Ainda há tempo?

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O que volta hoje a estar em causa na Europa é o compromisso que foi selado com a oferta do marco em troca do euro

1. Num dia Christine Lagarde, a francesa que chefia o FMI, avisa para a fragilidade da banca europeia. No outro, as autoridades de Bruxelas respondem-lhe que a banca está óptima e recomenda-se. Passam alguns dias, a "queda" da Grécia parece iminente e os bancos franceses começam a arder. Aparentemente, continua tudo no melhor dos mundos. Só que, de repente, os bancos centrais das grandes economias ocidentais (EUA, Japão, Inglaterra e Suíça) mais o BCE decidem injectar "toneladas" de dólares na banca europeia. "Os bancos centrais não fazem estas coisas a não ser que alguma coisa se passe", escreve o Telegraph. Intervenções da mesma natureza ocorreram na sequência do 11 de Setembro e na véspera da queda do Lehman, há precisamente três anos. Resultaram do clima de total desconfiança que ameaçava paralisar os mercados interbancários. Hoje, passa-se na Europa mais ou menos a mesma coisa.

Chega para demonstrar a distância entre a gravidade extrema da crise do euro e o estado de negação dos governos europeus? Não? Passemos então ao exemplo seguinte.

Os ministros das Finanças europeus, reunidos na sexta-feira em Wroclaw, na Polónia, precisaram de muito pouco tempo para anunciar que decidiram adiar para o início do mês de Outubro a resposta ao agravamento da situação na Grécia. O Governo grego prometeu que vai fazer o que for preciso para cumprir os compromissos assumidos, disse, pela enésima vez, o chefe do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker. Aparentemente, parece que dispõem de todo o tempo do mundo. Na verdade, ninguém consegue entender-se sobre o que fazer com a Grécia, no termo de uma semana em que o seu destino esteve de novo no epicentro da crise europeia. Num dia, estava em preparação um "default controlado". No outro, a saída da Grécia do euro parecia inevitável. No seguinte, nem uma coisa nem outra. Merkel, Sarkozy e Papandreou conversaram através de uma videoconferência, a chanceler alemã garantiu que, afinal, a Grécia era parte "integrante" do euro e o primeiro-ministro grego que o seu país iria cumprir integralmente a sua via-sacra, mesmo que toda a gente já tenha percebido que isso será impossível.

Ainda não chega?

Numa decisão sem precedentes, o presidente Obama decidiu enviar a Wroclaw o seu secretário do Tesouro para discutir com os homólogos europeus a crise da dívida. E o que disse Timothy Geithner? Que o arrastamento da crise da dívida implicava um "risco catastrófico" para a economia mundial. Que a Europa tem de se entender sobre como resolver esta crise. Que precisa de falar a uma só voz e evitar o espectáculo das guerras públicas entre os seus governos e o BCE e - supremo pecado - que tem de se preocupar com o crescimento da economia. O que ouviu em resposta? Basicamente, que não se metesse nos assuntos alheios e que fosse pôr em ordem a sua própria casa.

A visita de Geithner concluiu uma semana em que os europeus tiveram de ouvir o primeiro-ministro chinês, falando no Fórum Económico Mundial, mandá-los a eles "pôr a casa em ordem" antes que Pequim possa considerar uma ajuda (leia-se a compra de títulos de dívida europeus). Que tem, naturalmente, o seu preço. A China quer que a Europa reconheça à sua economia o estatuto de "economia de mercado" (eliminando barreiras às exportações) e o fim dos bloqueios ao acesso à indústria tecnológica directa ou indirectamente ligada ao armamento. Curiosamente, não se ouviu nenhum dirigente europeu indignar-se com as prelecções de Pequim. Como se não bastasse, os BRIC (o C é de China, mas a iniciativa foi do Brasil) mostraram-se abertos a vir em socorro da Europa, admitindo utilizar algumas das suas volumosas reservas de divisas na compra de dívida soberana europeia. "O facto de o mundo em desenvolvimento achar necessário vir em socorro das economias desenvolvidas é uma reviravolta que muitos de nós não imaginávamos possível durante as nossas vidas", escreve Jeremy Warner no Telegraph. Alguém se impressionou em Wroclaw? Parece que não. A Finlândia continua a exigir "colaterais" à Grécia para o segundo empréstimo. A Holanda e a Áustria dizem que também querem. As decisões "históricas" da cimeira de 21 de Julho continuam à espera. A Alemanha não quer gastar mais dinheiro. Os países do Norte, diz o Financial Times, insistem numa versão da crise em forma de "conto moral". O mundo está em pânico? E depois?

