O padre que se tornou cientista e foi pioneiro

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RUI GAUDêNCIO

Aceitou ser cientista a pedido do superior. Bateu a uma porta errada nos EUA, foi posto na rua. Tornou-se pioneiro da genética em Portugal. Morreu sábado

A história do cientista Luís Archer começa com um despedimento de uma universidade, na véspera de completar 38 anos. Chegado aos EUA para frequentar o National Institutes of Health (NIH), onde tinha sido aceite, percebeu que, afinal, o instituto era um laboratório e não uma universidade.

Archer, que já era padre jesuíta, morreu sábado, em Lisboa, com 85 anos. No livro Da Genética à Bioética, conta que o NIH leu o "Dr." que precedia o seu nome nas cartas de recomendação como se já fosse doutorado. "E não foi capaz de imaginar que, num país com mais de oito séculos de história, nunca tivesse havido tempo para extrair DNA e utilizá-lo em transformação ou transdução bacterianas." Por isso, ao fim de uma semana, foi convidado a sair e viu-se no meio da rua, sem saber o que fazer.

Antes de chegar aos EUA, a história tão-pouco tinha sido linear. Depois de fazer o curso de Biologia no Porto, decidiu trocar a bata do laboratório pela batina de padre. Membro da Companhia de Jesus a partir dos 21 anos, ordenado padre aos 33, viu-se, cinco anos depois, perante um desafio: o superior dos jesuítas, Lúcio Craveiro da Silva, pediu-lhe que regressasse à sua área de estudos universitários e se especializasse em biologia.

"Toda a minha maneira de ser era muito mais para as letras e para a literatura. O que queria era exercer o sacerdócio e sentir-me útil. (...) Eu dizia ao meu provincial: "Esqueça isso da biologia, foi um erro da juventude." Mas ele não esteve de acordo, por boas razões. E disse-me: "Nós precisamos de gente na ciência, que é fundamental. E é difícil ter alguém", contou Luís Archer, em entrevista à Pública, em Dezembro de 2006.

"Dedicar-me a Deus foi um salto do tecnicismo frio para qualquer coisa empolgante e que me entusiasmava", contava na mesma entrevista. Custava-lhe trabalhar a "frieza tecnicista da ciência", como referiu uma vez. Por isso, aceitou, "um pouco contrariado", o desafio do superior. Mas fez uma contraproposta: teria que ser "a sério". Escolheu a genética molecular, "área de futuro", sem ninguém formado em Portugal.

Nova troca, vestindo de novo a bata de cientista. Luís Jorge Peixoto Archer traçava assim, sem o saber, o seu percurso de pioneiro em Portugal. Nascido no Porto em 5 de Maio de 1926, foi sempre um aluno distinto, desde a escola primária à universidade - e incluindo no piano, que também aprendeu. Acabou o curso universitário com média final de 18, fez depois Filosofia e Teologia (esta na Alemanha).

O doutoramento, que acabaria por ser feito na Georgetown University, em Washington, não seria reconhecido em Portugal - facto comum, à época. O chefe de gabinete da universidade justificou: "Se se formou no estrangeiro, se é assim tão bom, por que é que não se sujeita cá? Porque aqui é diferente."

Luís Archer decidiu fazer um novo doutoramento, que terminou em 1969, com 19 valores. A partir daí, a carreira científica e académica fez-se de uma multiplicidade de investigações, cargos e responsabilidades. Introdutor do ensino e da investigação em genética molecular microbiana no país, foi ele o criador e primeiro responsável do Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência (1971-89). Dirigiu depois (1991-2000) o Centro de Investigação de Genética Molecular Humana e várias outras instituições científicas.

Trabalhou com vários laboratórios estrangeiros. Num dos casos, o Departamento de Microbiologia da Universidade de Rochester (Nova Iorque, EUA), aprendeu as técnicas de engenharia genética que introduziria também em Portugal a partir de 1977. Entre 1991 e 1993, integrou a rede internacional de mapeamento do genoma humano.

Com as questões éticas sempre presentes no seu trabalho, iria presidir ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1996-2001). As pessoas não poderão ser como deuses, avisava na entrevista citada. "Há o anseio da imortalidade e isto é fundamental no homem. (...) A ideia do elixir da eterna juventude, do imortal, da eternidade, é qualquer coisa de muito profundo." Mas alertava contra os interesses económicos na investigação, os perigos da tecnociência como "absoluto" ou os riscos do trans-humanismo - a ideia de que o homem é uma máquina e é possível aperfeiçoá-la.

Em 2006, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, reconheceria a sua reflexão sobre a relação fé-ciência. Na entrevista à Pública, dizia: "Os problemas resultaram de uma leitura errada da Bíblia e da teologia, e da ciência se querer transformar em religião e a religião em ciência. A religião dizia que não havia evolução, porque tinha sido do pó da terra que Deus criara o homem."

No livro O Sétimo Dia da Criação, diz que a complexidade das relações entre células atesta a simplicidade do processo criativo de Deus: "A vida é a magia de fazer surgir o sublime e complexo, a partir só do que é simples e trivial. E a palavra mágica é apenas uma: inter-relacionar."

Sobre o trabalho do biologista, acrescentava que este sabe que as grandes mudanças da vida "são causadas por alterações atómicas muito pequenas". E o conceito de criação, acrescentava, não é o de um "Deus que faz ou produz coisas", mas "muito mais íntimo: um domínio, uma penetração, uma comunicação profunda através da própria existência".

Para ele, ciência e religião eram "dois mundos independentes, ainda que convergentes", escrevia Walter Osswald no PÚBLICO, em 2006. Com uma delicadeza e um cavalheirismo ímpares nas relações humanas, Luís Archer era alguém que nada impunha, acrescentava Osswald, mas convocava "a servir e a exaltar a humanidade".

Publicou 250 trabalhos de investigação e uma dezena de livros. Em 2008, recebeu o Prémio Nacional de Bioética.

Na homilia do funeral, domingo, o actual superior dos jesuítas, padre Alberto Brito, dizia do colega que tinha "alma de músico, de humanista e de artista". Não perdeu nunca o gosto pelo cultivo da música, da literatura, das artes. Era, dizia Brito, um homem de ciência que conseguia ser entendido por todos, um padre que levava "uma vida pobre" e que, como os grandes homens, "não fazia sombra".