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Mona, a blogger que denunciou abusos na Praça Tahrir

Protestou nas ruas e na Internet contra a situação do Egipto - e viu Mubarak abandonar o poder. Agora, acha que o país “está muito mal” e custa-lhe acreditar no retorno da violência

Foram dias inteiros passados na principal praça da cidade, para os manifestantes, e dias inteiros marcados por directos do mesmo local, para o resto do Mundo. No Cairo, capital do Egipto, milhares de pessoas saíram à rua a 25 de Janeiro de 2011 e muitos só regressaram a casa a 12 de Fevereiro, quando Mubarak, o presidente apelidado de vitalício, decidiu abandonar o poder. Fê-lo de frente para os manifestantes e para o mundo.

Mona Prince, 41 anos, escritora e professora universitária na cidade egípcia de Suez, é referida como uma das "bloggers" mais activas do seu país. Durante a revolução, não hesitou em relatar o que se passava na Praça Tahrir e, a 27 de Janeiro, publicou um testemunho que funcionou como um alarme global. Depois de contar como foi agredida e assediada por membros da polícia estatal, durante uma das manifestações, Prince terminou o relato com uma pequena frase que representa o seu estado de espírito: "Apesar da dor, continuarei a protestar". E assim foi.

Em Portugal para participar no Simpósio "As Revoluções Possíveis", em Santa Maria da Feira, organizado pela câmara municipal da cidade, Mona Prince falou ao P3, em entrevista, da actual situação do seu país, do livro que está a escrever e dos recentes ataques do exército a civis.

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Uma egípcia cristã chora sobre o corpo de Mina Daniel, cristão morto nos recentes confrontos Reuters/Mohamed Abd El-Ghany

A utopia de Tahrir

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Protestos contra antigo presidente Mubarak resultaram em confrontros com forças de segurança Reuters/Amr Abdallah Dalsh

Não abandonou a praça após ter sido atacada e quando fala desses dias não deixa transparecer a dor de um momento certamente inesquecível. Oito meses depois da queda de Mubarak, Mona Prince não hesita em dizer que o seu país "está muito mal".

Os acontecimentos de 8 de Outubro chocaram-na e diminuíram o seu optimismo. Numa manifestação contra a discriminação religiosa, em frente ao quartel-general da televisão egípcia, o exército não esteve com meias medidas e matou Mina Daniel, um cristão copta que fazia ouvir o seu desagrado. Foi o momento mais violento desde que a revolução no Egipto começou.

"O exército somos nós, o povo, os nossos irmãos, primos e vizinhos. Sempre disseram que o exército nunca mataria o povo, mas fizeram-no na semana passada. É muito triste. Para mim, se o fizeram uma vez, podem fazê-lo de novo e, nesse caso, não sabemos o que acontecerá nos tempos que se avizinham", lamenta Mona. Para trás ficaram as certezas, conseguidas naqueles dias de Janeiro e Fevereiro, de que as coisas iam mudar.

A utopia de uma sociedade sem confrontos religiosos, com pessoas educadas, que Mona viveu na Praça Tahrir, esfumou-se com o levantar das tendas e das casas-de-banho improvisadas. As redes sociais e os blogues continuam, no entanto, a despertar consciências num país com 90 milhões de habitantes, "mais de metade, iletrados".

"Vai levar anos, uma ou duas gerações, no mínimo, para que os resultados da revolução surjam", considera a académica. Mas não é impossível. Mona Prince está a escrever um livro sobre o dia-a-dia na Praça Tahrir e sobre os momentos que se seguiram à queda de Mubarak, para ser editado em árabe até 25 de Janeiro de 2012. Espera que não tenha de acrescentar mais capítulos como o da última semana.

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