A crise do euro é, em primeiro, lugar uma crise política.

2. O que é mais extraordinário é que não há hoje grandes divergências sobre a solução que globalmente poderia tirar a Europa desta espiral em direcção ao abismo. Lêem-se as centenas de artigos publicados na imprensa ocidental pelos economistas mais reputados ou as inúmeras declarações públicas das figuras políticas mais respeitadas à procura de uma pista que justifique esta paralisia europeia mascarada de sobranceria, e não se encontra. A Economist volta a dedicar a sua edição desta semana à necessidade urgente de salvar a moeda única. Pede aos governos europeus "um acto de suprema vontade colectiva capaz de erigir uma barragem de medidas financeiras para estancar a crise e instituir uma sólida governação da zona euro". Alerta para a armadilha da "austeridade" e do "faz de conta". Atreve-se, como Geithner, a dizer que o crescimento faz parte da equação. As soluções podem parecer muito más ou muito caras (a própria revista admite nunca ter imaginado que alguma vez haveria de defender algumas delas, incluindo um reforço da integração europeia), mas não são nada comparadas com o cenário, cada vez mais provável, da queda do euro e da fragmentação europeia. Cita um estudo do banco UBS segundo o qual o fim do euro poderia custar a um país da periferia qualquer coisa como 40 ou 50 por cento do PIB (exactamente, os números não estão enganados) e a um país do centro 20 a 25 por cento. Conclusão: "Ou a Alemanha enfrenta o desafio, ou o desastre será inevitável."

Se tudo isto parece tão óbvio, por que razão Berlim não consegue decidir-se?

3. Muita gente fala hoje dos defeitos genéticos da UEM, lançada há 20 anos em Maastricht, e corrigi-los é, naturalmente, uma parte substancial da solução para esta crise. Mas pouca gente se refere ao acordo político que esteve na base da moeda única europeia e que, de alguma maneira, explica esses defeitos de origem. Numa palavra, tratava-se de garantir que a Alemanha reunificada, que reemergia no centro do continente europeu, se manteria fiel ao seu compromisso com a integração europeia. O que volta hoje a estar em causa é esse compromisso, que foi selado com a oferta do marco em troca do euro. A Alemanha ainda quer mantê-lo? Em que termos? Noutros, diferentes dos que foram negociados em Maastricht?

Aparentemente, os alemães ainda não decidiram. Há sinais contraditórios. E também algumas coisas que já se sabem. Por exemplo, que a reafirmação desse compromisso, com a criação de um governo económico da zona euro, teria de garantir à Alemanha uma posição de liderança muito mais forte e muito mais liberta dos constrangimentos comunitários. Quando Merkel e Sarkozy anunciaram em meados de Agosto que iam propor um governo económico para a zona euro, avisaram logo em que termos seria feito: fora do controlo da Comissão, dotado do seu próprio secretariado e do seu próprio presidente, aliás o mesmo que escolheram para presidir ao Conselho Europeu.

Durão Barroso quis contrariar esta tendência, quando veio dizer esta semana que tinha chegado um novo "momento federador" para a Europa. O que disse teria feito todo o sentido no início da crise. Hoje soa a grito de desespero. Mesmo que a Europa acabe por dar um salto na sua integração política para salvar o euro, fá-lo-á de outra maneira, provavelmente menos vantajosa para os mais fracos e mais vantajosa para os mais fortes. Mas essa é a realidade com que hoje nos defrontamos e perante a qual termos de fazer as nossas escolhas. Porventura ditadas pela necessidade de escolher um mal menor para evitar um mal maior. E esse mal maior também não é muito difícil compreender. Uma Alemanha "à solta" seria um desastre para a Europa, mesmo que acabasse por ser também um desastre para a própria Alemanha. Jornalista