Um murro no estômago nunca vem só...

Foto

Se a gestão desta crise do euro continuar como até agora, corremos sérios riscos - nós portugueses e a Europa em geral

1. Dois acontecimentos de importância e de significado muito distintos na percepção dos portugueses marcaram a semana que passou. O primeiro, todos nós demos por ele. Na quinta-feira, à hora dos telejornais, o primeiro-ministro revelou-se um verdadeiro "peso-pesado" ao desferir-nos um valente murro no estômago. Podem agora alguns iluminados vir dizer que era previsível. Na verdade, ninguém estava à espera da violência do murro, até porque o próprio Governo não nos preparara devidamente para ele. O segundo foi o discurso do Presidente da República no Instituto Europeu de Florença, quarta-feira, sobre a crise europeia. Não tanto pelas críticas que fez à forma como ela tem sido gerida por Berlim e Paris, mas mais pelas soluções que defendeu para que a Europa, no seu todo, e cada um dos países do euro a possam superar.

Cavaco Silva disse duas coisas a que se deve prestar particular atenção. Primeiro, colocou a situação portuguesa no seu contexto europeu. O que não é pouco, se levarmos em conta um debate político nacional absolutamente redutor e demagógico, segundo o qual o sofrimento e as dificuldades por que passamos só têm a ver connosco, com os nossos pecados, as nossas opções políticas e a nossa irresponsabilidade. A segunda foi que esta crise apenas se vence - cá como noutros países - se houve uma perspectiva de crescimento ao nível europeu, traduzida em políticas "voluntaristas" das instituições europeias e "expansionistas" nos países com superavites comerciais. No reverso da sua intervenção está uma ideia muito simples: se a gestão desta crise do euro continuar como até agora, corremos sérios riscos - nós portugueses e a Europa em geral.

2. Pedro Passos Coelho não tinha provavelmente alternativa. O país não tem forma de continuar a financiar-se nos mercados. Depende do empréstimos da União e do FMI que, por sua vez, dependem da nossa capacidade para cumprir as metas do défice que ficaram inscritas no memorando de entendimento negociado com a troika. Basicamente, ou era assim ou o país ver-se-ia provavelmente confrontado com uma situação ainda muito mais violenta para a maioria das pessoas. A sua comunicação ao país foi clara e foi convicta (é essa a sua maior qualidade): vivemos numa situação de emergência nacional. (Aliás, é porque não consegue assumir que vivemos em estado de emergência que o PS tem tanta dificuldade em fazer um discurso que faça algum sentido). Dito isto, continuam por explicar algumas coisas. A primeira é a razão rigorosa do tamanho do "buraco" que obrigou a estas medidas inimagináveis na véspera. Um dia destes já ninguém acredita neste discurso, afectando ainda mais a confiança dos portugueses. A segunda, que tem provavelmente a ver com a primeira, a razão pela qual o Governo (como os anteriores) não consegue cortar nas ineficiências e nos excessos do aparelho de Estado e de tudo o que lhe é adjacente, acabando sempre na versão mais fácil: aumento dos impostos e cortes nos salários. Convenhamos que entre a abolição da gravata no ministério da Agricultura e o corte de dois salários vai uma longa distância que, pelos vistos, o Governo não quer ou não consegue percorrer.

Mas há um segundo aspecto que não está suficientemente clarificado: em que se baseia a convicção do Governo de que esta contracção brutal do rendimento dos portugueses é a receita adequada para que o caminho do crescimento chegue depressa. Ou, dito ao contrário, que este Orçamento não é caminho mais rápido para que nos aconteça o que está a acontecer à Grécia: a austeridade induz a recessão que induz mais austeridade, numa vertigem que, no caso grego, já se sabe que vai acabar mal. O primeiro-ministro prefere apontar-nos a sua versão do exemplo irlandês: cortes brutais nos rendimentos e nos benefícios sociais que, num ano, já levaram ao início da retoma da economia. Deixa de lado o facto de a Irlanda ter sido "um tigre celta", ter uma economia bastante mais competitiva do que a nossa e uma capacidade exportadora incomparavelmente superior.

