Crítica

Imperfeição humana

Uma obra-prima do Modernismo europeu que os acasos da História deixaram na penumbra durante décadas.

Em 1937, nas vésperas de a Europa entrar de novo em guerra, o escritor polaco Witold Gombrowicz (1904-1969) faz publicar o seu primeiro romance, “Ferdydurke” (que algumas décadas depois Kundera considerará um dos três ou quatro romances mais importantes escritos após a morte de Proust). A crítica polaca de então repara nele, mas não se entusiasma. Aquele texto é um ataque frontal às formas literárias em uso, aos académicos instalados, aos críticos, e uma diatribe às ideias sociais, culturais e pedagógicas da época: “As tias da cultura, aquelas incalculáveis um-quarto-autoras e melgas semi-críticas literárias que proferem os seus julgamentos literários em magazines. Pois a cultura do mundo foi sequestrada por um bando de xexés, engajadas na literatura como melgas, convencidas de que conhecem a fundo as virtudes do espírito” (p. 14).

Menos de dois anos depois, e semanas antes de Hitler invadir a Polónia, o autor de “Ferdydurke” viaja para Buenos Aires, onde esperava passar apenas alguns dias; mas, com o seu país ocupado, não regressa. Fica na Argentina durante 23 anos. O romance cai no esquecimento (apesar de duas edições em castelhano, uma no final da década de 40 e outra já nos anos 50, com prefácio de Ernesto Sabato). O romance só viria a tornar-se bastante conhecido do público já nos anos 60, vivendo Gombrowicz em França, onde se movimentava nos meios intelectuais (o argentino Julio Cortázar, a viver também em Paris, cita-o longamente no capítulo 145 de “Rayuela”).

O título, “Ferdydurke”, que não significa nada em língua alguma nem é referido no romance, é já uma introdução à provocação que se seguirá: o escritor Józio Kowalski, com 30 anos, sofre uma espécie de metamorfose (a escolha da palavra é propositada, pois a transformação que acontece remete de facto para obras kafkianas), começa a sentir-se como um jovem de 15 anos, o seu corpo diminui, e ele é raptado por T. Pimko, “doutor e docente”, que o leva para uma escola, lugar que lhe serve para ironizar com a infantilidade e a maturidade dos colegas e professores. Depois da escola, o pequeno e esverdeado Józio é levado para a casa de uma família da burguesia urbana, obcecada com a modernidade, com o desporto, as bandas de jazz e a cultura. É nessa casa, em que fica hospedado, que continuará o seu processo de apequenamento, uma espécie de Peter Pan para quem a juventude é a única fase aceitável da vida; os donos da casa, esses, vivem aterrorizados com a possibilidade de envelhecimento. Na mansão vive também Zuta, uma “moderna” adolescente; Józio apaixona-se e para a conquistar engendra as mais imaginativas artes; ao mesmo tempo quer mostrar-lhe quão moderno ele também é. Na terceira e última parte, a ironia de Gombrowicz vira-se para o “mundo idílico” que existe no campo, em que há passarinhos mas também a decadente aristocracia latifundiária e a sua relação de interdependência entre senhores e servos.

Ao longo de todo este enredo, dividido em capítulos, o leitor é duas vezes surpreendido pelo intercalar de dois contos que nada têm a ver (em termos práticos) com a história que se desenrola; mas ambos esses contos são precedidos dos respectivos prefácios, que mais não são do que oportunidades criadas para interrupções reflexivas como esta: “Mas se alguém me acusasse de que essa concepção parcial não representa, na verdade, nenhuma concepção, mas apenas um disparate pegado, uma troça, um mangar dos convidados e que eu, em vez de me submeter aos rigorosos cânones da arte, procuro gozá-los com estas observações, eu responderia que era a mais pura verdade e que, verdade verdadinha, eram exactamente essas, e não outras, as minhas intenções. E, por Deus - admito-o sem vacilar - quero tanto escapulir-me da Arte dos senhores, que não suporto, como dos senhores... porque também não vos suporto, com os vossos conceitos, a vossa postura artística e com todo o vosso mundozinho artístico.” (p. 83)

A genialidade de Gombrowicz está em fazer com que uma reflexão teórica, filosófica (que é o tema principal), leve à construção de uma obra literária que deixa à mostra todos os traços metanarrativos. No meio de toda a pirotecnia linguística, piruetas e zombarias, brincadeiras e polimorfia textual, Gombrowicz fez mais do que um simples elogio à imaturidade ou do que um ataque virulento aos valores estabelecidos; o escritor polaco escreveu um romance sobre a imperfeição humana (é evidente a influência de Nietzsche), sobre a nossa incapacidade de sermos seres completos, sobre o esforço que é necessário a sociedade fazer para nos moldar ao tempo que nos calhou.

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