Crítica

Tintin

Nem imagem real nem animação, este é um Tintin a “meio caminho” entre dois mundos - os actores foram filmados representando o guião em cenários virtuais, e cada elemento da sua interpretação transportado para um “esqueleto virtual” recoberto por animação digital, num híbrido entre o traço linear e elástico da BD e o foto-realismo da animação por computador. Seria talvez o único modo de ser fiel ao espírito e ao traço dos álbuns originais (um pouco como se os álbuns ganhassem vida através de uma reformatação informática), mas nesse processo de “virtualização” perdeu-se quer a simplicidade do traço de Hergé, quer a energia do cinema de Spielberg. A quem sabe nunca esquece: “O Segredo do Licorne” mexe-se com desenvoltura, rapidez, elegância, tem um travo de “serial” clássico transportado intacto dos álbuns e que justifica perfeitamente a comparação a Indiana Jones. Mas isso apenas vem sublinhar como o Tintin de Spielberg, personagem literalmente do século passado que a tecnologia do século XXI não trata condignamente, está estrondosamente fora de tempo. Há 25 anos faria sentido ter feito este filme, mesmo que a tecnologia não existisse ainda; hoje, é uma relíquia bizarra - e o filme um objecto simpático, sincero, mas falhado, que Spielberg fez claramente mais para si do que para os outros.