Hagiografias pagãs

Era uma vez um homem de nome Crisóstomo, cujos “amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade”. Quando chegou aos 40 anos, percebeu que estava triste porque não tinha um filho e sentiu essa urgência. “Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.” Então um dia, numa feira, o homem comprou um grande boneco de pano, com um sorriso feito de botões vermelhos, e em casa sentou-o no sofá. O homem sentia-se “como um pai”, mas continuava a precisar de encontrar um filho. Uma noite, ao entrar na traineira em que trabalhava, viu um novo companheiro: um rapaz de 14 anos, de nome Camilo, que a morte do avô deixara sozinho na vida. E o Crisóstomo “pensou que aquele era o seu filho”. Tempos mais tarde, o pescador pensou “que queria encontrar uma mulher simples, uma que gostasse de viver numa casa pobre com um pescador humilde que tem um filho que é um génio.” (p. 26)

Este (aqui muito resumido) bom “conto infantil”, com que Valter Hugo Mãe (n. 1971) “abre” o seu novo livro, dá o mote e o tom de voz as todas as histórias que o vão compondo - como uma bem trabalhada manta de retalhos -, e de certa forma, é ele o centro do romance. A linguagem cuidada e alegórica - a escrita poética, uma das virtudes do livro, denuncia o poeta que se deixou fascinar pelas histórias - cria no leitor a expectativa de uma ideia forte. Mas o problema é que essa expectativa vai saindo baldada com o avanço da narrativa.

As personagens - os enjeitados, os desvalidos e os diminuídos aos olhos da sociedade a que Valter Hugo Mãe já nos habituou em livros anteriores - são também o núcleo forte em “O Filho de Mil Homens”. No entanto, são personagens sempre doces e bondosas, quase como santos imaculados de passagem pela vida terrena, e que sofrem bem sofridas as agruras de um destino que não os favoreceu, de uma comunidade (quase sempre representada por um conjunto de mulheres que conspiram e intrigam armadas com o terço nas mãos) que não quis respeitá-los, que desdenhou do seu sofrimento. O autor parece esquecer que estas personagens não aspiram à pia santidade (as suas vidas não são hagiográficas), longe disso, apenas à felicidade, mas no entanto pouco parecem fazer para isso, pois - e usando palavras do narrador para um outro contexto - parecem feitas “de algodão por dentro”, não há nelas um resto de sangue quente, um resto de vísceras (coração à parte, que esse é sempre enorme e melado), um assomo de tripas que justifiquem uma alteração do destino, esse triste fado a que o “deus” narrador as parece ter condenado.

Essa singular galeria de personagens é apresentada ao leitor nas histórias que se seguem ao “conto infantil” (as primeiras poderiam funcionar como contos independentes). Logo no segundo capítulo, uma mulher anã, capaz de “se sobrepor ao corpinho que tinha e ascender a sentimentos tão belos” (p. 30) que vivia sozinha e de quem as vizinhas cuidavam bem levando-lhe comida e aconselhando-a, mas só até chegar o dia em que a “coitadinha da anã engravidou”; depois chamaram-lhe ordinária e morreu de parto. Na história seguinte, surge Isaura, mulher “enjeitada e diminuta”, aquela que um dia, aos 16 anos, tinha “oferecido tudo ao amor, mesmo sabendo que o amor era longe de bom, mesmo sabendo que era sexo e espera” (p. 61); desflorada por um rapaz que não quis saber dela para casar e, assim, “desonrada”, deixou-se ficar na aldeia, a cuidar dos bichos e de uma mãe que um dia acordou com um estranho sotaque na voz e acabou a comer caganitas de coelho. Anos passados, chega Antonino, o “homem maricas”, para casar com Isaura, a enjeitada: “dois animaizinhos destituídos de grandes méritos mas indubitavelmente filhos empobrecidos de deus” (p. 69). Antonino era o filho de Matilde, a mãe que tinha nojo do filho por ele ser “maricas”: “recolhia as toalhas com luvas e imergia-as em água e lixívia por horas. Ia metê-las ao tanque com muito sabão para se esquecerem de ter encostado na pele de Antonino. De todo o modo, ela nunca as usaria.” (p. 111) (Esta personagem, Matilde, é, sem dúvida, a menos conseguida e, mesmo em ficção, estranha - para os que se preocupam com o género da escrita, é uma figura tipicamente criada por um homem, pois muito dificilmente uma autora, no contexto deste romance, criaria uma “mãe” assim, tão desnaturada).

Em “O Filho de Mil Homens”, as dóceis personagens deixam-se levar no elogio disfarçado das suas bondades, no sofrimento masoquista que lhes é oferecido pela vitimação que lhes chega do mundo (que é sempre mau e regido por mulheres), e pouco ou nada reagem. Por isso, quando se espera que, depois de páginas e páginas de devaneios trágicos e de desgraças “capazes de fazer chorar até as pedras da calçada”, do extravasar de doçuras e de afectos, o seu sofrimento acabe por dar origem a uma sublime redenção, esse potencial redentor já se esgotou, e ainda muito antes de o livro se aproximar do fim; extinguiu-se na comiseração (irónica?) do narrador. E para dentro do livro o livro caía. Para dentro do livro era um sem fim.

“O Filho de Mil Homens” faz ter saudades das letras minúsculas e de “o remorso de baltazar serapião”.

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