Eduardo Souto de Moura desenhou um Romeu e Julieta para museu de Famalicão

Foto
Nova torre vai dialogar com a que foi inaugurada em 1972 NELSON GARRIDO

Anteprojecto de ampliação das instalações da Fundação Cupertino de Miranda foi posto em discussão pública. É a aposta da instituição para celebrar o 50.º aniversário

Famalicão quer entrar nos grandes roteiros da arquitectura mundial, e isso poderá acontecer se for concretizado o projecto de ampliação da Fundação Cupertino de Miranda (FCM), encomendado a Eduardo Souto de Moura. Não há ainda datas, nem orçamentos, mas há já um anteprojecto do novo edifício, que foi ontem apresentado pelo arquitecto e pelo presidente da FCM, Pedro Álvares Ribeiro, numa sessão pública que encheu o pequeno auditório da Casa das Artes famalicense.

A ampliação do edifício inaugurado em 1972 será feita com a duplicação da torre então projectada por João Abreu Castelo Branco e decorada com um icónico painel de azulejo de Charters de Almeida. O novo Museu do Surrealismo, destinado a acolher a valiosa colecção temática da FCM, nascerá nas traseiras das actuais instalações e terá uma ligação funcional e em vértice com a torre existente. Mas enquanto esta se apresenta como um volume granítico e maciço, a nova será metálica e leve, parecendo quase "uma torre técnica" de apoio à primeira. Souto de Moura disse ter procurado que ela crie "empatia" com o velho edifício, e avançou mesmo com a imagem de um Romeu e Julieta (como o Ginger e Fred de Praga) para explicar a sua ideia - "só espero que não acabe como na tragédia de Shakespeare", gracejou.

Pedro Álvares Ribeiro disse que a FCM quer "assegurar a sustentabilidade" do projecto, não apenas na construção do novo edifício, mas também na sua gestão na década a seguir.

Em 2013, a Fundação faz 50 anos. "Gostaríamos de celebrar a data apresentando o projecto de execução do novo edifício. Mas não temos pressa, queremos é fazer as coisas com qualidade", disse o administrador, justificando assim não avançar nem data nem números sobre o orçamento.

Com uma área museológica útil de 1500 m2, o novo edifício fará aumentar para 2500 m2 a capacidade da FCM. Terá três pisos para exposições (escultura, colecção própria e exposições temporárias), um para eventos e outro para bar e restaurante panorâmico. Este equipamento justifica que a nova torre seja ligeiramente mais alta do que a actual - "não é para eu me pôr em bicos de pés em relação à torre existente", cujo arquitectura "tem grande dignidade", disse Souto de Moura.

O novo edifício terá ainda dois pisos subterrâneos destinados a guarda de obras de arte, equipamento que Álvares Pereira diz não existir ainda na Península Ibérica, e acredita possa vir a ser importante fonte de rendimento e financiamento da FCM.

Souto de Moura desvendou as fontes onde foi beber as ideias para o novo Museu do Surrealismo: o Instituto Lina Bo Bardi, em S. Paulo, pela solução de geminação; o Museu Iberê Camargo em Porto Alegre, de Álvaro Siza, onde foi buscar as pontes de ligação exterior entre os dois edifícios, e o Centro Pompidou, para os tubos técnicos do lado de fora duma das paredes - "já estou a ver as pessoas a dizer que será como uma "gaita de beiços"", disse. Outra parede pode funcionar como tela de projecção de cinema ao ar livre e também para publicitar os programas do museu.

O arquitecto justificou a construção em altura com a preocupação de reduzir ao mínimo a ocupação de espaço público naquela zona central da cidade, e assegurou que, quando muito, apenas uma árvore será sacrificada.

A reacção maioritária dos muitos famalicenses que acorreram à Casa das Artes para ver o novo projecto foi de agrado, e muitos vêem nele "um novo pulmão" para a vida da cidade. A fase de discussão pública vai prolongar-se por mais algumas semanas, e o projecto terá depois também de ser submetido à câmara, a quem competirá autorizar a utilização do terreno necessário à construção. Mas o presidente Armindo Costa, ainda que fazendo notar que estava a falar apenas como famalicense, disse que tem "dado fio" à FCM para que o projecto avance.