Milhares de árvores que se pretendia proteger acabaram debaixo de água

Alqueva: espanhóis retiram azinheiras submersas

Enchimento até cotas que não eram previsíveis apontadas como razão para a submersão do arvoredo
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Enchimento até cotas que não eram previsíveis apontadas como razão para a submersão do arvoredo Foto: Nuno Oliveira

Uma equipa de mergulhadores vai estar envolvida na operação que é executada para garantir os níveis de segurança na navegação, do lado espanhol, na albufeira da barragem alentejana.

O sacrifício do montado de azinho na área inundada pela albufeira de Alqueva continua a ter lugar em território espanhol, decorrida quase uma década após o encerramento das comportas da grande barragem do sul, a 8 de Fevereiro de 2002. Razões de segurança para a navegação sustentam o corte de mais de 4000 azinheiras. A Confederação Hidrográfica do Guadiana, entidade que gere a bacia do rio ibérico no país vizinho, apresenta uma outra explicação: foram atingidas cotas de enchimento da barragem portuguesa que "não eram previsíveis".

O corte das azinheiras submersas já está a decorrer e vai prosseguir nos próximos três meses, nas localidades de Villanueva del Fresno, Cheles e Olivença. A operação está entregue a uma equipa de mergulhadores. A biomassa retirada é para triturar ou queimar. A secretária de Estado para as Alterações Climáticas de Espanha já deu o seu aval para cortar as azinheiras submersas.

O estudo de impacte ambiental elaborado para a operação estabelece ainda que, na zona de Villanueva del Fresno, árvores que alberguem ninhos não podem ser eliminadas, assim como as que estão localizadas nas ilhas que o enchimento de Alqueva veio a criar "a fim de assegurar zonas de refúgio para a fauna e evitar moléstias derivadas da navegação". As autoridades espanholas lembram que, antes de se iniciar o enchimento da albufeira, foram cortadas na região da Extremadura mais de 400.000 azinheiras.

A razia atingiu outra dimensão em território português, afectando mais de um milhão de árvores: 544 mil azinheiras, 504 mil eucaliptos, 133 mil oliveiras, 34 mil sobreiros e mais 130 mil de outras espécies de árvores. A operação custou cerca de 20 milhões de euros e envolveu o uso de helicópteros para retirar as árvores abatidas nas zonas inacessíveis.

A ribeira de Alcarrache ficou por desmatar, numa extensão de 1500 hectares ao longo da linha de água. As organizações de defesa do ambiente identificaram no território importantes nichos ecológicos e negociaram com a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas de Alqueva (EDIA) a manutenção do montado de azinho, que acabou submerso. Milhares de azinheiras ficaram submersas e a representar um risco para a qualidade da água de Alqueva. A EDIA reconheceu, em 2010, no estudo Protecção e Qualidade da Água em Alqueva e Pedrogão, que, "no futuro", deve ser dada uma atenção especial sobre manchas de vegetação e de árvores que não foram removidas e que "irão sofrer o efeito da submersão".

Uma situação em tudo semelhante à verificada pelas autoridades espanholas. No entanto, na Ribeira de Alcarrache milhares de árvores continuam submersas sob 15 metros de água e os habitats que se pretendiam preservar estão irremediavelmente perdidos, quando o objectivo era não perturbar a fauna que ali vive, nem mexer na flora.

Poupadas ao abate 125 mil árvores

Nos estudos de preservação ambiental elaborados para o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva foi decidido que, entre a cota 150 e 152, só o mato podia ser cortado. A decisão permitiria poupar ao abate cerca de 125 mil árvores para evitar que o impacte visual não fosse marcado por imagens desoladoras quando se verifica a descida de nível das águas. No entanto, a submersão de milhares de árvores aumenta os riscos para a navegação e ameaça a qualidade da água.

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