Em Colares, "Jorge" era apenas aquele pintor vindo de África que fazia biscates

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Miguel Manso

George Wright, um americano procurado há 41 anos pelos Estados Unidos, fez-se passar por guineense até agora. Até conseguiu bilhete de identidade como cidadão português

José Luís Jorge dos Santos, 68 anos, cidadão português natural da Guiné-Bissau. Era esta a segunda vida, numa pequena localidade em Sintra, de um dos homens mais procurados dos EUA, detido na segunda-feira pela Polícia Judiciária, ao fim de 41 anos, em cumprimento de um mandado de detenção internacional. Na verdadeira o seu nome era George Wright. Perderam-lhe o rasto em 1972, depois de ter aterrado na Argélia, num avião sequestrado com outros membros do Exército de Libertação Negra.

A casa de George Wright é a mais bem pintada do beco onde vive há mais de vinte anos com a mulher e dois filhos, em Colares. Trabalhava como pintor, fazia uns "biscates", contam os vizinhos. Já geriu vários negócios. Nenhum resultou.

Fernanda Tavares, vizinha de Wright, ainda se lembra das primeiras coisas que ouviu sobre ele. "Dizia-se que a casa tinha sido vendida a um americano." Mas chegou um guineense casado com uma portuguesa - até a sua foto se espalhar pelos jornais e as televisões, o que se sabia por ali era que "Jorge" era africano, nada mais. Às vezes saía em trajes tradicionais africanos, contam os vizinhos. Rosário, a sua mulher, também. Todos se esqueceram do "americano".

Saberia ela das duas vidas do seu marido? Os vizinhos questionam-se. Ninguém tem resposta.

Agora que descobriram de onde chegou "Jorge", torna-se mais fácil encontrar vestígios da sua verdadeira identidade. A casa tem um nome português, num painel de azulejos, mas em três tabuletas penduradas na porta lê-se This home is open to God, family and friends (esta casa está aberta a Deus, família e amigos) e na caixa de correio, estilo americano, está escrito U.S. Mail.

Uma casa de frangos

Outro vizinho, Vítor Louçada, estava perplexo. Ainda sexta-feira tinha conversado com "Jorge", da salinha com porta para a rua onde passa os dias desde que um acidente lhe levou uma perna. "Chegou aí e disse: "Senhor Vítor, vamos à Portela comprar tinta?" Não fui. Não sei se ainda fez alguma coisa com aquela tinta."

Wright era fluente no português, ainda que todos frisem que tinha sotaque. Vítor ouvia-o a falar ao telefone e, às vezes, com a mulher "em estrangeiro". Fernanda garante que era inglês.

Vítor conta que foi ele que lhe encontrou aquele que terá sido senão o primeiro, um dos seus primeiros empregos em Portugal. "Perguntou-me se sabia de alguma coisa e eu falei com um amigo que lhe deu trabalho como pintor", conta. Mas ele era artista, não dava para a construção civil."

Depois disso, continua Vítor, Wright foi dono de uma casa de frangos, em Algueirão, Sintra, e também um restaurante, em Alcabideche, concelho de Cascais. "Durante pouco tempo. Também foi à falência."

Voltou a pintor, a trabalhar ora para um, ora para outro. Mas os vizinhos dizem que andava muito por ali. "Desaparecia duas, três horas e voltava." Nunca deu nas vistas, dizem. "A única pessoa que já teve um desentendimento com ele foi o vizinho do lado, mas esse nem vive cá, vive em Luanda", assegura Fernanda.

Durante o fim-de-semana ainda houve quem se cruzasse com Wright ou Rosário. Ontem não havia sinais de gente naquela casa e a vizinhança assustou-se com o aparato que as televisões montaram à hora do almoço.

Ninguém tinha visto a PJ chegar, ninguém sabia da detenção. Quem nada sabia sobre o homem passou a saber. "Reconhece este homem?", perguntou uma jornalista, imagem na mão, a Fernanda Tavares. "Se não é ele, é irmão gémeo." Ainda não quer acreditar, tem pena dele.

Gostava dele e do seu trabalho enquanto pintor - da construção civil e artista também. Chegou a fazer almofadas para umas cadeiras que expôs na FIL, pintadas por ele, "já há muitos anos". Se fazia mais alguma coisa para além dos biscates não sabe. Lembrei-me

Jack, o americano

Ninguém consegue precisar o ano em que chegaram a Colares, mas Fernanda Tavares, que mora na última casa do beco há 35 anos, lembra-se de ver Rosário, a mulher de Wright, grávida. E isso já foi há mais de 20 anos, que essa é a idade da filha mais nova do homem envolvido no desvio de avião que a imprensa norte-americana descreveu como "um dos mais humilhantes para o FBI".

Até aí este que era um dos criminosos mais procurados pelos Estados Unidos, terá vivido na Guiné-Bissau. Aí era Jack, o americano, segundo um correspondente da Lusa em Bissau, que ontem falou com um ex-jogador de basquetebol, que diz que Wright, seu colega nos anos 80 "espalhava perfume de um bom basquete americano" na capital do país africano.

Em Portugal, chegou a oferecer-se para treinar as camadas jovens de basquetebol em Colares, disse à Lusa o presidente da junta de freguesia, Rui Franco dos Santos.

"A única coisa que sei é que ele saiu da Guiné-Bissau há mais de 20 anos. Nunca mais tive notícias dele", disse ao correspondente da Lusa o antigo jogador que não quis ser identificado. E o espanto era o mesmo que em Portugal: "Mas está preso porquê?"

Ainda antes de ter ajudado a desviar o avião da Delta Airlines, Wright fugira da Prisão Estadual de Bayside, em Leesburg. Cumpria o oitavo ano de uma pena de 30 anos, pelo assassínio de um veterano da Segunda Guerra Mundial, em 1962, num assalto à mão armada.