A retoma do Sporting e o dedo de Domingos

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Depois do início periclitante, o Sporting acaba por estar a realizar um dos seus melhores arranques de época dos últimos anos. Aos 17 pontos somados na Liga (19 golos marcados e nove sofridos) e às nove vitórias consecutivas, há ainda que acrescentar uma carreira limpa na Liga Europa e o destaque de ter sido o primeiro clube a garantir a passagem à fase seguinte das provas europeias.

A imprensa tem ainda destacado pequenos dados abonatórios, como a circunstância de a goleada (6-1) imposta ao Gil Vicente ter igualado o melhor resultado conseguido desde Novembro de 2004, quando o Sporting de José Peseiro bateu o Boavista de Jaime Pacheco. Acrescente-se o facto de ser o clube com mais faltas sofridas na Liga (factor que, a par do tempo de posse de bola, reflecte o domínio dos jogos), os quatro golos marcados na sequência de cantos (o que vinha sendo uma raridade no clube) e os seis golos apontados por jogadores que começaram os jogos no banco de suplentes. A maioria destes indicadores serve ainda para valorizar o papel do treinador.

Mas, em apenas mês e meio, o que é que mudou de tão substancial de forma a transformar uma equipa pouco sinfónica noutra que até sofre de incontinência goleadora? Alguns responderão que a diferença teve a ver com a melhoria do desempenho dos árbitros. Sendo verdade que o Sporting foi algo prejudicado nos jogos iniciais, isso não basta para justificar a forma desgarrada e errática como se apresentou nessa fase.

A iminência da desgraça e os 15 minutos memoráveis que evitaram a queda no precipício em Paços de Ferreira pareceram ter unido a equipa. Hoje, o Sporting mostra uma alma que contagia e até um certo vigor juvenil, expresso também na forma como vem marcando golos nos primeiros minutos, o que acaba por tornar os jogos mais fáceis.

Desde então, as hierarquias da equipa estão a ficar cada vez mais definidas e tudo parece funcionar de memória. E até a generalidade dos 17 reforços já parece sintonizada na mesma onda. Durante aquela fase difícil, foi importante o conforto dado pelo presidente Godinho Lopes. Mas bem mais determinante deve ter sido Domingos, que soube funcionar como um pára-raios quando as coisas começaram por correr mal e, depois, como um gestor motivacional.

O espanhol Juan Lillo disse um dia que um treinador deve ser como Deus: estar em todos os sítios, mas nunca visível. Domingos parece seguir essa cartilha. Percebe-se que se impõe no balneário com uma liderança tranquila, sem excessos de autoridade, mas com uma frontalidade e abertura desarmantes. Claro que nenhum treinador pode estar completamente formatado com 42 anos e somente cinco épocas no escalão principal. Isso nota-se, por exemplo, na forma demasiado transparente como ainda se expõe no “banco”, quando o semblante e os gestos revelam em demasia o peso dos resultados negativos.

Começar mal não é uma novidade para Domingos. Aconteceu-lhe o mesmo há dois anos em Braga, onde teve uma pré-temporada desastrosa (foi eliminado das provas europeias pelos suecos do Elfsborg) e chegou a ter o lugar em risco. E, há um ano, seguia a dez pontos do líder FC Porto logo à passagem da sétima jornada.

Tal como no Braga, Domingos começou, também em Alvalade, por ensaiar alguns desenhos tácticos. Antes de estabilizar no actual 4x3x3, passou pelo 4x2x3x1 e pelo 4x1x3x2. No último jogo, aproveitou a segunda parte, quando a vitória já era um dado adquirido, para testar o 4x4x2 clássico, com Elias e Schaars no meio e Diego Rubio e Carrillo a funcionarem como médios interiores/alas, sobrando na frente a dupla Wolfswinkel e Bojinov. É uma solução de menor equilíbrio, mas que pode vir a ser útil em determinados jogos em que seja necessário arriscar mais.