A crença de Passos Coelho tem, todavia, uma fundamentação teórica (ou ideológica, se se quiser). Lembro-me que Victor Bento, economista respeitado e actual membro do Conselho de Estado, escreveu há já mais de um ano que o caminho mais rápido para aumentar a competitividade da economia portuguesa no quadro da moeda única (e, portanto, sem recurso à desvalorização cambial) era uma redução nominal dos custos do trabalho de 20% ou 30%. Não foi o único. Se fizermos bem as contas, esse objectivo está quase a ser conseguido pelo Governo. Basta que o sector privado siga o exemplo dos cortes no sector público. A justificação será a manutenção dos postos de trabalho num quadro ainda mais recessivo.

O que o primeiro-ministro não menciona nos seus discurso e nas suas explicações é que as coisas podem ser mais duras ou menos duras, ter probabilidade de correr melhor ou pior, conforme o que se vier a passar na União Europeia. Nos próximos dias e nos próximos meses. É aqui que é útil prestar atenção ao discurso do Presidente sobre a Europa. Ele dá-nos uma dimensão muito mais exacta daquilo com que podemos contar. Infelizmente as notícias europeias não são muito boas.

3. Aproxima-se mais um Conselho Europeu (a 23 de Outubro) que ninguém hesita em considerar decisivo. Desta vez, por maioria de razões. Em primeiro lugar porque a pressão dos Estados Unidos e das grandes economias emergentes sobre a Europa é de tal ordem que alguma coisa a Europa terá que fazer. Merkel e Sarkozy garantiram que chegariam à cimeira do G20, a 3 e 4 de Novembro (ainda por cima sob presidência francesa), com respostas claras. Em segundo lugar porque a estagnação da economia europeia (a Alemanha acaba de rever em baixa para 0,8% as previsões de crescimento para 2012), o agravamento da situação na Grécia, o constante risco de contágio da crise da dívida a grandes economias europeias são provas mais do que suficientes de que as coisas podem rapidamente fugir ao controlo dos líderes europeus e acabar muito mal.

As notícias só não são boas porque se está ainda muito longe de um consenso. Ou melhor, a Alemanha continua a insistir em que tudo acabará por correr bem se a austeridade for receita quase exclusiva para manter a estabilidade da zona euro - presente e futura. É verdade que a chanceler, nas últimas semanas, deu todos os sinais de que não deixaria cair o euro nem a Europa. É verdade que aceitou a urgência em recapitalizar os bancos europeus. É verdade que aceitou um reforço e uma maior flexibilização do FEEF (mas muito longe ainda do "poder de fogo" que muita gente considera indispensável dar-lhe para ser verdadeiramente um dissuasor do contágio grego). Não é verdade que tenha compreendido que a Europa só pode reconquistar a confiança dos mercados se juntar à resolução definitiva da crise grega uma estratégia de crescimento económico que sirva o conjunto dos países da zona euro. A Alemanha continua firmemente convencida que salva o euro fazendo os outros aplicar num ano as receitas que ela levou uns 10 a pôr de pé e que tem força suficiente para enfrentar sozinha os EUA no G20. Pela frente tem uma Comissão cujo presidente voltou a perder fôlego e uma França sem força para se impor.

Se as coisas corressem bem na Europa, a estratégia do Governo para cumprir o programa da troika e pôr a economia a crescer teria alguma probabilidade de dar certo. Quanto mais não seja porque lhe dá margem de manobra para renegociar o programa de ajustamento de forma a que não se torne num sofrimento insuportável para os portugueses e numa lotaria sobre o seu destino - se a Grécia ou se a Irlanda. Se correrem mal... as convicções do primeiro-ministro (aliás, muito parecidas com as da chanceler alemã) podem revelar-se muito difíceis de realizar. Jornalista