Num certo sentido, este é um filme para todas as idades, para a família. Temos os mesmos elementos que o Indiana Jones na escala da aventura mas acho que o público é diferente..."

Fala com doses iguais de convicção e orgulho. Entrar nas "Aventuras de Tintin" encheu-lhe as medidas, sobretudo depois de ter visto o resultado final de uma rodagem feita da abstracção constante. "Estamos a falar de um filme de acção, de um filme hitchcockiano, de um filme negro, com detectives, e de uma comédia. Tem um ar fantástico e olhe que eu sou céptico como tudo!" Mas se é assim tão céptico, porque se envolveu num projecto tão imprevisível? "Não sou céptico em relação à tecnologia! Sou apenas céptico, em geral... Confio no Joe Letteri [director da Weta Digital]. Não há melhor pessoa nem melhor empresa para aquele trabalho dos efeitos especiais ou qualquer tipo de digitalização. Não há melhor realizador que o Steven Spielberg para este tipo de filme... Pois, se calhar, não devia ser céptico!" Se calhar.

O que Jamie Bell continua a ser, ao fim de 11 anos de carreira, é a antítese da estrela. Vive sozinho em Los Angeles - "é lá que está o trabalho" - nunca aparece na imprensa cor-de-rosa porque nenhuma fotografia dele "tem qualquer valor", e, no entanto, já interpretou vários papéis com alguma projecção. Fazer de Tintin às ordens de Spielberg é talvez o maior desses papéis mas também o primeiro que o poupa à experiência incómoda de ver o rosto estampado em "outdoors" gigantes por todo o lado. "Eu sou anónimo e quero manter-me assim". E isso consegue-se como? "Não sei bem... Se calhar, não saio tanto como isso... É raro ser o protagonista de um filme do Steven e conseguir sair à rua. E isso é fantástico!"

Está, portanto, para vir o filme que vai transformar Jamie Bell numa estrela? "Honestamente, isso não é nada apelativo. Gostaria de fazer uma grande interpretação que viesse mesmo cá de dentro, como se parte de mim precisasse que ela saísse cá para fora. Esperar por alguma coisa que me transforme numa estrela... Não sei. Parece-me perigoso. Qual é a base disso? Não sei que processo é esse. O que se ganha com isso? Não percebo que valor tem. Não compreendo a ideia de um actor fazer planos para ser uma grande estrela".

Se dúvidas havia, agora está claro. O que mais interessa a Jamie Bell é o ofício. Que vai praticando e apurando conforme as oportunidades e sobretudo em função dos realizadores envolvidos. Em 2012, vamos vê-lo ao lado de Sam Worthington e o Ed Harris em "Man on a Ledge", thriller de Asger Leth. Nos últimos meses, o foco do actor tem sido o lançamento das aventuras que a partir de agora o autorizam a dizer aqui, ou em qualquer parte do mundo: "Eu é que sou o Tintin". Mesmo que os "outdoors" não lhe sirvam de grande ajuda.

Ver crítica de filme págs. 43 e segs.

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