Tão ou mais importante do que a estabilidade táctica foi a definição da equipa. Domingos chegou a ser acusado de utilizar em demasia os jogadores que já estavam no clube. Mas isso, com o tempo, até resultou vantajoso: mostrou aos reforços que esse estatuto nada lhes garantia e provou aos outros que não iriam ser ostracizados. A mudança aconteceu em Paços de Ferreira, onde Rui Patrício e João Pereira foram os únicos “da casa” a sobreviver. A partir daí, a equipa foi subindo de produção, passando a dominar os jogos com soluções variadas: em posse, em pressing e com agressividade ou antes com uma dinâmica criativa, conforme as circunstâncias.

Durante esta travessia, algumas unidades mostraram ter um peso específico na equipa. Foi o caso de Patrício, mas também de Rinaudo, que trouxe uma agressividade e uma entrega contagiantes. Schaars garante geometria e boa execução nas bolas paradas. Elias é, obviamente, um caso à parte. Tem tudo o que os outros têm, mais a velocidade, a verticalidade e o virtuosismo que só estão ao alcance de uns quantos. Mas não deixa de ser verdade que o Sporting segue na Liga Europa só com vitórias, sem nunca ter podido utilizar o brasileiro...

A par de Elias, o reforço garantido com melhor selo de qualidade foi o jovem Jeffren. A lesão que tem afastado o extremo espanhol da competição permitiu a afirmação de Capel. Este não consegue jogar com a cabeça levantada nem tem a inteligência de jogo nem o pedigree do seu compatriota formado no Barcelona. Mas funciona como um agitador nato. Acaba por dar acutilância ofensiva e, mais do que isso, tornou-se num jogador-fetiche. Tem ajudado a encher as bancadas, tal como Carrillo, que promete transformar-se num craque de nível mundial. Mais do que enfraquecer a equipa, as saídas de Djaló e Postiga ajudaram a dar estabilidade ao plantel, agora livre de duas unidades malquistas por boa parte dos adeptos. Mais, a venda em saldo do ponta-de-lança teve a virtude de abrir caminho à afirmação de Wolfswinkel, a quem muitos, precipitadamente, tinham começado por torcer o nariz.

Os jogadores do Sporting valorizaram-se e valem claramente mais do que valiam há dois meses. Nessa matéria, Domingos deixou também a sua impressão digital. Porque tem sabido aproveitar as ausências forçadas ou a gestão do plantel para provar que Evaldo até pode ser útil como alternativa a Insúa. Porque soube primeiro valorizar Izmailov e, depois, reclamar a sua recuperação total. Porque tem sabido provar a utilidade de Pereirinha e a necessidade de dar tempo a jogadores em má forma física ou psíquica, como era o caso de Bojinov.

Outro momento importante foi quando fez Elias regressar, mas manteve Matías Fernández na equipa titular. Para recompensar o chileno do bom jogo anterior, pediu-lhe que jogasse da direita para o meio, abrindo caminho às subidas de João Pereira. É uma solução discutível do ponto de vista táctico, mas valiosa à luz da gestão dos humores no balneário...

Mas Domingos é um treinador que está mais próximo da escola italiana do que da holandesa ou de outra qualquer que arrisque sempre num jogo franco – nesse aspecto, é mais parecido com Mourinho do que com Guardiola. As suas equipas assentam, primeiro que tudo, na estabilidade defensiva. Nessa vertente, a qualidade do seu trabalho salta à vista. Rodriguez, o central menos lento do plantel, tem estado quase sempre lesionado e Onyewu é muito alto, mas tem limitações evidentes.

Mesmo assim, o Sporting melhorou e passou a apresentar um comportamento defensivo elogiável. De tal forma que já ninguém repara que as coisas continuam a funcionar sem mácula quando há a necessidade de jogar com Polga e Carriço, que no ano passado foram apontados como os pais de tantas derrotas. Melhor seria, no entanto, que o Sporting aproveitasse a reabertura do mercado, em Janeiro, para melhorar este sector. Até porque as grandes batalhas internas ainda estão por travar.

Enquanto isso, Domingos vai ter de continuar a pôr água na fervura. Porque não é fácil treinar um clube com as limitações e o passado recente do Sporting e, ao mesmo tempo, ouvir o presidente da assembleia geral (Eduardo Barroso) dizer que o Sporting para passar a ser “o principal candidato ao título” só precisa de vencer o Benfica na Luz, dentro de três jornadas...

bprata@publico.pt