Este ano, a média mais baixa para entrar num curso de Medicina em Portugal foi de 18 valores Paulo Ricca/arquivo
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Este ano, a média mais baixa para entrar num curso de Medicina em Portugal foi de 18 valores Paulo Ricca/arquivo

Europa de Leste é opção para quem quer curso de Medicina

No Leste, cursos são pelo menos dez vezes mais caros do que em Portugal. Mas há quem esteja disposto a pagar qualquer preço. E já surgiram empresas que fazem disso um negócio

Esqueçam-se os destinos clássicos – Espanha, Reino Unido e República Checa. Há vida na zona leste da Europa – Letónia, Eslováquia, Hungria – para quem procura o sonho de estudar Medicina e esbarra nas médias altas das faculdades portuguesas. Sabem-no os estudantes, potenciais candidatos, perceberam-no empresas, que se tornaram especializadas na promoção destes destinos.

Este ano, a média mais baixa para entrada num curso de Medicina em Portugal foi de 18 valores – um número que desfaz os sonhos de muitos candidatos. Mas há quem não limite os objectivos ao país e esteja disposto a muito. A investir muito – o curso mais barato custa 51 mil euros, dez vezes mais do que em Portugal.

Bárbara Sepodes está no 2º ano de Medicina na Letónia. Foi porque recusou acomodar-se às coisas que o país lhe podia oferecer: quem conseguiu entrar no curso que queria em Portugal "tem todo o mérito", diz a jovem de 22 anos, mas quem não consegue tem o "direito" de fazer tudo para dar a volta, porque a vocação não pode ser esquecida. "Os meus sonhos têm o preço que eu estiver disposta a pagar por eles", contou ao P3 a partir da Letónia.

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Quando Bárbara Sepodes chegou à Letónia era a única portuguesa. Agora são seis DR

Dos sonhos fazer negócio

Estes sonhos transformaram-se também numa oportunidade de negócio. Bárbara chegou à Letónia por intermédio da empresa Information Planet. O processo é simples: "As pessoas vão a uma reunião, dizem que objectivos têm e quanto estão dispostas a gastar", explica Miguel Covas, director da empresa que envia alunos também para Hungria e Eslováquia.

A Letónia é um dos países com propinas mais baixas: o curso, de seis anos, fica por 51 mil euros. São feitos exames de Biologia, Química e Matemática e não existe uma média de entrada. À empresa de recrutamento, que trata de todo o processo burocrático e exames, o candidato paga 200 euros.

Miguel Covas fala em dois tipos de perfis: "As pessoas que apostaram tudo para entrar em Medicina em Portugal e não conseguiram por décimas e as que já sabem que não entram cá e procuram logo essa alternativa". E na lista de candidatos tanto surgem alunos na primeira experiência universitária como pessoas de outros cursos – geralmente ligados à saúde – que decidem apostar em medicina.

Licenciados e novatos

A empresa Estudar Medicina aposta em três universidades húngaras. Abriu há dois anos "para responder a uma necessidade do mercado", admite o proprietário, Eduardo Martins, que revela os valores cobrados aos candidatos: "São 205 euros". À empresa tanto chegam licenciados como não licenciados, tendo os primeiros uma taxa de sucesso na entrada de quase 100% - “Esses nem têm de fazer exames de ingresso”, adianta.

Os protocolos com as universidades da Hungria permitem que os alunos estudem um ano nos EUA e, a partir do 3º ano, podem até fazer um ano em Portugal, através do programa Erasmus. As propinas chegam aos 10 mil euros por ano, ou seja, o curso custa 60 mil euros e, em dois anos, a empresa já enviou "cerca de 70 alunos".

Sair para não voltar

A empresa Studies in Europe repete o termo "nicho de mercado" para falar do mercado em que investe: Eslováquia. Cobra 300 euros pelo serviço e as propinas da Eslováquia são também de 8500 euros anuais, "com livros facultados pela universidade", explica o responsável nacional da empresa, Francisco Lomelino.

Sair de Portugal foi, para Bárbara Sepodes, "o primeiro passo para não voltar". Não culpa o país por não ter conseguido entrar no curso com que sonhou, mas anda "desapontada com o conformismo dos portugueses": "Sair deu-me o distanciamento suficiente para perceber que Portugal não era o país que me quiseram fazer acreditar".