Seinfeld e o oposto da ironia

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Larry David com o "cast" de "Seinfeld", série que é a DOUGHY HYUN/ HBO/ HANDOUT/ REUTERS

De todas as baixas decretadas no rescaldo atordoado do 11 de Setembro, uma das mais intrigantes foi a "morte da ironia".

De todas as baixas decretadas no rescaldo atordoado do 11 de Setembro, uma das mais intrigantes foi a "morte da ironia". As hostilidades terão começado logo no dia seguinte, com uma afirmação de Graydon Carter (editor da "Vanity Fair") vaticinando "uma alteração sísmica: a catástrofe pode significar o fim da era da ironia"; e o cadáver foi engavetado duas semanas depois por Roger Rosenblatt, num artigo na revista "Time" com o título sumário de "A Era da Ironia Chegou ao Fim".

A veemência das prognósticos pode ser parcialmente explicada pela dimensão do evento, que intensificou uma já prévia e típica tendência do comentador cultural para a afirmação categórica, a drástica arrumação conceptual e a síntese pseudo-sociológica - tendência de resto responsável pela identificação precipitada de múltiplos cadáveres (o fim da ideologia, o fim do modernismo, o fim da história, além de vários fins do mundo). Mas se a atenuante explica a veemência, não ajuda a esclarecer a escolha da ironia como vítima designada. Relendo os artigos em questão dez anos mais tarde, apercebemo-nos de que a sentença de morte é imposta a uma definição limitada do conceito de ironia - como são, aliás, quase todas.

Qualquer debate sobre a ironia - seja sobre Richard Rorty ou Alanis Morissette - está condenado a afundar-se em debates prévios sobre o que ela significa, debates que atingem muitas vezes um impasse terminal no momento em que dois nazis prescritivistas se agridem mutuamente com as suas respectivas e inflexíveis definições. Qualquer definição parte do pressuposto de que a ironia tem como base uma incongruência: seja entre linguagem e significado, intenção e expressão, expectativa e resultado, a ironia, na sua definição canónica, depende sempre de uma diferença entre o que é e o que parece. A partir daqui (por vezes, até antes) há muito espaço para discórdia e equívoco - por exemplo, entre aqueles que recusam liminarmente aceitar o conceito de "ironia cósmica" como válido, e aqueles que, aceitando-o, tendem para confundir exemplos da mesma com meros azares ou inconveniências.

Para os apressados obituaristas do termo, no entanto, a ironia é um trôpego sinónimo de narcisismo, cinismo, apatia e indiferença. A ironia que eles queriam enterrar era uma distorção estenográfica do termo, que pretende representar uma pose geralmente associada à "Geração X", vista não como um recurso retórico mas como uma atitude céptica perante as Grandes Abstracções (Deus, Amor, Patriotismo, Decência), e cujas raízes são encontradas numa espécie muito particular de pânico identitário: o medo do ridículo, da desilusão, da traição, da humilhação, mas também o medo de ser visto como sincero, comprometido ou sentimental.

Curiosamente, quase todos os teóricos desta forma perniciosa de ironia, desde David Foster Wallace a Jedediah Purdy, passando por dúzias de reaccionários anglo-saxónicos com outro tipo de motivações ideológicas, encontraram na televisão os seus homens de palha e bestas negras: Foster Wallace elegeu David Letterman como "o irónico anjo da morte" dos anos oitenta; e Purdy (um patusco filósofo amador cuja diatribe lançou o movimento dos ainda mais patuscos "Neo-Sinceros") denunciou a série "Seinfeld" em termos quase diabolistas como a "encarnação do impulso irónico" na Terra. Jerry Seinfeld, aliás, é uma referência constante, reconfigurado como a sinédoque suprema para a ironia do distanciamento e da atrofia emocional: o Anticristo de uma geração treinada para renunciar a qualquer causa ou compromisso, erguendo no seu lugar altares - irónicos - a irrelevâncias e frivolidades, à luz de um sentimento de superioridade que traça uma linha de exclusão elitista entre aqueles que "percebem" a piada e os que nem sequer a conseguem ver.

Não é preciso grande clarividência para notar muitas coisas erradas neste radical revisionismo histórico. Antes de mais, a ironia verdadeira não recusa a verdade de algumas proposições abstractas. O que faz, quando é bem executada, é desmascarar a utilização dessas abstracções para fins venais. O alvo da ironia não é a sinceridade, mas sim a duplicidade: a duplicidade que manipula os instrumentos da sinceridade para engendrar uma farsa.

"Seinfeld", tanto quanto sei, nunca teve intenções de prescrever atitudes filosóficas ou regras de conduta. Mas o que conseguiu fazer, nos seus melhores momentos, foi criar um espaço cultural que serviu, por omissão, como uma improvisada academia de moderados. Na ânsia para se distanciar do distanciamento, a pose anti-irónica arrisca os excessos do extremismo, pois parece incapaz de identificar qualquer comportamento ou situação que não seja merecedor ou de reverência ou de condenação indignada. A ironia, neste aspecto, é a via moderada e com mais sentido das proporções: a atitude que reconhece a existência de contextos intermédios entre heroísmo e depravação absoluta - contextos que são mais eficazmente recebidos com ridículo moderado, e que muitas vezes não merecem mais do que isso.

Este género de dinâmicas de análise cultural pró- ou anti- qualquer coisa funcionam quase sempre em ciclos de acção e reacção - cujo tom excessivo apenas é um pretexto para neutralizar excessos anteriores. Há até um episódio de "Seinfeld" que ilustra obliquamente toda a questão: na quinta temporada, George Costanza chega à conclusão de que todas as decisões que tomou na vida levaram a resultados desastrosos e decide começar a fazer o oposto exacto do que sente e pensa, sob o pretexto logicamente perverso de que "se cada instinto que tenho está errado, então o contrário deve estar certo". A decisão revela-se inspirada: de súbito, tudo começa a correr bem. Depois, naturalmente, tudo começa a correr mal. É um bom momento de televisão, saturadinho numa ironia que não exclui ninguém por princípio. E que poderá não ser um instrumento adequando para lidar com catástrofes de grande magnitude - mas continua a ser um dos melhores instrumentos para lidar, por exemplo, com pessoas que acham que quando confrontados com catástrofes de grande magnitude, a melhor solução é começarmos imediatamente a fazer o oposto exacto do que sempre fizemos.

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