Corpos a caminho do abismo

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Em "Du Don de Soi" os corpos dos 36 bailarinos vão invadindo um palco encoberto em sombras e encontrando, no chão, os vestidos que carregarão ao longo de toda a peça DANIEL ROCHA

Abriu ontem a temporada da Companhia Nacional de Bailado e é uma das melhores peças feitas para a companhia. O mergulho que Paulo Ribeiro fez no universo do realizador Andrei Tarkovsky é um desafio apaixonante e surpreendente Tiago Bartolomeu Costa

Talvez seja uma evidência esperar que o movimento surgido como proposta de interpretação do universo do realizador russo Andrei Tarkovsky seja lento, respirado, tenso. Às primeiras imagens de "Du Don de Soi", que Paulo Ribeiro criou para a Companhia Nacional de Bailado, a primeira peça que concebeu para a companhia e também aquela que abre a nova temporada (até dia 6 de Novembro e digressão nacional depois), os corpos dos 36 bailarinos vão invadindo um palco encoberto em sombras e encontrando, depositados no chão, os vestidos que carregarão ao longo de toda a peça, como vestes cerimoniais. As luzes de Nuno Meira e os figurinos de José António Tenente vão, assim, forçando o seu espaço por entre uma coreografia que pede corpos que saibam controlar cada gesto, cada movimento, cada olhar e cada passo da respiração. E quando os corpos, homens e mulheres, todos eles sem nome, sem um gesto que os distinga, compõem uma massa que é só uma imagem a dialogar com outra, que os vigia, de um homem que vai cavando a terra (vídeos de Fabio Iaquone), percebemos melhor porque é que Tarkovsky acreditava em imagens que "não significavam mais para além de si mesmas", tal como nos haikus, essa forma poética oriental de construção de imagens a partir de breves frases.

"Du Don de Soi" é feito dessas imagens, no palco ou em vídeo, à nossa frente ou construídas no interior da nossa mente, hipóteses de sentidos que se vão formando no reconhecimento de uma plasticidade grave, feita de um movimento que parece não existir, em corpos que buscam ainda formas de o interpretar. É um movimento muito consciente da sua fragilidade, atento ao perigo de se completar e, por isso, que quer evitar fechar o seu significado. E, tal como nos corpos dos filmes de Tarkovsky, entre a dormência e o pânico que prevê o que vai acontecer. "Corpos que estão a caminho do abismo", diz-nos Paulo Ribeiro, onde cada passo pode ser um passo a mais, mas que é impossível não ser dado.

Gravidade

"É muito difícil agarrar nesta temática, que é o oposto da minha, não na densidade mas na lentidão", começa por confessar o coreógrafo do qual nos habituámos a ver peças onde o humor dava aos corpos a leveza que o ritmo permanente, nervoso, miúdo, cortado parecia sempre contrariar. Aqui tudo existe como que emoldurado por uma gravidade que parece exterior aos próprios corpos, como se soubessem menos do que podem adivinhar e, numa agridoce mistura de festividade e cerimoniosa celebração, tentassem perceber o que os move.

Move-os, em gestos silenciosos que vivem em paralelo ao achado que é a banda-sonora, a passagem integral de "Mugam Sayagi", obra da afegã Franghiz Ali-Zadeh que o Kronos Quartet interpreta, uma hipótese de materialização das ideias que ficam do cinema de Tarkovsky.

O cinema de Andrei Tarkovsky, do que dele se pode ler de um tempo e de um modo de escrever a história que não ficou para a História, de histórias de homens e mulheres para quem a espiritualidade era fundamental porque representava a marcação de um território onde o eu teria liberdade, é um cinema, como descreveu outro realizador, Ingmar Bergman, que "criou uma outra linguagem, fiel à natureza do cinema, que capta a vida como uma reflexão, a vida como um sonho". Em filmes como "Solaris", "Stalker" ou "Nostalgia" o que encontramos, na gravidade dos rostos, na recorrência de alguns motivos - e Paulo Ribeiro chama a cena a chuva, o vento, o quente do sol e a terra -, nas longas sequências onde os corpos se confundem com as paisagens como se fossem a aproximação à espiritualidade possível, é esse desejo de "relacionamento da pessoa com o mundo inteiro", como disse Tarkovsky no seu livro "Sculpting in Time", obra fundamental na construção de "Du Don de Soi".

"A espiritualidade tem aqui um peso grande", diz Paulo Ribeiro, que ainda procura um modo de ler esta peça no seu percurso, ele que foi desafiado pela directora artística da CNB, Luísa Taveira, para mergulhar a fundo no universo do russo. "Uma surpresa, claro", diz-nos. Mas a mesma ideia de espiritualidade, ou de "aproximação ao eu", existia já em "White Feeling/ Organic Beat", que Ribeiro havia feito para o extinto ballet Gulbenkian em 2005, para a remontagem que fez das suas quatro primeiras peças "Memórias de um sábado com rumores de azul" (2006) e, de forma mais evidente, na sua última coreografia, "Paisagens... onde o negro é cor" (2010).

Há onirismo que suspende estes corpos, como se habitassem entre o terreno e o imaterial, como se o ritual, certamente religioso, pudesse, ao mesmo tempo, ser redenção e assunção de culpa.

É a essa ambígua resistência que Paulo Ribeiro vai buscar a força para constituir aquela que é a melhor coreografia feita para a CNB desde que Olga Roriz criou "Pedro e Inês", em 2004, e a melhor peça assinada por Paulo Ribeiro desde "Malgré nous, nous étions là", o dueto que criou em 2006 para si e Leonor Keil e que marcou o seu abandono dos palcos. "Du Don de Soi" é a coreografia que melhor encontrou um modo de olhar para corpos, os da CNB, que habitam a técnica num contexto onde ao corpo se pede uma outra forma de intervenção: menos apressada, menos determinada, menos materializável. Há em cada uma sequências fios que se vão soltando para formarem outros modos de olhar para uma massa em acto contínuo, num gesto que não cessa, como se fosse consciente da necessidade de avançar mesmo sem saber para e por onde.