Onde ponho os pés, ponho a cara

Dedico toda esta entrada à arte de bem calçar. Para mim, um sapato é o grande identificador de carácter em sociedade

Escolhas de sempre
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Alberto Guardiani
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Alberto Guardiani

Sempre fui obcecada por sapatos e por apreciar sapatos, calçar sapatos, criticar sapatos, comprar sapatos, restaurar sapatos. Até chegar ao final mais dramático: coleccionar sapatos. Possuo mais de 300 pares e a soma não pára de crescer.

A importância de um par de sapatos, para mim, assume diferentes vidas: as botas feitas à medida do meu pai biológico, o fascínio pelos saltos de verniz da minha mãe, a loucura pelas Air Jordan do meu irmão, a paixão pelos Vans Era brancos rotos que eu usava quando era miúda. Ao estudar dança contemporânea, ganhei a consciência de que o pé é a coisa mais maravilhosa que a anatomia dissecou. Mais tarde, o pé assumiu-se como o vejo hoje: o grande identificador de carácter em sociedade.

Os pés começam a falar de nós no momento em que saímos de casa. O par de sapatos que calçarmos vai falar sobre nós antes de conseguirmos abrir a boca.

É mais importante um sapato do que uma carteira. Basta pensar que, quando pousada, a carteira pode pertencer a qualquer pessoa. Noutro dia, vi uma Birkin (Hermès) a sair de um BMW x5 montada nuns sapatos comprados numa loja chinesa. Pergunta retórica: de que é que servem a Birkin e o BMW neste caso específico? Assim que a Birkin pousar no chão (outro indicador de falta de chá: todas as boas meninas sabem que não se deixa a carteira no chão), só os sapatos acompanharão o corpo da jovem, qual extensão da falange distral.

Escolho os mesmos sapatos desde sempre: de atacadores, em pele, sempre rasos, Vans Era ou Sk8-Hi, Converse All Star Low Top em branco ou preto, botins de elástico ou sabrinas feitas à medida. Só por volta dos 21 anos percebi que um salto alto altera a silhueta feminina e que a falta de prática nos verdes anos ditou a minha também falta de habilidade para o manobrar. Não possuo, de todo, o mais ligeiro tipo de espírito de sacrifício para aguentar uma jornada em cima deles.

Na hora de escolher um sapato, tenho regras: a sola deve ser de couro e fina, o tacão tem de ser proporcional e clássico, a pele deve ser mole e os acabamentos devem ser de grande qualidade. A marca não interessa (os Louboutin magoam o pé e são insuportáveis). Interessam os detalhes e as costuras (um pesponto solto e "olá ferida!"). Um mau sapato faz um mau pé: deforma- o, enche-o de calos e bolhas, magoa.

Por isto tudo, sigo à risca os conselhos das gerações anteriores e prefiro ter pouco mas bom. Porque... onde ponho os pés, ponho a cara!