Literatura

Prémio José Saramago 2011 atribuído à escritora brasileira Andréa del Fuego

Francisco José Viegas, secretário de Estado da Cultura ao lado de Andréa del Fuego
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Francisco José Viegas, secretário de Estado da Cultura ao lado de Andréa del Fuego Nuno Ferreira Santos

Com o romance “Os Malaquias”, a escritora brasileira Andréa del Fuego é a vencedora da sétima edição do Prémio Literário José Saramago. O anúncio acaba de ser feito numa cerimónia no edifício sede do Grupo BertrandCírculo, em Lisboa. O prémio, no valor de 25 mil euros, foi entregue à escritora pelo secretário de Estado, Francisco José Viegas, e foi atribuído por unaminidade.

“Eu ficaria satisfeita com ‘Os Malaquias’ ele nem precisaria de ser publicado. Estar aqui hoje é enorme, é gigante. Jamais poderia pensar, sonhar, ou tomar um ácido e delirar que eu ganharia o Prémio José Saramago. Não chegaria a esse delírio!”, confessou a autora na cerimónia.
O Prémio Literário José Saramago, que foi instituído pela Fundação Círculo de Leitores e é atribuído de dois em dois anos, distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país lusófono.

A escritora, natural de São Paulo, tem formação em publicidade, fez produção de cinema e realizou duas curtas-metragens, “Morro da Garça”, inspirada nas paisagens de Guimarães Rosa, e “O Beijo e Ela”. Andréa del Fuego, que se estreou literariamente em 2004 com a antologia de contos “Minto enquanto posso”, esteve entre os finalistas da edição deste ano do Prémio São Paulo de Literatura com este seu primeiro romance, "Os Malaquias" (editado no Brasil pela Língua Geral).

"Os Malaquias" conta a história da família de Andréa, cujos bisavós morreram ao serem atingidos por um raio. Aqui fica um excerto: "Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias. O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo."

À sétima edição do prémio, que celebra a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 a José Saramago, podiam concorrer obras publicadas em 2009 ou 2010 enviadas pelos escritores ou editores dos países da lusofonia cujos autores tivessem até 35 anos à data da sua publicação. O júri do Prémio José Saramago foi, nesta edição, presidido pela directora editorial do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes, e composto ainda pela escritora e académica brasileira Nelida Piñon; pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares; pela "presidenta" da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo poeta e escritor Vasco Graça Moura. Por escolha da presidente Guilhermina Gomes, integraram também o júri Manuel Frias Martins, Maria de Santa Cruz e Nazaré Gomes dos Santos.

"'Os Malaquias' é um romance áspero, poético, original. Voltado para a paisagem rural, a que raramente os autores contemporâneos se circunscrevem, seu perfil arcaico e trágico suscitam emoções intensas", considerou a jurada Nelida Piñon. "Oferta-nos uma leitura da qual não se sai incólume, cada capítulo traçado para nos perturbar.Uma criação que, enquanto avança, sem pausa que nos console, distancia-se dos intimismos, dos individualismos exacerbados, do falso cosmopolitismo que ora pauta a produção urbana.Como se estivera a autora centrada em retratar a injustiça e a crueldade de que somos forjados". Para a escritora brasileira, graças "ao inusitado vigor de sua narrativa", Andréa del Fuego, "merece o prémio Saramago 2011, talhado para o seu talento", disse.

Por sua vez, o poeta português Vasco Graça Moura, também do júri, considerou que em "Os Malaquias", a brasileira Andréa del Fuego "transfigura numa impressiva obra de ficção a cruel banalidade da existência de três desgraçados irmãos órfãos, nascidos no rude ambiente de uma fazenda da Serra Morena, e que a vida separa desde muito pequenos". Para ele, "a escrita surpreende insuspeitados recursos de estranheza na coloquialidade quotidiana e desenvolve-se num ritmo muito seguro, perturbante e por vezes quase alucinatório." E remete a José Saramago de uma certa maneira: "Não sendo propriamente afim dos processos de encadeamento da oralidade praticados por José Saramago nos seus romances, esta atenção à fala, às suas inflexões e às modalidades dos seus registos populares, acaba por redundar numa homenagem importante ao patrono deste prémio."

"Seria José Saramago quem deveria falar agora, mas a morte é estúpida e cruel e tira-nos muitas coisas. E pessoas, que ainda é pior", disse Pilar del Río, a "presidenta" da Fundação Saramago naquela que foi a primeira atribuição do prémio sem a presença do Nobel português. Explicou que “Del Fuego” não é nome português: "é um pseudónimo adoptado de Luz del Fuego, uma bailarina, naturalista e feminista brasileira que revolucionou os costumes com o seu pensamento e forma de estar no mundo."

Nas edições anteriores, o Prémio José Saramago foi atribuído: aos portugueses Paulo José Miranda, por “Natureza Morta”, em 1999, e José Luís Peixoto, por “Nenhum Olhar”, em 2001. À brasileira Adriana Lisboa, “Sinfonia em Branco”, em 2003, e aos portugueses Gonçalo M. Tavares, “Jerusalém”, 2005; valter hugo mãe, “O Remorso de Baltazar Serapião”, 2007, e João Tordo, “As Três Vidas”, em 2009.